Equipas de salvamento procuram sobreviventes após sismo que matou mais de mil pessoas em Marrocos

Especialista aponta que o sismo em Marrocos foi o "maior da região em mais de 120 anos".
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O terramoto mais mortífero de Marrocos em décadas já matou mais de mil pessoas, de acordo com as autoridades, enquanto os serviços de emergência tentam chegar a pequenas aldeias perto das montanhas, onde ainda se receia que haja vítimas presas.

O terramoto de magnitude 6,8 atingiu na sexta-feira uma zona montanhosa 72 quilómetros a sudoeste de Marraquexe, informou o Serviço Geológico dos EUA.

Com fortes abalos também sentidos nas cidades costeiras de Rabat, Casablanca e Essaouira, o terramoto causou danos generalizados e fez com que residentes e turistas aterrorizados se refugiassem a meio da noite.

"Estava quase a dormir quando ouvi as portas e as persianas a bater", disse Ghannou Najem, uma residente de Casablanca com cerca de 80 anos que estava de visita a Marraquexe quando o terramoto ocorreu. "Saí para a rua em pânico. Pensei que ia morrer sozinha", continuou.

Na aldeia montanhosa de Moulay Brahim, perto do epicentro do terramoto, as equipas de salvamento procuravam sobreviventes nos escombros das casas desmoronadas, enquanto os residentes começavam a cavar sepulturas para os mortos numa colina próxima, relataram os correspondentes da AFP.

O exército instalou um hospital de campanha na aldeia e mobilizou "recursos humanos e logísticos significativos" para apoiar a operação de salvamento, informou a agência noticiosa estatal MAP.

Este foi o sismo mais forte de sempre a atingir o Norte de África e, segundo um especialista, foi o "maior da região em mais de 120 anos".

"Nos locais onde os terramotos destrutivos são raros, os edifícios simplesmente não são construídos de forma suficientemente robusta... por isso, muitos colapsam, resultando em muitas vítimas", disse Bill McGuire, professor da University College London, na Grã-Bretanha.

Os dados atualizados do Ministério do Interior no sábado mostram que o terramoto matou pelo menos 1037 pessoas, a grande maioria nas províncias de Al-Haouz, o epicentro, e Taroudant.

Outras 1204 pessoas ficaram feridas, incluindo 721 em estado crítico, segundo o ministério.

Hicham Choukri, que está a dirigir as operações de socorro, disse à imprensa que o epicentro e a força do terramoto criaram "uma situação de emergência excecional".

O engenheiro Faisal Badour confesa que sentiu o terramoto três vezes no seu edifício em Marraquexe.

"Há famílias que ainda estão a dormir na rua porque tivemos muito medo da força deste terramoto", disse. "Os gritos e o choro eram insuportáveis."

O francês Michael Bizet, 43 anos, proprietário de três casas tradicionais na cidade velha de Marraquexe, relatou à AFP que estava na cama quando o terramoto ocorreu. "Pensei que a minha cama ia voar. Saí para a rua meio nu e fui imediatamente ver os meus riads. Foi um caos total, uma verdadeira catástrofe, uma loucura", disse.

Um correspondente da AFP viu centenas de pessoas a deslocarem-se para a praça para passar a noite, com medo das réplicas, algumas com cobertores enquanto outras dormiam no chão.

Mimi Theobold, 25 anos, uma turista de Inglaterra, disse que estava com amigos no terraço de um restaurante quando as mesas começaram a abanar e os pratos voaram.

Já Houda Outassaf, uma residente local, contou que estava "ainda em choque" depois de sentir a terra tremer sob os seus pés - e de perder familiares: "Tenho pelo menos 10 membros da minha família que morreram... Mal posso acreditar, pois estive com eles há apenas dois dias".

O Ministério do Interior declarou que as autoridades "mobilizaram todos os recursos necessários para intervir e ajudar as zonas afectadas".

Por sua vez, o centro regional de transfusão de sangue de Marraquexe apelou à população para que doasse sangue para os feridos.

O sistema USGS PAGER, que fornece avaliações preliminares sobre o impacto dos sismos, emitiu um "alerta vermelho" para as perdas económicas, afirmando que são prováveis danos significativos.

Os líderes estrangeiros expressaram as suas condolências e muitos ofereceram assistência, incluindo Israel, com quem Marrocos normalizou as relações em 2020.

Já a Argélia anunciou que estava a suspender a proibição de dois anos de todos os voos marroquinos através do seu espaço aéreo para permitir a entrega de ajuda e evacuações médicas.

O Presidente dos EUA, Joe Biden, afirmou estar "profundamente triste com a perda de vidas e a devastação".

O Presidente da China, Xi Jinping, manifestou "profundo pesar pelas vítimas" e espera que "o governo e o povo marroquinos consigam ultrapassar o impacto desta catástrofe".

O Papa Francisco expressou "a sua profunda solidariedade para com aqueles que são tocados na carne e no coração por esta tragédia".

Em 2004, pelo menos 628 pessoas morreram e 926 ficaram feridas quando um terramoto atingiu Al Hoceima, no nordeste de Marrocos, e em 1960 um terramoto de magnitude 6,7 em Agadir matou mais de 12.000 pessoas.

O terramoto de El Asnam, de magnitude 7,3, na Argélia, matou 2500 pessoas e deixou pelo menos 300 000 desalojadas em 1980.

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