Entrevista a Bernardo Sasseti

Motion, o seu novo disco, é a derradeira declaração de amor do pianista e compositor à imagem, em que o mais correcto seria ter créditos de fotógrafo e cineasta. «É impossível pensar na música que faço sem imagens. É como se fosse um vice-versa», dirá no rescaldo da conversa com a <b>nm.</b> Talvez a partir de agora o devessem levar a sério para lá do piano. <br /><br />
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Nasceu em Lisboa, em Junho de 1970. Iniciou os estudos de piano clássico aos 9 anos, com a professora Maria Fernanda Costa, e mais tarde com o professor António Menéres Barbosa, tendo frequentado também a Academia dos Amadores de Música. Dedicou-se ao jazz, estudando com Zé Eduardo, Horace Parlan e Sir Roland Hanna. Em 1987 começou a sua carreira profissional, em concertos e clubes locais, com o quarteto de Carlos Martins e o Moreiras Jazztet; participou em inúmeros festivais com músicos como Al Grey, John Stubblefield, Frank Lacy e Andy Sheppard. Desde então, nos primeiros 15 anos de carreira, apresentou-se por todo o mundo ao lado de Art Farmer, Kenny Wheeler, Freddie Hubbard, Paquito D’Rivera, Benny Golson, Curtis Fuller, Eddie Henderson, Charles McPherson, Steve Nelson, integrado na United Nations Orchestra e no quinteto de Guy Barker, com o qual gravou o CD Into the Blue (Verve), nomeado para os Mercury Awards 95 – Ten Albuns of the Year. Em Novembro de 1997, também com Guy Barker, gravou What Love Is, acompanhado pela London Philarmonic Orchestra e tendo como convidado especial o cantor Sting. Como compositor destacam-se as suites Ecos de África, Sons do Brasil, Mundos, Fragments (Of Cinematic Illusion), Entropé (para piano e orquestra) e 4 Movimentos Soltos (para piano, vibrafone, marimba e orquestra). O seu primeiro trabalho discográfico como líder, Salsetti (Groove/Movieplay), foi gravado em Abril de 1994 com a participação de Paquito D’Rivera; o segundo, Mundos (Emarcy/Polygram), em Janeiro de 1996; Nocturno, lançado pela editora Clean Feed em 2002, foi distinguido com o primeiro Prémio Carlos Paredes. Índigo e Livre são outras das suas mais recentes gravações de piano solo para a mesma editora.
Dedica-se regularmente à música para cinema, tendo realizado vários trabalhos nos quatro últimos anos, entre os quais se destaca a participação no filme do realizador Anthony Minguella The Talented Mr. Ripley (Paramount/Miramax). Para este projecto gravou My Funny Valentine, com o actor Matt Damon, entre outros temas. Compôs igualmente, em parceria com o trompetista Guy Barker, uma série de temas para serem apresentados na première deste filme realizada em Los Angeles, Nova Iorque, Chicago, Berlim, Paris, Londres e Roma.
Entre os seus mais importantes trabalhos de composição para cinema contam-se Maria do Mar, de Leitão Barros; Facas e Anjos, de Eduardo Guedes; Quaresma, de José Álvaro Morais; O Milagre segundo Salomé, de Mário Barroso; A Costa dos Murmúrios, de Margarida Cardoso; Alice, de Marco Martins, o documentário Noite em Branco, de Olivier Blanc, e a curta-metragem As Terças da Bailarina Gorda, de Jeanne Waltz. Como solista, participou também no filme Pax, de Eduardo Guedes, e na curta-metragem Bloodcount, de Bernard McLoughlan.
Como concertista apresenta-se em piano solo, em trio com Carlos Barretto e Alexandre Frazão ou em duo com o pianista Mário Laginha, com quem gravou os CD Mário Laginha/Bernardo Sassetti e Grândolas (uma homenagem a Zeca Afonso e aos trinta anos do 25 de Abril). De entre muitos discos gravados (como solista, acompanhador e compositor) podem destacar-se Conrad Herwing e Trio de Bernardo Sassetti – Ao Vivo no Guimarães Jazz; Orquestra Cubana Sierra Maestra – Dundumbanza e Tibiri Tabara;Carlos Barretto – Impressões e Olhar; Carlos Martins com Cindy Blackman – Passagem; Luís Represas – Cumplicidades; Carlos do Carmo Ao Vivo no Coliseu; Guy Barker – Into the Blue, Timeswing e What Love Is; Perico Sambeat – Perico; Guillermo McGill – Cielo e Oración; Tetvocal – Desafinados; Djurumani – Reencontro; e Andy Hamilton – Jamaica by Night.

