Et voilà

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Foi preciso um pouco de Marcelo para lavar as águas partidárias, limpar um pouco o ar abafado, abrir algum horizonte político a um país radicalizado. Foi preciso Marcelo para dizer sem receios o que hoje poucos à direita arriscam afirmar: que o centro existe, que a moderação faz sentido, que a negociação não é uma alternativa, é o único caminho que dá frutos em democracia quando há tanto em jogo. À partida, tendo em conta o contexto extremo do país, não seria fácil ao candidato presidencial falar sobre o discurso napalm proferido por Cavaco Silva. Ele e o atual responsável pelo Palácio de Belém são pessoas diferentes e com estilos opostos, mas vêm da mesma família política, o que traz sempre na bagagem a obrigação implícita de cumprir a retórica em voga sem lhe acrescentar nada, talvez até aumentando o volume para ser notado e receber os aplausos da claque. Felizmente, Marcelo sabe mais, quer mais e está disposto a fazer muito mais para evitar o impasse. Talvez o maior serviço que prestou ontem ao tentar reintegrar todas as forças partidárias nas negociações em curso para formar governo - contrariando o pensamento pré-histórico de Cavaco Silva - tenha sido precisamente aos apoiantes do PSD e do CDS, que poderiam ser tentados a acantonar--se. Disse Marcelo: todos os partidos eleitos devem ser ouvidos, não há filhos prediletos nem criaturas enjeitadas. Disse também que um governo de gestão não serve nesta altura, não tem capacidade para resolver e enfrentar problemas. Apesar do nome, não há governos de gestão, porque habitualmente estes corpos em transição não gerem, adiam e definham,o que hoje tem riscos bem identificados: o segundo resgate. Nem Passos Coelho nem Paulo Portas o desejam, têm bom senso, só Cavaco parece (parece...) ter vislumbrado nessa hipótese rarefeita uma segurança difícil de justificar. Marcelo é o candidato do centro e do centro-direita, talvez também do centro-esquerda, veremos; é um conservador, mas não parou no tempo, não julga viver no pós-25 de Abril, e ontem mostrou que fazer política significa pensar pela própria cabeça, medindo riscos e possibilidades, sem rótulos apressados, embora com a dose correta de ceticismo para recusar no tempo certo aventuras perigosas à esquerda - porque as há - ou à direita ou de onde vierem. Marcelo não é conformista, o que pode fazer dele uma peça-chave no Portugal que vamos ser.

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