Enquanto uns choram, outros vendem lenços 

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A lusofonia é, e sempre foi, um importante mercado para Portugal. Mas ora os portugueses estão entusiasmados ou até deslumbrados com esses destinos, ora desligam completamente, mudam de chip e deixam o caminho aberto para os adversários.

Nas últimas duas décadas, e em particular quando por cá andava a mal amada e necessária troika, muitas empresas portuguesas exportaram e investiram em países grandes da lusofonia como Angola e Moçambique. Ganharam muito dinheiro nessa época e, entre 2010 e 2015, só em terras da rainha Ginga viviam cerca de 400 mil lusitanos. Em meados da década passada, chegou a crise do petróleo e a consequente descida do preço do barril, deu-se a desaceleração das economias dele dependentes, como Angola, e os portugueses foram-se desinteressando da lusofonia.

Os que tiveram a coragem de por lá ficar, de continuar a apostar e a acreditar no potencial daquelas economias, são os que hoje têm maior potencial para voltar a crescer naquelas economias em vias de desenvolvimento. Aqueles a quem por lá chamam de "paraquedistas" e que saíram à primeira dificuldade poderão, no futuro, enfrentar mais dificuldades em reingressar. Em África, as relações querem-se de longo prazo. E, como disse o Papa Francisco ao pisar de novo África, "vi no Congo muita vontade de avançar, muita cultura. Têm tantas riquezas naturais que atraem quem vem explorar o Congo, perdão pela palavra. É preciso abandonar a ideia de que África é para explorar. Dá dor: as vítimas dessa guerra, amputados, tanta dor, tudo para levar as riquezas. Não, não pode ser" - uma citação bem lembrada pelo cronista padre Anselmo Borges.

África precisa de bons parceiros para o desenvolvimento, não de exploradores ou de "paraquedistas". E quanto mais os portugueses se desinteressarem da CPLP, mais caminho aberto deixam para países como a Alemanha, a França ou Espanha, que têm feito várias investidas. Nos últimos dias, Filipe VI, rei de Espanha, reuniu com o presidente João Lourenço, em Luanda, e incentivou a comunidade espanhola a fortalecer a relação com Angola (tal como em 2012), mostrando-se empenhado em apadrinhar parcerias em prol do desenvolvimento daquele país. Mais disse o rei: Angola deve e pode aproveitar para relançar o crescimento e as empresas espanholas estão disponíveis para apoiar o Plano de Desenvolvimento Nacional de Angola para melhores resultados. E afirmou ainda que o governo espanhol pode desempenhar um papel importante com auxílio empresarial e financeiro. Uma entrada a pés juntos num território onde o português ainda é a língua oficial, ao qual tantos viraram costas quando o petróleo começou a cair. Mas o mundo é composto de mudança. A crise das matérias-primas recolocou o crude em alta e os nossos concorrentes não só estão atentos como não perdem tempo. Se continuarmos com uma política externa ausente da lusofonia e empresários desatentos, mais adiante vamos chorar, enquanto os espanhóis e outros povos vão vender lenços.

Diretora do Diário de Notícias

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