Estudantes angolanos no Brasil defendem voto no estrangeiro

Estudantes angolanos em São Paulo defendem o alargamento do direito de voto aos residentes no estrangeiro, o que não será permitido nas eleições gerais de 31 de agosto.
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"Gostaria de poder dar o contributo, uma vez que é necessário, sendo cidadão. É uma pena que o governo não criou condições, ou, se criou, não foram concluídas", afirmou Danilsa Iracelma Morais de Almeida, 22 anos, que estuda jornalismo há um ano na cidade brasileira.

Outros três estudantes angolanos entrevistados pela Lusa têm a mesma opinião. O aluno de engenharia Marseu Sebastião de Carvalho, 20 anos, realçou que ficaria "apreensivo" perante a possibilidade de fraude nos votos durante a travessia do Atlântico.

Para acompanhar o andamento das eleições, os estudantes afirmaram usar as páginas de jornais angolanos na Internet, já que o assunto não tem destaque na imprensa brasileira. A estudante de psicologia Maria Fernanda Pereira Pascoal, 22 anos, também consulta o seu pai, que está em Angola, para ter mais informações.

A distância da pátria, por outro lado, pode ajudar a refletir sobre o momento do país numa perspetiva diferente. "Aqui [no Brasil], você consegue buscar de tudo um pouco, ter uma visão mais ampla do que está a passar em Angola, e fazer a comparação das duas realidades", disse Pereira Pascoal.

Tanto a estudante de psicologia como Carvalho procuram participar indiretamente nas eleições, por meio da influência de suas ideias junto a amigos e familiares, contaram à Lusa.

Os estudantes também afirmaram que a guerra civil de quase trinta anos (1975-2002) deve ter grande influência na escolha dos eleitores e no número de abstenções. Carvalho realçou que as pessoas que sofreram com o conflito tendem a apoiar o partido da situação, o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que garantiu a paz nos últimos dez anos.

"As mágoas deixadas pela guerra direta ou indiretamente vão afetar a legislação, até que os eleitores se habituem ao novo sistema do país e entendam que outros partidos podem surgir", disse o estudante de engenharia.

Mas o fantasma da guerra afeta mais do que as eleições, de acordo com Álvaro da Silva Pereira, 24 anos, estudante de direito há três anos em São Paulo. "A democracia angolana difere um pouco das outras, não porque o estado implique diretamente, mas porque as pessoas têm a consciência de que ele vai implicar, fruto do que aconteceu no passado", afirmou.

Uma mudança recente nesse cenário são as manifestações anti-regime feitas por jovens angolanos no último ano. Segundo Silva Pereira, que criticou a rígida repressão do governo aos protestos, eles ocorrem sob influência da Primavera Árabe e da globalização.

Carvalho e Silva Pereira também apontaram os principais desafios que o próximo governo de Angola terá: a reconstrução urbanística, a expansão do saneamento básico e as melhorias na saúde e na educação.

Os entrevistados demonstraram-se esperançosos ao afirmarem que irão voltar a Angola quando terminarem os cursos universitários, para exercerem suas profissões e contribuírem com o país.

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