No seu livro Amor sem Limites explica-nos que as relações amorosas são uma espécie de equações matemáticas às quais temos de introduzir as variáveis certas para obter o resultado correcto. A variável filhos vem complicar ou simplificar a equação?Vem complicar. Muitas vezes as pessoas pensam que ter um filho vai manter a relação, mas quando a relação afectiva já não está bem, não é um filho que faz que melhor, antes pelo contrário. Além das preocupações que um bebé desperta, há uma transferência de afectividade, principalmente por parte da mulher, para o filho. Por isso, a sexualidade do casal diminui. .Com o seu livro procura ajudar as mulheres e os homens a terem uma sexualidade mais feliz. O sexo durante a gravidez continua a ser tabu? Quando a mulher engravida, muda logo tudo. Costumo dizer que o primeiro sítio onde se engravida é no cérebro. Quanto ao sexo, há diferenças de trimestre para trimestre. Numa primeira fase, a mulher sente repulsa pelo parceiro porque tem náuseas, vómitos, intolerância ao cheiro, além de muitas vezes ter algias pélvicas, dores idênticas às do período menstrual, e medo de que a relação sexual interfira com o bebé e provoque hemorragia. É por isso que a sexualidade de uma forma geral diminui no primeiro trimestre. O segundo trimestre, pelo contrário, é uma fase óptima porque a barriga cresceu mas não muito e a mulher não se sente esteticamente mal, a mama já não dói, desaparecem as náuseas, os vómitos, a intolerância ao cheiro e geralmente a sexualidade melhora, a mulher já pode fazer amor à vontade que não há perigo de engravidar [ri]. No terceiro trimestre, quando se está muito apaixonado e se tem vontade, é só uma questão de criatividade para inventar as posições mais confortáveis. Se a mulher não tem contracções nem ruptura de bolsa nem qualquer factor de risco, pode ter uma vida sexual normal até ao nascimento do bebé, até porque o orgasmo é uma contracção e no final da gravidez até pode ajudar. Mas a verdade é que nesta fase normalmente a sexualidade diminui e, desta vez, sobretudo devido ao parceiro. .Estudos realizados nos EUA revelam que a libido de uma percentagem considerável de mulheres aumenta nesta fase. O que os casais não sabem é que o «pior» está para vir, com o bebé a pedir atenção dia e noite, não é?Sim, os primeiros meses são dolorosos, sobretudo psicologicamente, porque o bebé não vem com manual de instruções e a sociedade actual criou quase o estatuto «Sua excelência, o bebé». Antigamente, era a criança que se adaptava à família, agora é a família que se adapta à criança. O bebé não se desliga à noite, as mães estão cansadas, não dormem, têm a mama enorme. E supermulheres só no cinema. Por isso pergunto: devem dar de mamar até quando? Ad eternum? Sabe-se que a hormona que controla a produção do leite, a prolactina, diminui o desejo sexual, provoca secura vaginal e impede a ovulação (razão por que as mulheres antigamente achavam que enquanto estavam a amamentar não engravidavam. Às vezes, ao fim de dez ou doze meses tinham outro filho). Outro problema é quando, finalmente, o casal arranja tempo e vontade para fazer amor ter de interromper para pôr a chupeta, mudar a fralda, dar o biberão... não há sexualidade que resista. Como já sabe que vai estar sempre a interromper, nem começa. .E como é que se dá a volta a isso?Um dos problemas de base é que enquanto a pessoa namora e não coabita arranja-se da ponta do cabelo até à unha do pé, depois não, chega a casa, tira a roupa com que foi trabalhar e veste uma T-shirt que nem serve para ir para a rua e já está. A fase de sedução acabou. Eu digo muitas vezes às mulheres que a camisa de noite é só para dormir. Mesmo quando estão em casa com o bebé têm de se arranjar todos os dias, logo de manhã, e não apenas quando têm visitas em casa, porque a sedução é para o marido e esse está lá sempre. Há-de reparar que é ao fim-de-semana que as mulheres se arranjam pior. Não pode ser! .Mas as recém-mães têm tanto que fazer que a última coisa em que pensam é em arranjar-se.Não se pode ser só mãe. Estou sempre a dizer às minhas «clientes»: «Não se esqueça de si como mulher, senão o seu marido vai esquecer-se da mulher por quem se apaixonou.» A mulher tem, independentemente de dar valor