Episódio 23. Salvar a dona dos sapatos, apesar dela

Theresa May aparecia em capas, mas só os sapatos, ela toda mergulhada em estado de negação. Na cimeira do G20, em Hamburgo, Macron prometera à pobre Theresa: "Vou ajudá-la a sair dessa bagunça do brexit." E estava a fazer por isso. Apesar dela
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Marselha, 19 de agosto, 11.00. A villa era do prefeito da região, emprestada ao presidente para dez dias de férias populares. Tinha um terraço, que tinha o Mediterrâneo. Há já uma hora que um homem com uma daquelas caras compridas de escocês olhava o mar. Tinha chegado adiantado, coisa de horários de avião, mas insistira para que não incomodassem o transitório dono da casa - ele ficava bem, à espera, olhando o mar. A villa ficava numa rocha e a rocha sobre Marselha. No país vizinho, do lado direito, o Mediterrâneo era macho, no da esquerda, também o era, mas naquele de onde ele olhava era la Méditerranée, feminina. Alastair Campbell era pessoa para estar a pensar nisso, sentado numa espreguiçadeira, enquanto abanava a perna cruzada.

Era "britânico, escocês e europeu", apresentava-se assim, embora, nos últimos tempos, insistisse muito na condição de ser europeu. Depois de estudar jornalismo em Cambridge, Campbell fora dar aulas para um liceu no Sul de França. Um dia do outono de 1978, ao apanhar boleia num camião de Aix-en-Provence para Nice, conheceu Jacques Brel, um belga francófono. Quer dizer, não bem a ele, que morrera nesse dia, mas a importância dele. O motorista, enorme e tatuado, passou a viagem a chorar. Era um belga flamengo que repetia, repetia e repetia a gravação de Amsterdam, o porto flamengo que Brel cantou. A Europa dava lições dessas.

Em maio passado, estava a Grã-Bretanha em eleições para o parlamento, e um cronista do jornal The Daily Telegraph escreveu: "Theresa May precisa de um spin doctor - um génio como Alastair Campbell." Durante três mandatos de Tony Blair, Campbell foi o seu homem da comunicação. Azar de May e do The Daily Telegraph, que defendera o brexit, o génio dos conselhos soprava para outro lado, não seria spin doctor deles.

Ainda nessa manhã, num dos breves momentos em que desviou os olhos do mar, Campbell respondeu a uma pergunta que surgira no Twitter: "É tempo para um segundo referendo sobre a Europa?" Na sua conta, @campbellclaret, ele respondeu: "A resposta é sim, claro." E, dez minutos depois, chamou a atenção para o artigo que sairia no The Guardian, no dia seguinte, assinado pelo professor do King"s College Vernon Bogdanor: "Porque é que os eleitores britânicos devem ter um segundo referendo sobre o brexit."

Emmanuel Macron entrou no terraço acompanhado de dois homens. Um era sessentão e com laço azul às bolinhas, e o outro, demasiado jovem e colarinho desapertado. Este último, o britânico cruzara-se com ele, semanas antes, quando foi à Assemblée Nationale, em Paris, fazer uma palestra sobre comunicação aos deputados inexperientes do En Marche, o partido de Macron. O presidente também lá aparecera e Campbell, que conhecia os meandros do poder, notou o tipo com ar de geek de Silicon Valley que agora lhe era apresentado como Ismaël Emelien: "Humm, este é influente", pensou então. O do laço era diplomata em Lisboa e, notou também, amigo de Macron.

Para apresentar Alastair Campbell aos outros, o presidente foi breve, deu de barato a condição de vedeta do britânico. Mas lembrou que falara com ele, ainda em fevereiro, a campanha oficial ainda não abrira, e o assunto que abordaram fora o brexit. Era irreversível ou não?

Aos jornais ingleses já Campbell tinha referido esse encontro. Mas, profissional de comunicação, não revelara que a conversa tinha sido sobre a Grã-Bretanha. À BBC disse discordar dos que viam "arrogância" em Macron, mas o que o impressionara nele fora "uma confiança notável em si próprio".

Os políticos gostam dessas análises. Quando a longa cooperação entre Tony Blair e Campbell se tornou lenda, até em peças de tevê foram satirizados. Numa, o cenário imaginário punha o primeiro-ministro a divorciar-se. E quando alguém pergunta a Blair se era doloroso separar-se da pessoa de quem mais gosta e precisa, ele responde ofuscado: "Mas eu não vou despedir o Alastair Campbell!"

Manifestamente, também Emmanuel Macron gostava de Alastair Campbell e sabia-o um dos promotores da marcha nacional marcada para 1 de outubro, em Manchester. Marcha de nome poético, "O outono do nosso descontentamento", mas, à porta da reunião anual do partido Conservador, ia com uma exigência prática: "Stop Brexit." O brexit era uma luta de gatos dentro do partido Conservador que lhes caiu das mãos, para o UKIP. Este, um partido de bêbados, acabou sem nenhum deputado. Eis a questão: então, o partido de nenhum deputado ia determinar as próximas décadas do Reino Unido?!!!

A revista The Economist, conservadora, já fizera mais do que uma capa com Theresa May, mas só os sapatos, ela toda mergulhada em estado de negação. Há um mês, na cimeira do G20, em Hamburgo, Macron prometera à pobre Theresa: "Vou ajudá-la a sair dessa bagunça do brexit." E estava a fazer por isso. Apesar dela.

Continua amanhã. Acompanhe aqui os episódios do Folhetim de Verão

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