Empresas demoram mais de dois meses a pagar dívidas
Demorar, em média, mais de dois meses (66 dias) para pagar aos seus fornecedores coloca as empresas portuguesas no primeiro lugar do pódio das que mais se atrasam a regular as suas dívidas, de entre os 29 países europeus analisados por um estudo da Intrum Justitia. De acordo com o "Relatório de pagamentos na Europa 2017" da gestora de créditos, realizado entre fevereiro e março de 2017, as empresas gregas, italianas e espanholas seguem a mesma tendência, com prazos médios de pagamento que rondam os 63, 52 e 51 dias, respetivamente. No extremo oposto, Alemanha (19 dias), Estónia (22 dias) e Dinamarca (23 dias) são os países onde as empresas pagam mais rápido.
O mesmo cenário é confirmado pelos dados da espanhola Plataforma Multissetorial contra a Morosidade, que dá conta de uma demora ainda maior nos pagamentos - de 126 dias - por parte das empresas portuguesas, seguindo-se a Grécia, com 123 dias, e Espanha, com 115 dia, de acordo com o jornal El País. Já no que diz respeito à administração pública, esta confederação de associações patronais espanholas revela que os piores Estados a pagar são a Grécia (103 dias), Itália e Portugal (95 dias) e Espanha (78 dias).
Os números da Intrum Justitia também mostram que o Estado português se atrasa mais de três meses (os mesmos 95 dias) a pagar aquilo que deve. De acordo com a diretiva europeia contra a morosidade, de 2011, os prazos de pagamento para as administrações públicas europeias não devem ultrapassar os 30 dias, e os 60 dias para as empresas.
"Estes atrasos nos pagamentos prejudicam a solvabilidade e a tesouraria das empresas. Devíamos pagar e receber em dias, não em meses", defende António Marques, presidente da Associação Industrial do Minho.
Sem contrariar as estatísticas que mostram que as empresas portuguesas têm um prazo médio de pagamentos mais elevado do que outros países da Europa, aponta, no entanto, o dedo à administração pública, por dar um "mau exemplo". "O Estado arroga-se o direito de pagar quando bem entende. Isso não desculpa os atrasos das empresas, mas tem um impacto negativo. As más práticas públicas podem ditar também más práticas dos privados. O exemplo deveria vir de cima", argumenta António Marques, criticando: "Pagar IVA ao Estado de um cliente que ainda não me pagou é uma política antiempresa."
Ao tecido empresarial português deixa também um recado: "Há muito a fazer: mais organização e um planeamento financeiro mais adequado, para que as contas saiam direitas. As empresas têm de se habituar a pagar a horas e a exigir o cumprimento de prazos." No entanto, e de acordo com a Intrum Justitia, 56% das empresas portuguesas não sabem que podem cobrar, no mínimo, mais 40 euros por fatura em caso de atrasos de pagamento, no âmbito da diretiva europeia que foi transposta para a legislação nacional em 2013.
Diz o "Relatório de pagamentos na Europa 2017" que 76% das empresas já se viram forçadas a aceitar prazos de pagamento mais longos do que consideram razoável. Em média, as empresas oferecem aos clientes pagamentos a 46 dias, com os prazos mais curtos a rondar os 25 dias e os mais longos perto dos 90 dias, ou seja, cerca de três meses. 58% das empresas garantem que os atrasos nos pagamentos impedem o crescimento das suas organizações e trazem problemas de liquidez, enquanto 82% garantem que a principal causa da demora em pagar se prende com as dificuldades financeiras dos devedores.

