As condições de saúde do ativista angolano Luaty Beirão estão a inspirar preocupações acrescidas no momento em que este entra hoje, domingo, no 35.º dia de greve de fome. Estão a multiplicar-se os apelos para que volte a alimentar-se, quer dos restantes ativistas detido em junho em Luanda, quer de figuras públicas e apoiantes anónimos que têm vindo a colocar, nos últimos dias, mensagens nesse sentido na página oficial do rapper no Facebook..Ainda ontem, a mulher de Luaty Beirão publicou um texto emotivo e afetuoso no semanário Expresso em que pede ao "herói" da sua vida que suspenda a greve de fome, pois "prefiro-te marido, pai e amigo a ter-te como mártir". Mónica Almeida destaca os "valores bem vincados" daquele e a "promessa" feita quando nasceu a filha do casal, Luena, de que esta criança iria ser "a coisa mais importante da tua vida". E, ao recordar esta promessa, a mulher do rapper procura persuadi-lo "a acabar a greve de fome"..Na página do ativista no Facebook, a mesma preocupação é evidenciada em inúmeras mensagens, sublinhando que Luaty, de 33 anos, com o seu protesto já conseguiu chamar a atenção da comunidade internacional para o caso dos ativistas detidos e para a situação política em Angola. Lê-se numa dessas mensagens que "agora está na hora de ser racional, a bem da causa que defendemos, não te deixes morrer, interrompe a greve de fome por favor!". A meio da semana, os restantes 14 detidos enviaram pequenas mensagens escritas a Luaty pronunciando-se no mesmo sentido..Os primeiros sinais de alarme com a saúde do ativista, que é igualmente detentor da nacionalidade portuguesa, soaram na passada quinta-feira quando um dos médicos da Clínica Girassol, para onde Luaty foi transferido no dia 15, lhe chamou a atenção para a possibilidade iminente de "falência de algum órgão", como foi relatado no próprio dia na página do Facebook do rapper. Nesse mesmo dia à noite, o luso-angolano queixou-se de "dormência e formigueiro e duradoura nos braços, mãos e pernas"..Precisamente no dia em que Luaty foi transferido para a Clínica Girassol, a irmã do ativista, Serena Mancini, declarava ao DN, durante uma concentração em Lisboa, que ele iria "levar até às últimas consequências" a greve de fome. O julgamento de Luaty e dos restantes 14 ativistas detidos está marcado para 16 de novembro. Se até lá, Luaty mantiver a decisão de nãos e alimentar, o dia da primeira sessão do julgamento corresponderá ao 57.º dia de greve de fome..Na sexta-feira, o relator especial da ONU para a situação dos Defensores dos Direitos Humanos, Michel Forst, manifestara preocupação com o estado de saúde do rapper, comentando que "a defesa e a promoção dos direitos humanos tornou-se uma atividade altamente perigosa em muitos países". Por outro lado, Forst classificou como "arbitrária" a detenção dos 15 angolanos "pelo simples facto de defenderem a boa governação" e de terem "exercido o direito à liberdade de expressão e de reunião pacífica"..De passagem por Lisboa, Alcides Sakala, o porta-voz da UNITA (principal partido da oposição em Angola) considerou ontem que a prisão dos ativistas revela a "intolerância política" do governo de José Eduardo dos Santos, que "traiu" os ideais da independência..[artigo:4853012].O porta-voz da UNITA afirmou que a "ditadura" do regime de Eduardo dos Santos "continua insensível", numa altura em que se aproxima o "fim do ciclo" de poder do MPLA, com as eleições de 2017. "É uma direção insensível, que viola os direitos humanos", afirmou Sakala, garantindo que o partido está a preparar-se para as eleições gerais e tudo fará para que a transição em Angola vá "ao encontro da democracia participativa"..Também ontem, falando em Óbidos, um outro ativista angolano, Rafael Marques, disse não ter dúvidas de que os 15 militantes pelos direitos políticos e civis "vão ser condenados por coisas que não fizeram". Em sua opinião, as autoridades de Luanda não mudaram a "forma de pensar nos últimos 40 anos" e "não vão dialogar"..Por isso, Marques juntou-se àqueles que pedem o fim da greve de fome de Luaty por duas razões. A primeira, é que "não há razão para perder mais uma pessoa"; a segunda, é que os ativistas "já conseguiram fazer o que nestes anos ninguém conseguiu: mobilizar a comunidade internacional"..Com Lusa