Este Portugal ainda vai longe

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Sejam os intelectuais de Boston a fazer 70 quilómetros para irem ao Portugalia Market Place em Fall River comprar vinho Madeira sejam os japoneses de Nagasáqui a chorar pelo sofrimento de três jesuítas portugueses num filme de Hollywood, testemunhei por causa de recentes reportagens para o DN como Portugal está na moda. E, sobretudo, como Portugal é um país do qual é fácil de gostar, muito fruto da nossa história mas também do nosso hoje.

Contaram-me alguns luso-americanos que desde que Ernest Moniz, neto de açorianos e membro da administração Obama, foi fotografado a celebrar com John Kerry o acordo sobre o nuclear iraniano com uma garrafa de madeira que esse vinho começou a ser procurado de novo. Afinal, foi com um madeira que os americanos brindaram à independência em 1776. Por isso são os mais cultos, gente de Harvard ou do MIT, que buscam o vinho.

Já em Nagasáqui, cidade mais famosa pela bomba atómica mas que no século XVI chegou a ser a capital cristã do Japão, a boa memória de Portugal é generalizada, a ponto de qualquer pessoa saber que kopu ou butan são empréstimos do português e o bolo castela um legado. O filme de Scorsese só reforçou a curiosidade pelo país que foi o primeiro ocidental a entrar em contacto com o Japão.

Fomos colonizadores brutais, como todos, mas misturámo-nos como nenhuns outros com os povos distantes. Talvez por isso o passado jogue a nosso favor, seja quando tentamos fazer comércio seja quando procuramos apoio para Guterres ser secretário-geral da ONU. Mas felizmente é o Portugal de hoje que se revela decisivo, esse Portugal que tem um primeiro-ministro que a Índia até celebra como seu filho, esse Portugal que a China recomenda aos turistas por ser seguro e amigável, esse Portugal que cada vez mais brasileiros das elites preferem para segunda casa em vez de Miami, esse Portugal que jornais do mundo inteiro elogiam por causa da história, da cultura, das paisagens, da gastronomia, dos vinhos e, porque não, dos portugueses.

Salvador Sobral, herói improvável, ganhou agora o Festival da Eurovisão depois de seduzir desde os arménios aos espanhóis. Que tenha cantado em português é essencial na sua história, como Caetano Veloso tão bem disse. Uma vez mais Portugal em alta e sem ser no futebol, se bem que Ronaldo ser o melhor do mundo conta muito para a admiração por Portugal, a começar por esses miúdos lusodescendentes que já não falam português em França ou nos Estados Unidos mas vestem a camisola número sete vermelha e verde cheios de orgulho num país que já foi muito longe e que hoje continua a poder ir longe.

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