à família e de se sacrificar pelos filhos, de continuar a ser mulher, investir em si, no ambiente, porque é o ambiente que estimula o desejo e a criatividade. É fundamental que o casal tenha o seu próprio espaço, que não esteja tudo ocupado com as coisas do bebé, que arranje tempo ao fim-de-semana para serem namorados – o ideal é ao sábado, quando já se descansou um bocadinho. Deixem o filho ou filhos com os avós ou com amigos, num fim-de-semana eles ficam com os seus, noutro vocês ficam com os deles. .No seu livro, parece que coloca a responsabilidade por uma vida sexual satisfatória nos ombros da mulher. Porquê?A sexualidade dos homens é diferente da das mulheres: os homens produzem esperma todos os dias, nós ovulamos uma vez por mês. Por isso é que, em geral, o homem tem uma necessidade sexual do que a mulher. Nós, no período de ovulação, que é quando engravidamos, temos o desejo aumentado. Os ginecologistas até dizem a brincar que é preciso ter cuidado quando é fácil levar uma mulher para a cama porque é quando ela está a ovular, que é quando se engravida! Mas o desejo sexual não é só físico e hormonal, também é psicológico. O órgão mais erótico do corpo é o cérebro e está provado que desde que a pessoa esteja apaixonada isso é que funciona, vai a correr para ir ter com o outro, estarem juntos é a primeira prioridade, apetece-lhe sempre. O problema surge com a coabitação, com a rotina do dia-a-dia. Ao fim de três anos, normalmente, a sexualidade do casal diminui vinte por cento por semana. Passa a ser a última coisa ao fim do dia. Faz tudo e, se sobrar um espacinho... Não pode ser assim! Não arruma a cozinha, não faz nada, vai namorar e o que houver para arrumar fica para o dia seguinte. .Dito assim parece fácil.E é. Ao contrário da maioria, que diz «se não lhe apetece fazer amor não faça», eu digo «se não lhe apetece, comece». As pessoas muitas vezes têm apenas dificuldade em ultrapassar a inércia de começar e depois dizem que foi óptimo. Por isso é que eu insisto: «Experimente, tome a iniciativa e comece, só custa é começar.» Sabe-se que quanto menos fizermos amor, menos vezes nos apetece. O ideal é programar. Pode programar-se o prazer..Essa ideia de programar o prazer é um pouco estranha. Mas volto a insistir: é à mulher que cabe mais essa «tarefa»?Se tiver fome e o frigorífico estiver cheio de comida mas não a deixarem abrir a porta, o que é que acontece? Tem um ataque de nervos. É o que nós fazemos aos homens numa fase em que a rotina já se instalou na relação. Segundo os estudos, a maioria das vezes em que os casais deixam de fazer amor é por causa das mulheres. O casamento, ou viver juntos, é uma sociedade a dois, se um dos indivíduos entra em falência, a sociedade arruina-se. Muitas vezes quando as mulheres chegam ao meu consultório a queixar-se dos maridos eu pergunto: o seu marido é feliz? De que é que o seu marido gosta? A senhora faz-lhe o que ele gosta? A maior parte não faz. Se tiver um homem bem- amado, tem tudo o que quer dele. Volto a dizer: as mulheres têm de planear na agenda, sem dizer nada: «Fazer amor: segunda, quarta e sexta.» E é para cumprir. Apareça no emprego dele a raptá-lo, mande-lhe mensagens sedutoras, namore, porque quando se namora, faz-se amor em qualquer lado. Desde que não seja na via pública, não são presos. Porque é que há-de ser sempre na cama, ao fim da noite, quando já estão os dois tão cansados que nem têm forças para puxar o lençol? .Sim, senhora doutora.[Ri] Claro que a mulher não é a única responsável, de maneira alguma. Se o casal andar a discutir todos os dias, não há ambiente, como é óbvio. Hoje em dia há muito stress. E a altura de crise não tem ajudado. As pessoas têm diminuído as relações sexuais, estão desempregadas, têm mais tempo, mas estão deprimidas... E devia ser precisamente o contrário. Se tiver uma boa vida sexual e estiver bem consigo própria, a sua autoconfiança aumenta. Se quiser ir a uma entrevista de emprego e tiver acabado de fazer amor, vai ver que corre muito melhor..Está a dizer que o sexo é uma das soluções para a crise?Justamente. É de graça [ri], melhora o humor e queima calorias. Se uma pessoa estiver bem-amada em casa, está muito mais bem-disposta, tem muito mais brilho, está em muito melhores condições para enfrentar as adversidades. .Voltando aos recém-pais, além de os aconselhar a não desistirem do sexo, não seria também importante dizer-lhes que se não tiverem tempo nem vontade e a coisa passar a ser mais espaçada, não há drama? É que às tantas parece que os livros e as revistas impõem objectivos de produtividade nesta «matéria» e se não os atingirmos perdemos o bónus..