Herdeiro de uma família nobre do Império Austro-Húngaro, Karel Schwarzenberg é um príncipe que foi já ministro dos Negócios Estrangeiros da República Checa e candidato presidencial (derrotado na segunda volta com 45%). Esteve em Lisboa para inaugurar o Espaço Václav Havel, homenagem ao dramaturgo que ajudou a derrubar o comunismo na Checoslováquia. Hoje com 79 anos, Schwarzenberg foi chanceler de Havel quando este era o presidente da extinta Checoslováquia..Foi muito próximo de Václav Havel. O herói da Revolução de Veludo era, de facto, um verdadeiro europeísta?.Havel era um crente na União Europeia. Pressionou muito para a integração..Sente-se um herdeiro das suas ideias? Uma espécie de voz haveliana na República Checa de hoje, defendendo os méritos da União Europeia?.Partilho certamente muitas das suas ideias. Mas não me considero um herdeiro. Isso é impossível. Mas posso dizer que trabalhámos muito juntos e que partilhávamos das mesmas ideias..Sente que a União Europeia, passados 13 anos sobre o alargamento a leste, continua popular entre os checos?.Somos checos e isso quer dizer que somos céticos em relação a tudo. Somos uma nação muito cética devido à nossa história e por isso somos céticos também em relação à União Europeia. Mas se houver um voto sobre se deveríamos ou não permanecer na União Europeia a maioria dos checos votaria pelo sim. Claro, que se entrar num bar em Praga ou outra cidade checa, quase só vai encontrar gente a queixar-se de Bruxelas..Acredita haver razões reais para tanta desconfiança em relação a Bruxelas? Tem tudo que ver com as expectativas serem demasiado altas no momento da integração, em maio de 2004?.Há várias explicações: uma é que Václav Klaus, que foi presidente checo, era muito contrário à União Europeia. E mesmo Milos Zeman proclama ser pró-europeu mas, como Klaus, às vezes parece mais próximo de Putin do que de Juncker..Existe algum risco de contaminação ao seu país do estilo de governação que existe na Hungria ou na Polónia?.Não, de forma alguma. E há grandes diferenças entre a Hungria de Viktor Orban e a Polónia de Jaroslaw Kaczynski. Não se deve ceder à tentação de considerar toda a Europa Central igual. Nós na República Checa temos uma tradição de democracia, um povo apegado à democracia. O risco maior, na minha opinião, é que o senhor Babis, um oligarca, se torne primeiro-ministro e caíamos na armadilha de sermos governados por oligarcas. No caso da Hungria, Orban é hoje bastante nacionalista e autoritário. Sobre a Polónia devo dizer que conheci os gémeos Kaczynski nos anos 1980, quando ainda eram próximos de Lech Walesa. O mais fácil de lidar era Lech, o presidente que morreu na queda do avião na Rússia. Jaroslaw sempre foi mais introvertido e uma pessoa difícil de lidar. Mas não é um ditador. Não há presos políticos na Polónia, nem censura e se é verdade que procura controlar a televisão, não conheci nenhum político na minha vida, em qualquer país, que não tentasse controlar a televisão [risos]. Quando muito encarna um autoritarismo clerical moderado. E há uma oposição muito forte na Polónia..Pode-se dizer que a República Checa é o mais bem-sucedido dos países ex-comunistas europeus?.Somos sem dúvida um caso de sucesso como país. Mas também a Eslováquia é. E os bálticos. Somos bem-sucedidos mas talvez pudéssemos ter conseguido mais..Havel continua uma referência moral para os checos, mesmo para as novas gerações que não conheceram o seu papel no derrube do comunismo?.Sim, continua uma referência moral. É menos popular do que no passado porque alguns políticos esforçaram-se por estragar a sua reputação, mas os checos têm-no em muita alta conta..A sua família pertence a uma casa nobre dos tempos do Império Austro-húngaro. Pensa que esse império multinacional pode dar lições de funcionamento à União Europeia, onde também coexistem diferentes povos?.Um modelo para a Europa? Não. Note, o Império Austro-Húngaro não foi morto pela Primeira Guerra Mundial, o Império Austro-Húngaro suicidou-se. Desde o século XIX que evitava fazer as reformas necessárias e o entendimento com os húngaros em 1867 tornou a situação ainda mais insustentável, porque institucionalizou duas nações privilegiadas. Depois, havia nacionalidades em boa posição, como os italianos, os polacos, os checos e os croatas. E as outras..Portanto, é o oposto de um modelo?.A União Europeia precisa de reformas urgentes. E, nesse sentido, sim, o Império Austro-Húngaro está a servir de modelo [risos]. Além disso, há um erro no relacionamento entre os velhos países da União Europeia e os novos. Em Bruxelas, não percebem a nossa situação..O que é que os ocidentais não entendem na Europa Central e de Leste? O peso de meio século de comunismo?.Sim, o poder do legado comunista, que ainda tem muita influência na forma de pensar. Eu vivi o golpe comunista em 1948 em Praga e a minha família refugiou-se na Áustria. E lá sentia-se o cheiro do nazismo em algumas instituições até aos anos 1970. Só quando os que cresceram no regime nazi se foram embora as coisas mudaram na forma de pensar. Com o comunismo, passa-se o mesmo..Só com a chegada das novas gerações ao poder é que o pensamento vai mudar. Bruxelas deve então ser paciente?.Sim. E dar mais representação aos países da Europa Central. Nos lugares importantes em Bruxelas, Polónia, República Checa ou Roménia estão sub-representados em relação a pequenos países como Luxemburgo ou Bélgica..E a recusa de quotas de refugiados?.Quando a avalancha de refugiados começou, falei com o nosso primeiro-ministro para aceitarmos parte dessas pessoas. Mas depois veio este disparate das quotas. Erro de Bruxelas foi dar ordens aos países para quotas de refugiados. Para qualquer país muito tempo oprimido pela União Soviética isso não é aceitável. Ordens não. E isso foi um momento decisivo. Em que a atitude geral da população mudou. Em qualquer país no mundo seria sempre difícil aceitar muitas pessoas de cultura diferente..Como é o brexit visto de Praga?.Não é exemplo para nós. Pessoalmente acho que é uma catástrofe para a Europa. A Grã-Bretanha é Europa. Sem ela, a união fica incompleta. Uma tragédia para a Grã-Bretanha como para o resto..Existe hoje alguma atração na Europa Central pela Rússia como modelo?.Como modelo não, mas há políticos que proclamam que as oportunidades de negócio são com a Rússia e a China. O que não faz sentido. As trocas comerciais checas são maiores com a Baviera do que com toda a Rússia. Os russos têm uma propaganda intensiva e tentam no velho império ter alguma influência.