«Preciso da imagem, da cor ou da ausência dela, de ver a cara das personagens para escrever a música.» Foi isto que disse quando lançou Alice [composições para o filme de Marco Martins]. Continua a ir por aqui neste Motion?
O meu trabalho vive muito da repetição, do ostinato ou ideias que se repetem. São ideias obsessivas, que têm muito que ver com a corrente da música minimal repetitiva, mas que se afastam muito dela.

É a atracção do buraco negro?
Eh pá! C’um caraças. Sim, eu tenho um lado muito dark.

Só lhe falta compor para heavy-metal.
Só comporia se levasse com um taco de basebol na tola. Um dos meus sonhos de infância era partir uma guitarra, mas por não saber tocar e não pelo êxtase provocado pela música. Parti-la num televisor. Adoraria ver as faíscas.

Faz parte do mergulho às profundezas do ser?
Parte de um poema do Edgar Allan Poe (A Dream within a Dream) diz que «all that we see or seem / is but a dream within a dream». É uma frase tão objectiva como vaga. Foi pegar em músicas e transformá-las numa espécie de suite. O primeiro título de uma música é 7.10 AM, que é a hora a que geralmente acordo. Mas acordo a essa hora precisamente porque tenho de levar as minhas filhas à escola, porque senão acordava às 07h15.

A música serve-lhe para preencher fragmentos?
Quando me perguntam sobre a minha música, sou levado a dizer que gosto de muita coisa. E nunca deixarei de pôr essas coisas de parte por motivos estéticos ou de estética artística. Gosto tanto de tocar uma balada excepcionalmente silenciosa como gosto do êxtase e do transe musical, daquela coisa orgânica e rítmica. Apesar de para mim a grande intensidade musical e emocional vir sempre da música mais respirada, que muitas pessoas consideram triste. Não falo de alegria nem de tristeza. Não quero que a minha música seja um reflexo daquilo que quero ser. Gosto da intenção. Mesmo sendo uma balada a um tempo lentíssimo não significa que isso possa representar tristeza.

Como se consegue manter a sinceridade musical em tournée?
É muito complicado. Conta aquilo que fazemos no momento. A música tem uma estrutura matemática e um espaço de improviso. É nesse espaço que acontece a sinceridade.

É um mito urbano que o Concerto de Colónia, de Keith Jarret, foi quase todo de improviso?
Sim e não. Há temas que o homem estudou em casa de uma forma obsessiva, como ele é. E há naturalmente um desenvolvimento musical que é um caso fora do comum.

Jarret é o maior pianista e compositor do século XX?
Não. Há dezenas de virtuosos. Outros talvez não tenham tido tanta sorte em termos mediáticos. A partir do momento em que os Beatles dizem que são mais conhecidos do que Jesus Cristo tudo muda. Esse é o grande fenómeno da mediatização. O mundo está assim, e cada vez pior. Acontece que dantes era tudo mais uniforme e raramente um compositor era levado aos píncaros.

O seu bem-amado Glen Gould revoltou-se contra essa sociedade do espectáculo e recolheu aos bosques.
Eu estive no Canadá e toquei no piano de Glen Gould. Mas não escrevas que pode parecer presunçoso.