É verdade. Mas, por outro lado, tem de comer todos os dias, mesmo que não tenha fome, não é? Eu costumo dizer que há coisas que não podemos mudar, como os genes. É como quando está a jogar às cartas, a mão que lhe sai é uma questão de sorte, mas a maneira como você joga é a sua qualidade de vida. Se souber jogar bem, tem uma melhor qualidade de vida. Oiça, acasalar é facílimo, todos nós sabemos como se faz, manter a relação é que é mais difícil, aí é que está o segredo. E o sexo movimenta o mundo, as pessoas abandonam o marido ou a mulher, os filhos, tudo, porque se apaixonam. Ninguém fica a viver eternamente com os pais ou com os irmãos. A sexualidade é importante e não é só genital, é afecto, é imaginação, é namoro, no verdadeiro sentido da palavra. Quando nos apaixonamos, o homem vira príncipe, mas, como eu digo, príncipe encantado só havia um e a Cinderela ficou com ele..Diz que as mulheres são educadas para serem boas esposas e por aí fora, mas não para serem boas amantes. Como é que isso se faz?Somos todas ensinadas a seduzir desde pequeninas, ensinam-nos a postura, o cruzar a perna, o olhar, o arranjar-se, mas ninguém nos ensina a fazer amor. É tentativa e erro. Nas culturas orientais é diferente. O que é preciso é informar, mas sem alarmar. Uma adolescente informada não é de maneira alguma uma adolescente empurrada para fazer amor, antes pelo contrário, a informação que tem permite-lhe perceber que só deve iniciar a vida sexual quando estiver preparada para tal. Além disso, quando a iniciar é mais provável que faça prevenção das infecções de transmissão sexual e da gravidez. As gravidezes não desejadas na adolescência estão a baixar dez por cento ao ano no nosso país. .Hoje em dia é comum os homens assistirem ao parto, partilharem esse momento que durante séculos foi só das mulheres. No seu livro coloca algumas reservas quanto a isso. Porquê?Na cesariana, embora nos hospitais públicos não seja permitido, sou a favor de que os pais assistam porque é uma incisão no abdómen, só podem entrar a partir de certa altura e só vêem o bocadinho por onde o bebé vai sair. Mas nos partos por via vaginal, embora o homem normalmente não veja o bebé a ser expulso pela vagina, porque está do lado da mãe, na minha opinião não deve estar presente no período da expulsão porque aquilo é esforço puro, não tem beleza, é uma mãe a ter um filho. Dizem alguns estudos feitos por psicólogos que nesse momento a mulher passa a ser mãe do filho e deixa de ser a namorada. Parece que a percentagem de homens que arranja posteriormente outra para namorar é muito mais elevada nos que assistem ao nascimento dos filhos. E se imaginarmos uma vagina dilatada, com uma cabeça a sair, com sangue e, em noventa por cento dos casos, com fezes, isto tem tudo menos de sensual e de sexual. É uma imagem muito agressiva. Por isso, se o pai quer sair na altura da expulsão, eu não tenho nada contra, sou a favor. .De acordo com um recente relatório europeu de saúde perinatal, Portugal é o segundo país da Europa – o primeiro é a Itália – onde se fazem mais cesarianas, com uma taxa de trinta por cento. Porquê?A pergunta é boa, mas vou responder-lhe com outro facto. Somos também o país da Europa que tem menor mortalidade neonatal..E uma coisa tem a ver com outra?Claro. Se calhar, arriscamos menos. Estamos todos a lutar para diminuir a percentagem de cesarianas, mas não pode ser a todo o custo. Não podemos arriscar vidas. .Nos hospitais privados, a percentagem de cesarianas é ainda maior e muitas são feitas a pedido da mulher. Em que circunstâncias esta situação se justifica? As cesarianas não deviam ser feitas só por indicação médica?Sim, mas não sou contra que se faça uma cesariana se a mulher não está psicologicamente preparada para um parto vaginal, ou porque tem medo ou por outras razões. A cesariana é uma cirurgia e, como