O Painel de Avaliação Científica das Nações Unidas anunciou que o buraco na camada de ozono está a diminuir e deverá recuperar nas próximas quatro décadas. De acordo com um relatório da ONU, espera-se que o buraco do ozono sobre a Antártida esteja consolidado até 2066, sobre o Ártico até 2045 e no resto do mundo até 2040..Por trás desta recuperação está o Protocolo de Montreal, de 1987, ratificado pelos 198 países-membros das Nações Unidas. Este acordo pretende proteger a camada de ozono através da eliminação progressiva de substâncias que a enfraquecem, nomeadamente os clorofluorocarbonetos (CFC), que eram utilizados como gases para refrigeração. Estes enfraquecem a camada de ozono estratosférica..Em 2016 foi feita a emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, que determina a eliminação gradual dos hidrofluorocarbonetos (HFC), que substituíram os CFC. Espera-se que a emenda de Kigali contribua para evitar a emissão de até 105 milhões de toneladas de dióxido de carbono e para evitar um aumento de 0,5ºC da temperatura global até 2100..Porque é que o buraco do ozono está a fechar? Qual foi o caminho feito até hoje? O buraco de ozono está a fechar porque foram tomadas medidas para impedir que houvesse nova produção e libertação para a atmosfera de gases que tinham efeitos defletores da camada de ozono. E portanto é natural que, diminuindo a quantidade destes gases na atmosfera, também se vá recompondo a camada de ozono. Agora é preciso ver o tempo que demorou. O Protocolo de Montreal é de 1987, estamos em 2023 e só agora começamos a notar alguma inversão da tendência que se vinha a verificar. Dá-nos a noção do tempo que os CFC e HFC ficam na atmosfera e os danos que provocam. É positivo que comece a haver uma inversão desta tendência. No entanto, para voltar aos valores que existiam antes de 1980, quando se começou a notar de forma muito clara a depleção da camada de ozono, vão ainda decorrer muitos anos. Não saberemos quando é que a camada de ozono poderá ter de novo a espessura que tinha nessa altura. Lembremo-nos de que já em 1976 havia alertas neste sentido. Ou seja, apenas quatro anos depois é que se nota muito claramente essa depleção e foi preciso chegarmos quase a 40 anos de depleção para haver uma inversão desta situação. É positivo, mas isto devia dar-nos grandes lições para o futuro..O que se pode fazer para não reverter todo o caminho que tem sido feito? É impedir que este tipo de produtos volte ao mercado, identificar novos gases que vão sendo lançados para o mercado, especialmente nos processos de sprays e refrigeração, ir detetando aqueles que podem ser nocivos para a camada de ozono e impedir a sua comercialização e circulação. É isto que tem de ser feito, pois nada mais há a fazer..O que significa esta recuperação da camada de ozono para as alterações climáticas? Ou são duas questões que não estão relacionadas? São dois problemas distintos. Um tem a ver com a permeabilidade da atmosfera aos raios ultravioleta, que é a questão da camada de ozono, outro tem a ver com a permeabilidade e a incapacidade de reflexão do calor, portanto está mais ligado às ondas infravermelhas, às ondas de calor. O problema das alterações climáticas é que os gases promotores do efeito de estufa continuam a existir e continuamos sem verificar resultados palpáveis quanto a esta situação. São duas disrupções diferentes, com capacidades diferentes para a situação do ser humano e, no fundo, do suporte de vida no planeta..Será necessário fazer novas emendas ao Protocolo de Montreal? Existem mais gases promotores da depleção da camada de ozono, por isso terão que ser feitas emendas, mas esperemos que tal não seja necessário..sara.a.santos@dn.pt