Para criar alguma coisa que se oiça é preciso esse recolhimento?
Existem fenómenos na música, como Jarret, que nos ultrapassam. Acontece que estas pessoas estiveram no sítio certo à hora certa. Haverá outros ao longo da história de que não temos conhecimento. Falando destes, são pessoas de trato difícil.

É o seu caso?
Eu? Não sei. Já fui melhor, mais diplomático.


Mário Laginha comprou os bilhetes todos da primeira fila para ter a certeza de poder ver as mãos de Jarret conforme a posição do piano. Era capaz de fazer o mesmo com algum pianista?
Não, quero é ouvir a música.


Vê e ouve ou só ouve?
Oiço, sobretudo. O lado visual em palco é muito distractivo. É por isso que uma coisa é arte e outra é espectáculo. Quando vês um espectáculo que tem muito folclore, muita luz, há inevitavelmente muita dispersão.

No seu caso, quando está ao piano, oscila entre uma corcunda acentuada, como quem está num casulo, e uma espécie de espreguiçar de quem acorda.
Isso é muito bom. E se eu chamasse ao meu próximo disco Notre Dame? Uma coisa garanto: quando acabo um concerto é-me muito difícil sair do casulo e falar com as pessoas. Mas em palco gosto da espontaneidade. Levantar-me quando quero. Não consigo lidar com o formalismo. A partir do momento em que me sento e começo a pensar em música, tudo acabou. É uma fatalidade ter de parar porque existem as malfadadas palmas. As pessoas gostam de explodir, mas por vezes existe aquela obrigação de bater palmas. Aquilo é péssimo porque me interrompe, obriga-me a voltar a mim vezes sem conta. O concerto que mais gozo me deu foi a apresentação do Índigo, para uma audiência de pobres sobreviventes em que fiz um concerto inteiro no Fórum Lisboa, sem pausas. Uma hora e meia sem reacção. Foi para muitos um motivo de perplexidade, mas para outros foi um encontro. Depois, detesto quando me dizem que foi porreiro e olho-lhes nos olhos e não vejo nada. Não tem de haver discursos finais. É como quando um livro está publicado e passa a ser das pessoas. Passa-se o mesmo com o disco ou o concerto.

A sensação que tem quando acaba de dar à luz uma música ou um disco é a do desespero do trabalho de parto?
Não dá tempo. Neste momento, por exemplo, já estou com três projectos em cima. Quero é continuar. Este disco talvez vá mais por aí, por ser um sonho de há muito, com óbvias referências de transição de tema para tema – apesar de por vezes parecerem distantes. Isso vê-se muito no art work [trabalho gráfico].

Já não dissocia a música da imagem?
Não. É impossível. É o meu princípio como realizador, aquilo que sempre quis fazer. Este Motion tem cerca de seis curtas-metragens à volta da música baseadas em fotografia. Mas já sei que as pessoas vão olhar para isto e dizer: «Olha, este gajo também faz umas fotografias de jeito.» Convém que se saiba que eu me dedico tanto à fotografia como à música. É claro que ninguém vai dar o devido valor ao trabalho fotográfico ou de filme porque ninguém pode ser capaz em duas ou três coisas. Tu dedica-te lá à música e está quietinho.

Vincent Gallo, por exemplo, tem um trabalho de fotografia notável.
Um tipo socialmente difícil…

Consta que é um coleccionador de memórias cinematográficas e de sensações. Tem boiões nas estantes com imagens do Magnólia [de Paul Thomas Anderson] ou do Short Cuts [de Altman]?
Esse portento do Altman mudou a minha vida. É impressionante o que ele faz com as narrativas. Para mim, a arte de todas as artes é a literatura. O que gosto de fazer é contar histórias através da música. Gosto é de ficção. A minha vida não é fazer música, exclusivamente. Posso dizer que o meu trabalho fotográfico é francamente mais interessante do que a música que faço. Ninguém me vai levar a sério, mas é assim que sinto. Gosto muito mais do empenho da fotografia, que me leva a libertar-me.