todas as cirurgias, envolve algum risco, mas é mínimo..Mas faz sentido uma pessoa fazer cesariana por razões estéticas, para evitar as estrias das últimas semanas de gravidez ou preservar o «tónus muscular» da vagina? Não faz sentido pôr uma prótese mamária?.Sim, mas quando se põe uma prótese mamária é só o corpo da mulher que está em causa, no parto há um terceiro elemento, o bebé. E há estudos que indicam que a cesariana pode aumentar, por exemplo, as complicações respiratórias do recém-nascido.Se a incisão for pequenina, não há esse risco. Mas claro que a cesariana não é o ideal, se puder vir por via vaginal, deve vir e nós lutamos para reduzir a incidência de cesarianas. O que eu penso é que não pode nem deve haver radicalismo nesta matéria. .A questão é perceber quais os critérios utilizados hoje em dia para fazer uma cesariana e se esses critérios variam se estivermos num hospital público ou num hospital privado.Honestamente, variam. Teoricamente, não deviam variar muito, mas variam. No público temos de justificar todas as cesarianas com uma razão médica: patologia da mãe ou do feto, sofrimento para um ou para o outro. No privado, muitas vezes a razão é de natureza psicológica por parte da grávida. .De acordo com o mesmo relatório, Portugal é um dos países com taxas mais altas de mães pela primeira vez. As mulheres que chegam ao seu consultório estão preparadas para serem mães? Sabem o que as espera?Ninguém está preparado para ser mãe. Só com o tempo. As próprias hormonas da gravidez alteram a mulher. Durante os primeiros meses, muitas vezes a grávida sente uma certa instabilidade afectiva, chora por tudo e por nada. Depois de ter o bebé acontece a mesma coisa. As depressões pós-parto são extremamente frequentes e é preciso dar muita atenção a isso. Tudo o que lhe fizerem de bem ou de mal, ela hipervaloriza. É importante que os homens saibam isto! É tudo ao cubo, o bem e o mal. .Quais são os maiores medos de uma grávida? Que o bebé tenha algum problema, o que é que pode ou não fazer para não prejudicar o bebé, se as medicações que fizeram têm algum efeito na formação do bebé, como é que vai ser o parto. Mas na verdade o que assusta mais são as malformações..Hoje fazem-se ecografias a três e quatro dimensões e por vezes mais do que as três necessárias. Isto dá mais segurança à grávida ou pode causar ainda mais ansiedade?Diminui a ansiedade. Se fizer três ecografias durante a gravidez, a primeira para datar correctamente, a segunda, que é a mais importante, a morfológica, para ver se o feto tem tudo no sítio e não há nenhuma malformação, e a última para observar o crescimento e ver se o bebé está a ser bem ou mal alimentado. Antigamente, uma pessoa tinha um filho completamente às escuras, não tinha a menor noção do que lá estava dentro. Hoje, acompanha em directo o desenvolvimento do feto. Além disso, o rastreio combinado – o rastreio bioquímico com a análise do primeiro trimestre associado à ecografia morfológica em que se vê a translucidez da nuca e o osso do nariz – pode de facto aumentar o diagnóstico precoce de síndrome de Down, o que é extremamente importante..Hoje parece que se tem mais medo do parto do que se tinha antes, quando a mortalidade materna era muito maior e a assistência médica muito menor? Porque é que se dramatiza tanto este momento?Porque há mais informação e porque parece que todos nós temos um prazer especial em só contarmos o que aconteceu de desgraças. Se estiver na sala de espera de um obstetra durante algum tempo, vai confirmar isso: só ouve contar desgraças durante a gravidez e o parto. Os partos rápidos, bons, óptimos, ninguém conta. O ser humano vive de facto da tragédia, tudo o que é tragédia é notícia, não há histórias de amor felizes, ninguém as conta porque não vendem. .Eu estou sempre a contar a história do meu segundo parto, que demorou 17 minutos!Óptimo, mas garanto-lhe que é raro. Antigamente, a informação era passada das mães para as filhas ou das avós para as netas, era um conceito familiar, um parto era um acontecimento normal, fazia parte da vida. Hoje há uma enorme medicalização da gravidez e do parto, há uma série de factores exteriores à mulher que ela não entende completamente e condicionam depois o seu próprio medo.