Entrevista a Francisco Louçã (coordenador do BE): "Bloco quer destruir o actual mapa político português"

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"Se não se portar mal, o BE entrará nas listas do PS e mesmo, a prazo, para o Governo. O PS é um óptimo asilo para 'revolucionários' de meia-idade." Palavras de Vasco Pulido Valente em artigo recente no Público. Quer comentar?

O Vasco Pulido Valente é um burguês enfastiado que do alto da sua experiência de ex-deputado do PSD da maioria absoluta acha que a política terminou quando ele saiu do Parlamento. Não percebe que o BE constituiu a única transformação estrutural da política portuguesa nos últimos dez anos. Dantes havia dois partidos de um lado e dois de outro lado; connosco, o mapa mudou. E mudou porque para professores, enfermeiros, trabalhadores, intelectuais, para o povo mais pobre, a exigência de uma política com rigor e energia era muito forte. O BE não se acomoda mas confronta. Não fica à espera, mas procura constituir um movimento socialista de esquerda popular. Vasco Pulido Valente está enganado quando pensa que serei ministro de um próximo Governo Sócrates.

Não será ministro mesmo se o PS não obtiver maioria absoluta e precisar do BE?

Não. A minha responsabilidade é ajudar a conduzir uma alternativa as todas as políticas sociais do Governo Sócrates. E vencê-lo nesse terreno.

Já ouvi um deputado do PS garantir que se algum dia Francisco Louçã fosse ministro a Bolsa portuguesa caía a pique...

Não há animal mais predador das bolsas do que o capitalismo. Joe Berardo ganha numa manhã de jogo especulativo - seja sobre as acções da Portugal Telecom, o BCP ou o Benfica - muitos milhões de euros sobre os quais não se pagam impostos. Quero acabar com esses raides predadores e impor justiça fiscal e transparência. Há dez mil milhões de euros em Portugal que não pagam imposto. Muitos deles resultam de jogos na Bolsa. Essa é a selva que esse anónimo deputado do PS quer proteger e que eu quero atacar. |

O acordo agora celebrado entre o BE e o PS para a Câmara de Lisboa é um teste a uma futura coligação governamental?

Não haverá nenhum entendimento entre o PS e o Bloco de Esquerda a nível nacional. O acordo de Lisboa é um instrumento para combates coerentes que respondem a uma exigência de cidadania: a defesa dos transportes públicos, o combate à corrupção e sobretudo o plano verde que paralisa a especulação. Em contrapartida, nas grandes escolhas nacionais o que está em causa é toda a diferença entre o Governo, que destrói serviços públicos, e o BE, que quer dinamizá-los.

O acordo foi criticado na Comissão Política e poderá ter uma oposição ainda mais ampla na próxima reunião da Mesa Nacional do BE. Encara isto com apreensão?

O BE vive naturalmente de pontos de vista diferentes, que podem ser expressos sobre qualquer questão. Na última convenção, a corrente minoritária mais importante argumentava que o BE só podia fazer política com um pacto de unidade com o PCP. Mas o BE, pelo contrário, é um partido alternativo ao PS e ao PCP: queremos construir uma esquerda nova. No passado, o PCP aliou-se em Lisboa ao PS quando o PS estava no Governo e aliou-se ao PSD no Porto, Coimbra e Sintra quando o PSD estava no Governo. O BE não faz coligações: só podemos fazer acordos pontuais sobre políticas exigentes.

António Costa era ainda há pouco o número dois do Governo. O acordo celebrado com ele não retira manobra ao BE como oposição parlamentar?

Não. O Bloco tem vindo a ganhar força como oposição coerente. Mostrando que a esquerda socialista tem um projecto de governação que confronta as elites dominantes em Portugal. O Governo Sócrates, pelo contrário, vive de braço dado com estas elites.

"O destino natural do Bloco de Esquerda é o PS", escreveu recentemente o seu ex-camarada Miguel Vale de Almeida, que foi um dos fundadores do BE. Subscreve?

Sempre detestei a ideia partidária arrogante de recusar as pessoas que se afastam de um partido como sendo "folhas secas". Sinto orgulho de ter estado em muitos combates políticos com o Miguel Vale de Almeida. Estou certo de que assim continuará no futuro. Mas estou totalmente em desacordo com a visão estratégica dele nesta matéria.

Porquê?

A chave de uma política de esquerda em Portugal é destruir a hegemonia que o PS tem junto dos eleitores de esquerda. Isto tem permitido as alternâncias do bloco central e a agressividade liberal que caracteriza o Governo Sócrates. A estratégia do BE é destruir o actual mapa político português para polarizar um campo novo que lute pelo socialismo, ou seja, pela justiça social. Ainda agora foi divulgada a lista dos homens mais ricos do País: o mais rico tem o equivalente a 300 mil anos do salário mínimo nacional. Por mais competente que seja Belmiro de Azevedo, e eu respeito-o por isso, nenhuma fortuna desta dimensão vem do trabalho: vem do trabalho dos outros e do jogo financeiro. A nossa sociedade permite uma injustiça genérica que destrói pessoas. O socialismo é a ideia de responsabilidade para defender essas pessoas. É o que nos distingue do PS.

Mas o PS proclama-se socialista...

O PS é o partido da privatização da energia ou da água. O PS é um partido que vacila perante os fortes e mostra-se capaz de atingir os fracos com a maior brutalidade.

O BE vai eternizar-se na oposição?

Não. O Bloco quer disputar a maioria em todos os terrenos da política. Formámos parte da maioria absoluta no País para impedir que as mulheres continuem a ser presas por abortarem. Podemos e queremos ter a maioria. As grandes ideias da política socialista que defendemos concretizam-se em programas de governo. Quando tivermos a responsabilidade de uma maioria de mudança estaremos prontos a assumi-la por inteiro.

A perda da maioria absoluta do PS em 2009 será uma boa notícia para o BE?

Seria uma boa notícia. Mas também seria perder tempo considerar uma discussão sobre acordos governamentais. Eu não quero perder tempo. Sócrates é um homem coerente: quando aumenta a idade da reforma ou entrega hospitais públicos à gestão de banqueiros, define uma política que não é remediável. A única forma de mudá-la é apresentar alternativas concretas. Em 2009 proporei um programa de governação que seja uma clara alternativa ao PS e obrigue qualquer eleitor de esquerda a fazer escolhas. |

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