Como músico procura o acorde místico?
Não faço ideia do que isso é [risos]. Há um artigo de Vítor Rua que fala de um compositor italiano do Renascimento ou do Barroco, não tenho a certeza, um tipo que ele diz ser o verdadeiro inventor da música moderna. O pioneiro da música do século XX. Toda a gente acreditou. Não sei o que diga. Isso da mística tem que ver com o estado de espírito do momento. Já fui a concertos e adormeci, e a outros em que experimentei talvez uma espécie de êxtase místico. É claro que se ouvisse Mozart nos Himalaias aquela música seria um background harmonioso, mas que também serviria de background para a grandeza da paisagem. Mas ouvir o Quim Barreiros também podia ser divertido [risos]. Olha uma para escritores: «Estou a tirar o curso de dactilografia, estudo noite e dia, mas só sei bater por letra…» É de génio. O Quim Barreiros aparece ao lado do meu avô, Luís de Freitas Branco, na enciclopédia da música do século XX. É a democracia absoluta. Uma maravilha.

Tem as mãos no seguro?
Não, mas gostava de ver o estado em que estão as mamas da Samantha Fox, que foram seguradas por uma fortuna [risos]. Isso é um disparate. As pessoas pagam um balúrdio para uma coisa que nunca accionam. Tenho um seguro de vida e poupança-reforma e muitas vezes tenho o meu mediador de seguros a falar-me de formas como posso morrer para a minha família ganhar dinheiro.

Há 72 100 entradas suas na net. Já vendeu mais discos do que isso ou isso já era bem bom?
Não devo ter vendido nem um terço disso. Tenho 14 discos. Sou uma desgraça comercial.

Como é que um músico profissional reage à saga da pirataria?
Sou um apologista da cópia. Estou-me nas tintas que copiem os meus discos, desde que os oiçam. Mas oiçam! Quem perceber que existe ironia neste disco pode ser meu amigo. Não tem de comprá-lo. Mas este disco tem vicissitudes. Não pode passar na rádio, por exemplo. Tem radio tunning. Gosto particularmente de quando o menino está a ser entrevistado na rádio e diz «quando é que isto acaba?». Estava a gravar e apanhei aquele milagre de três minutos.

Quando se deu a primeira aproximação à música, antes das aulas de piano?
Aos 5 anos comecei a tocar guitarra muito às escondidas. Tocava coisas dos Beatles que para mim continuam a ser o maior grupo de sempre. É um fenómeno de genialidade.

A questão de só tocarem em três acordes não interessa?
Em sete anos evoluíram de uma maneira absurda. Isso é que é genial. Desde o Hard Days Night ao Sargent Pepper’s há um universo. O meu ídolo de sempre é o Lennon.

Largou depressa a música clássica para o call of the wild do jazz?
Muito depressa. Mas voltei. Larguei quando estava a ser obrigado a fazê-lo. Voltei quando percebi que Bach era o maior enviado à Terra para mostrar a essência da música.

Ao nível de um profeta?
Não. Mas o Lennon sim [risos]. Bach mudou tudo, a composição, a essência das notas.

Mozart não é o maître de todos os mâitres?
É o génio da organicidade e da construção. Só de pensarmos que escrevia à mão e nunca se enganava e que toda a música é divina do princípio ao fim em termos de harmonia... Existe uma maturidade em Bach à qual chegaram muito poucos compositores. Mas se Mozart tivesse vivido os anos que viveu Bach a coisa teria sido muito diferente. Mozart, quando tomou conhecimento das obras de Bach e as interiorizou, a sua vida também mudou. Fazer o Requiem, a sua última obra, é uma óbvia descendência de Bach.

