"Há uma nova geração de músicos vindos de África e da América do Sul que estão a pegar na música anglo-saxónica e a adaptá-la à música tradicional", diz Hindi Zahra, a cantora marroquina de ascendência berbere que se estreará nos palcos nacionais no último dia do festival Sintra Misty, que decorre entre 15 e 17 deste mês, no Centro Olga Cadaval (Sintra). ."[Essa recuperação] é lógica, já que o Ocidente, durante décadas, se inspirou na música tradicional de todo o mundo", diz, ao telefone a partir de Paris, a cantora, que recentemente editou Handmade, o seu álbum de estreia..Adepta confessa do jazz no feminino (de Billie Holiday, por exemplo), Hindi (o apelido vem no início) mistura em Handmade o registo vocal de Norah Jones com o ritmo da música do Norte de África. Em destinos mais a Sul de Marrocos, a própria cita o falecido Ali Farka Touré como influência, enquanto explica a diferença entre a música tradicional africana e a música europeia.."A música francesa, por exemplo, não tem ritmo. Em Marrocos não se ouvia música francesa, porque não tem groove. A música na Europa é poesia, não é ritmo", explica Hindi Zahra, que aos 13 anos (e a condizer com o modo de vida nómada das tribos berberes), já tinha vivido em seis cidades diferentes de Marrocos, passando depois a residir entre o Norte de África e a capital francesa."Há também o elemento da improvisação", continua. "A música africana quer iludir a ideia do tempo." Isto talvez explique a cadência repetitiva (no bom sentido) que assoma em algumas das canções de Handmade..Acerca do álbum em si, Hindi descreve-o como o retrato de um momento. "As canções já estavam escritas há muito tempo [Oursoul, o primeiro single, remonta a 2005]", declara. "Em palco, as canções ficam muito diferentes: já houve pessoas que estiveram em três concertos distintos e me disseram que nenhum foi igual. Não sou uma estrela pop; se o fosse, não podia demorar duas horas a tocar onze canções."