Os cabelos grisalhos nas fotos que agora surgem nas entrevistas chegam para lembrar que Arundhati Roy já não é a jovem de 35 anos que em 1997 surpreendeu o mundo com o seu primeiro romance, O Deus das Pequenas Coisas. Inspirado na história das mulheres da família, cristãos ortodoxos do Kerala, o livro foi um sucesso de vendas, ganhou o Booker e sobretudo criou um mito literário, com milhões de leitores mundo fora ansiosos pelo segundo romance da indiana até então argumentista de TV e cinema..Os anos foram passando, porém, e Arundhati multiplicou-se em discursos e ações políticas, contra o nuclear, a favor da proteção ambiental, em denúncia do choque das religiões. Escreveu e publicou alguns livros, todos de intervenção política, mas não o ansiado segundo romance..Não faltou quem começasse a suspeitar de que a história da família de Arundhati, nesse Kerala que os muitos cristãos e os muitos comunistas tornam especial na Índia, tivesse sido a inspiração para um livro único e que a escritora não tivesse imaginação para arriscar nova aventura literária. Foi um erro de avaliação. Com O Ministério da Felicidade Suprema, editado já pela ASA, a escritora, agora com 55 anos, comprova o talento..Vou ainda a meio do livro, e escrevo esta crónica mesmo assim porque se soube que Arundhati estava de novo na calha para ganhar o Booker. Devo dizer que é um livro fascinante, mas que não será fácil para quem não conheça um pouco a realidade da Índia, essa nação-civilização de 1250 milhões de pessoas. Sem querer revelar nada, conto que se fala de transexuais (ou hijra) e que logo nessas primeiras páginas Arundhati mostra ser uma voz incómoda, pois tanto critica os abusos no passado do Partido do Congresso como lança farpas aos nacionalistas hindus que hoje governam em Nova Deli..Ganhe ou não o Booker de novo (e é impressionante como os escritores indianos e paquistaneses figuram sempre na lista de favoritos), Arundhati vai ainda dar muito que falar. Seja pelo conteúdo deste segundo romance seja porque ninguém quer esperar 20 anos pelo terceiro.