Um compositor não chega a lado nenhum se não passar pelos clássicos, é como querer ser romancista sem ler Tolstoi?
A partir do momento em que me dediquei seriamente ao jazz, aos 14 anos, pensei que se continuasse de uma forma autodidacta a coisa ia descambar. Voltei então à música clássica por livre iniciativa. Foram os meus compositores preferidos que me salvaram de mais um buraco negro. Que só voltei a experimentar nos tempos da tropa, em que quis fazer parte da banda, iludido por uma ideia de vida mansa. Vivi uma recruta tramada. O pelotão de músicas é sempre o mais lixado. Levam por tabela. Foi um ano de estupidificação. É a única hierarquia que funciona, mas brinca-se às guerras. Bendita a hora em que deixou de ser obrigatória. Acabo a tropa e ala para Londres, tentar a sorte, e tive uma sorte dos diabos. Cruzei-me com uma data de gajos importantes, Art Simon, Paquito D’Rivera… que me ouviram e deram tempo de antena (tinha 22 anos) numa altura em que não havia pianistas jovens a tocar em Londres. Quem quiser fazer isto a sério tem de sair. O nosso pequeno meio esgota-se. Vivi ali quatro meses no limiar da miséria, inquilino de um russo que me engrossava com vodka, mesmo quando não pagava a renda. Comi fish&chips um mês seguido. A partir dali tudo aconteceu.

Quando soube que ia trabalhar para Anthony Minguella deu-lhe uma fúria criativa?
Esse momento de Talentoso Mr. Ripley levou-me a pensar que era mesmo isto que queria fazer na vida. Minguella é uma jóia de pessoa, um gajo de paz, muito preciso com o que queria, mas que me dava espaço para criar. Estava a filmar-me um plano das mãos e eu cheio de dúvidas a perguntar como me queriam. Ele só dizia, toca, faz o que sabes fazer.

Se não fosse pianista seria escritor ou cineasta?
Escritor é a arte das artes por todas as razões. Cineasta é outra loiça.

Encontrar as primeiras notas é como descobrir o tom do texto?
É exactamente isso. Os ostinatos de que falei, estas frases servem exactamente para esse arranque e o que pode vir a seguir. Acontece de forma muito brusca, mas por vezes muda por completo o universo da música. O que me faz mover na música? São muitas palavras mas tem muito que ver com energia e movimento, sobretudo em termos estéticos. Se existir uma palavra que pense é ficção. Aquilo de contar uma história, com as baldas, os erros. O escritor não quer errar, mas o músico que não aproveita o erro é estúpido. Deve aproveitar-se dele e torná-lo música. Tenho uma fotografia cheia de exposição, que é das que guardo melhor memória, do tempo em que se estava à espera do resultado da revelação com uma grande ansiedade.

Como se processa a elaboração musical que termina na criação?
Lança-se o mote e tenta-se contar a história da melhor maneira possível. Isto tem que ver com interpretação, juntamente com energia e movimento. A trabalhar em trio é a coisa do diálogo, de estar sempre a ouvir e a tentar criar com os outros. Tentar mudar o rumo da música. Tens de responder quase imediatamente ao outro. Torna-te espontâneo. O grande gozo da música é a tensão. Neste disco explorei o gozo de as músicas não terminarem na tónica. Fica suspenso, inacabado, é apenas uma versão, um take, uma homenagem ao ying e yang que acaba na dominante e não na tónica.

Como sente que está na hora de a música saltar cá para fora?
Fazer música é um acto com uma entrega tão grande como o sexo. Do género «vamos direitos ao assunto». A música tocada ao vivo provoca muitas sensações sexuais. Para aqueles que me querem levar a sério, a coisa que mais me tem inspirado nos últimos anos é ouvir Carlos do Carmo. Aprendi mais a ouvi-lo, e a ter tido a sorte de tocar com ele, do que com qualquer outro. As do Carlos são versões definitivas. Adoro ouvir Sinatra. Gajos que contam histórias. Brel, claro. Quem me dera tocar piano assim. Juntar a afinação irrepreensível e a intenção, a tranquilidade quase irónica de dizer.

Faz a música que a alma lhe pede ou também funciona a pedido?
Vem tudo daqui de dentro. Os estímulos têm de ser orgânicos. Não funciono pelo que está a dar.

