Quando, em 1892, António Augusto Carvalho Monteiro comprou os domínios dos barões da Regaleira por 25 contos de réis, era certo e sabido que aquele espaço estava votado ao sucesso, quaisquer que fossem os planos do novo dono. A cultura e sensibilidade raras do "Monteiro dos Milhões" (como era conhecido graças à enorme fortuna acumulada no Brasil) eram, à partida, sinónimo de mais-valia. O facto de ter desejado para a sua quinta o toque mágico do arquitecto e cenógrafo italiano Luigi Manini, famoso pelos rasgos de criatividade e génio, apenas reforçava a ideia..Ninguém adivinhava, porém, que rosto e espírito iriam animar a Quinta da Regaleira - aninhada a cerca de 700 metros do centro histórico de Sintra - para fazer dela o verdadeiro jogo de opostos que atravessou o tempo e perdura, ainda hoje, nos 4,5 hectares de propriedade e na vegetação luxuriante, na imponência do palácio e da capela, nos estilos neomanuelino e renascentista que se misturam com os jardins de ideal romântico (aqui, as espécies exóticas coexistem com as autóctones, numa recriação do paraíso que devolveria o homem à sua pureza original), na simbologia esotérica e mitológica que se estende às estátuas de deuses e às grutas, aos lagos e aos poços iniciáticos.."Já trabalho na Regaleira há seis anos e, ao fim de todo este tempo, continuo a descobrir coisas novas. É impressionante", afirma António Silvestre, o guia que acompanhou o DN na visita guiada pelo mundo místico de uma quinta que se assume, em cada pormenor, em cada recanto, em cada conceito, como filha do caos e da ordem inerentes a todo o processo de criação.."E o princípio da ordem depois do caos, é a essência da Maçonaria, a que Carvalho Monteiro terá certamente pertencido", observa António Silvestre, aludindo à reprodução da dinâmica da Natureza pelas ordens maçónicas - em constante renovação interna com vista ao equilíbrio - que se reflecte em toda a extensão da Quinta da Regaleira..O que em todo o caso não significa que o "Monteiro dos Milhões" tenha concebido este espaço para a prática de quaisquer rituais. "Não era", sublinha, "isso que sucedia. As relações simbólicas entre o homem e o universo estão gravadas por todo o lado; a ideia de uma corporação regida pelas suas próprias regras e o conceito de iniciação e de caminhada progressiva rumo ao conhecimento também", concede António Silvestre. Mas a Quinta da Regaleira tem que ser lida a um outro nível, menos directo e mais abstracto. Puramente simbólico como, aliás, tudo o que existe naquela propriedade e remete directamente para os ensinamentos de inspiração cristã e para correntes esotéricas como a alquimia, o templarismo e a Ordem Rosa Cruz.."Carvalho Monteiro era essencialmente um conservador patriota e monárquico, que viu na Regaleira um refúgio singular pelo modo como ela lhe permitiu ressuscitar o passado (e a demanda iniciática dos clássicos) e criticar severamente a conjuntura político-religiosa em que o País estava mergulhado na altura", sustenta o guia. Isso, e representar o caminho da gnose como o único capaz de libertar aquele que ousa empreender, até ao fim, a viagem ao encontro de si mesmo..Que o génio do "Monteiro dos Milhões" e de Manini só podia ser sinónimo de mais-valia para a propriedade, a vila e a História ninguém duvidava. O que ninguém sabia, então, era que a Regaleira teria alma de metáfora, mágica, surpreendente por nada ser o que parece a um primeiro olhar. Ali só se vê bem com o coração.