No domingo passado, contei aqui a história do falsário que falsificava as notas e punha a marca ostentatória ("Specimen OTX"), demonstrativa de que eram falsas. Assim, escapava à acusação legal de que traficava com notas, a menos que fosse apanhado com a boca na botija, vendendo-as. É que andar com notas falsas sinceras - daquelas que o confessam ao primeiro olhar - não é crime. A história pareceu-me exemplo máximo de como isto anda confuso..Enganei-me. Esta semana serviu para provar que pode faltar-nos muita coisa - de poder de compra a esperança na selecção - mas não processos judiciais jeitosos. Permitam- -me a alegoria seguinte. Um cidadão desce de carro a Avenida da Liberdade, em Lisboa, e resolve parar no meio dos Restauradores. O condutor faz-se ao passeio, quando ouve um apito. Aparece um polícia, que lhe acena com um "não!". O homem sorri, com o indicador cativante chama o cívico e estende-lhe uma nota de 50 euros: "É para uma cervejinha, sô guarda." O cívico aceita: "Então, 'tá bem. Ponha lá o carro no meio da praça." É então que o corruptor arrepia caminho, procura a entrada para o parque subterrâneo e vai guardar o carro, legalmente, onde até tem lugar pago pela sua empresa..História parva, só inventada. Sim, não se compreende que alguém corrompa uma autoridade, corra riscos e gaste dinheiro, quando nem precisava. História parva, aceito. Mas não inventada. Pelo menos não toda inventada. Aconteceu com o FCP e o seu presidente - acusa a Liga de Clubes. O grande FCP corrompeu árbitros para jogos com pequenos clubes, em que a vitória estava garantida e, mesmo que não estivesse, com resultados irrelevantes para ganhar, como ganhou, o campeonato. Pinto da Costa podia ter estacionado no pódio que lhe estava reservado nos Restauradores. Mas preferiu, diz a acusação, corromper árbitros. Para um clube que ganha tudo, se calhar é a única emoção que lhe resta. .Bateu-se, no caso da alegada corrupção do FCP, no tecto da irrealidade (que pode mesmo ter acontecido). Pergunto: bateu-se? Errado. Outra alegoria. Um cidadão desce de carro a Avenida da Liberdade e faz tenção de estacionar na Praça dos Restauradores. Um polícia diz para circular, o automobilista chama-o e dá- -lhe uma nota de 50 euros: "É só para o corromper, sô guarda." O polícia aceita e mete o dinheiro ao bolso. O automobilista sorri e continua a sorrir quando o outro, depois de corrompido, lhe passa uma multa. "Muito obrigado, sô guarda!", e vão os dois à vida..História parva, só inventada. Sim?... Então que aconteceu ao Boavista? Acusado, pela Liga dos Clubes, de corromper árbitros em jogos que o Boavista acabou por não ganhar um só..É isso, acho que já se corrompe em Portugal por desfastio.|