Compõe lullabies para as suas filhas?
Componho, claro, e até gostava de gravar um dia. Coisas divertidíssimas. Fazemos umas brincadeiras de imitar animais ao piano. Ouvem uma canção e passada uma hora já a sabem de cor. É uma forma de eu próprio levar a música menos a sério.

As emoções na sua vida de compositor superam as pessoais?
Nada supera a emoção de ter sido pai. Quando temos um filho à frente, tudo o resto deixa de existir. Fica relativo e sem significado. Revemo-nos naquele ser e imaginamo-nos naquele ser. É o único exemplo de qualquer coisa verdadeiramente genuína.

Foram os momentos decisivos na sua vida?
Foram. Sou muito melhor pessoa desde que nasceu a Maria.

O que é que a sua mulher [Beatriz Batarda, actriz] simboliza no seu acto criativo?
Aproxima-se muito do sentimento que tenho pelas minhas filhas, mas também se afasta muito. É uma forma de aprendizagem constante, com desencontros que servem para a construção do que para mim significa idade adulta, coisa que só atingi muito tarde [risos].

As paixões pela música e pelo cinema obrigam-no a uma bigamia?
Paixão é outra coisa. Paixões são momentos de encanto. Se dura muito dá ataques cardíacos. A música é o meu trabalho, como a fotografia. Fazer música e fotografia são necessidades absolutas, como a realização poderá vir a ser.

Todas as artes interessam para a sua arte?
Quase todas. A literatura primeiro, depois a imagem e a fotografia, a pintura, sobretudo a do século XX como representação abstracta da realidade. Mas não preciso de objectivar os meus discos.

Quando faz música para cinema abomina a palavra banda sonora.
É um mal necessário. Já o fiz 16 vezes. Mas não tenho muito interesse em continuar a perder tempo com essa música. Não existe quase sensibilidade para se perceber a importância desta música na comunicação com a imagem.

Acha que faz música para as elites, ou pelo menos que o seu melhor só pode ser compreendido por uma elite?
Aí é que está. Gosto de estar sempre à procura. A procura gera o interesse pelas coisas. O objecto que levanta muitas interpretações é mediaticamente posto de parte. Não há tempo para o estudar. Não é por acaso que os meus discos não vendem a ponta de um corno desde Alice. Se deixar de sentir interesse naquilo que estou a fazer morri como artista. Tem havido uma quebra monumental na venda de discos, mas isso tem que ver também com o preço abusivo. Um disco não devia custar mais de seis euros. O mundo não está para isso.

Sente-se um legítimo representante de um novo domínio da linguagem musical?
Eh pá, eu sinto-me um gajo banal. Tenho interesse no que faço e quando faço é para ser a sério. Isso da inovação é para o [Carlos] Bica ou o João Paulo Esteves da Silva. Ouvi o White Works em loop centenas de vezes e aquilo é uma obra-prima de maturidade musical. O tempo, a contenção. Não está ali para mostrar nada a ninguém.

Há uma tese, uma antítese e uma síntese na música como na narrativa?
Não existe música sem raciocínio. Mas não faço música porque fica bem.

Quem são os seus pianistas de cabeceira?
O Linus, do Snoopy. Se tivesse de existir um é Bach. Mas há Maria João Pires e Pedro Burmester, Ed Simon. O Laginha marcou-me muito. O Richter. Vi-o na Gulbenkian. Fiquei-lhe foi com uma raiva... Viaja sempre com o piano dele e quatro técnicos da Yahama posicionados em vários pontos da sala a medir a afinação, a harmonia. Nem o Jarret.

Tem na cabeça todo um compositor?
Não.

E há algum compositor que se recuse a tocar?
Sim, se é que ele alguma vez escreveu alguma coisa que se possa chamar composição. Kenny G. Nem de brincadeira.

Passa do jazz ao fado com souplesse ou é como aprender uma língua exótica?
O jazz está-me naturalmente cá dentro. O fado também, mas não tanto como está nas mãos. Mas trabalhei para isso anos e anos. O fado é uma música marota. Aquilo é que é uma escola de música.

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