Quando se pensa em São Paulo, a primeira situação que nos vem à cabeça é a insegurança que se vive nessa cidade de 12 milhões de pessoas, onde a violência está sempre presente nas notícias e a sensação de vermos as entradas para os prédios gradeadas e seguranças em abundância à porta das lojas não diminui o receio do visitante perante o que lhe possa vir a acontecer. Se a convivência com esse espectro do espírito paulista já impõe algum respeito, o que dizer de nos encontrarmos na grande capital da América do Sul às escuras e sem previsão do regresso da energia eléctrica? E se a esta realidade acrescentarmos algum cheiro a "pólvora" no ar? .No que respeita a este aroma, a explicação veio cedo, tinha origem no estourar de fusíveis. Quanto à reposição da electricidade, as primeiras notícias apontavam para dois dias. Felizmente, a meio da madrugada, a cidade foi-se acendendo e a normalidade, regressando. Mas, até lá, os taxistas deixaram de conduzir porque não havia semáforos e era mais fácil acontecer um assalto a cada cruzamento. Quem tinha transporte próprio circulava por uma São Paulo de sombras, via nos passeios milhares de fantasmas a tentar chegar a casa e centenas de carros de polícia a garantir a segurança. Nos hotéis, os turistas eram esperados à luz de lanterna e os que já conheciam a geografia dos quartos evitavam bater com a cabeça nas paredes, como me aconteceu. A única luz que cada um tinha disponível era a do visor do seu telemóvel. .O grande benefício do apagão foi que os noticiários das televisões interromperam a novela sobre uma estudante de pernas roliças que levou uma miniminissaia para a universidade, foi apupada e expulsa da instituição. Passou-se da polémica da Geisy, que foi tão grande que criou um debate nacional sobre atitudes retrógradas que ainda vigoram no Brasil, para as causas do apagão que parou o país. O primeiro culpado foi o mau tempo, uma explicação tipo cegonha para os apagões portugueses. Quanto ao apagão, num momento em que o país acha que ultrapassou a crise e só pensa em como vai gastar o 13.º salário, foi uma janela de oportunidade para os paulistas mais românticos. Afinal, a poluição visual é tanta em São Paulo que as estrelas que estão no céu da cidade só podem ser observadas em noites como esta.