Przybyszewski não é, convenhamos, um nome fácil de pronunciar. Talvez por isso, o poeta e escritor polaco Stanisław Przybyszewski não tem hoje a fama que decerto merece, quer pela obra literária que deixou quer pela forma como viveu e sobretudo conviveu com nomes que, ao contrário do dele, eram mais fáceis de pronunciar e, como tal, ficaram famosos nas letras e nas artes deste nosso Ocidente (seja lá isso o que for)..Nascido numa vilória da Prússia, filho de um professor primário, Stanisław foi para Berlim logo que acabou o liceu, estudar arquitectura e, depois, medicina. O interesse pela filosofia de Nietzsche, a paixão do satanismo e, acima de tudo, a atracção pela boémia acabaram por calar mais fundo do que a vaga promessa de um diploma e não tardou que Stanisław - mais conhecido por Staczu - se tornasse a figura central de um círculo mágico que se reunia num botequim situado no coração de Berlim, esquina da Neue Wilhelmstrasse com a Unter den Linden. O bar tinha um nome comprido, impronunciável, Gustav Türkes Weinhandlung und Probierstude, e, pendurado à entrada, em jeito de tabuleta de pub, exibia um saco de vinho arménio que, numa madrugada ébria, August Strindberg confundiu com um porquinho preto, exposto à vista de todos. Desde aí, o estabelecimento foi baptizado O Leitão Preto, nome mais simples e acessível, e é assim que o regista a nossa história..Os interesses intelectuais desse cenáculo eram múltiplos e caóticos, desde o sonho e a hipnose à fotografia a cores, passando pela física, a alquimia e a fabricação de ouro e de prata (estima-se que em Paris, por essa época, existiam 50 mil alquimistas no activo...), o satanismo, os símbolos, os efeitos das drogas no cérebro humano, o poder da electricidade, as dinâmicas peculiares do amor ventral. No afã de perceber se as plantas tinham um sistema nervoso central, Strindberg espalhou o pânico entre os donos de pomares das redondezas ao injectar morfina no tronco de várias árvores de fruto, enquanto o polaco Staczu, um leitor fervoroso de Baudelaire e de Mallarmé, se entregava ao estudo dos sortilèges, as artes do enfeitiçamento, e do envoûtement, o poder de matar alguém à distância, por controlo remoto..Não se sabe se exerceu este dote, mas o facto é que, em 1896, foi detido por suspeita de homicídio de Martha Forder, a mãe dos seus três filhos, com a qual vivera alguns anos sem contrair matrimónio, um comportamento escandaloso para a época. As crianças foram dispersas por várias famílias de acolhimento e veio a provar-se que a morte de Martha fora ditada por suicídio, o que, tendo em conta as trajectórias existenciais desta trupe, não causa espanto a ninguém: dos filhos que Staczu tivera com ela, um tinha sido concebido quando já não viviam juntos, estando o polaco casado com outra mulher, a bela e enigmática Dagny Juel, sobrinha do primeiro-ministro da Noruega, que desde nova escandalizara a rígida sociedade de Kristiana (actual Oslo) pela sua aparência andrógina, o seu vestuário ousado, os seus modos muito impróprios. Fumava e bebia desalmadamente, cultivava o amor livre, teve um caso aceso com Edvard Munch, que a conheceu ainda em Kristiana e que a usou como modelo em várias obras, com destaque para a prodigiosa e ímpia Madonna, de 1893-94. Foi através dele que Dagny irrompeu em Berlim e se tornou musa dos boémios de O Leitão Preto. Chamavam-lhe Aspásia, a filósofa amante de Péricles, e muitos ficaram perdidamente apaixonados por ela. Entre os pretendentes, um médico, poeta e pintor, o Dr. Carl Ludwig Schleich, que, entre as taras do grupo, se dedicava a analisar o efeito do clorofórmio no espírito dos seus pacientes, tornando-se com isso um dos pioneiros da anestesia local, tal como hoje a conhecemos, facto tanto mais curioso quanto, durante toda a vida, Schleich foi considerado pelos seus pares um inimigo da ciência, dado ser fervoroso adepto do criacionismo antidarwinista..Três meses depois de chegar à capital do Reich, Dagny casou-se com Staczu, o poeta satanista, admirador profundo da pintura de Edvard Munch e autor do primeiro livro sobre a sua obra, então desprezada na Noruega, onde a consideravam fruto de um espírito doentio, flagelado pelo absinto e pelas tragédias que de há muito marcavam a sua família..O pintor considerava que os seus quadros eram "páginas de um diário", como refere Sue Prideaux na excepcional biografia que lhe dedicou, Edvard Munch. Behind the Scream. Noutra ocasião, disse que se Leonardo captara genialmente a anatomia do corpo, o seu propósito era dissecar a alma humana no que ela tem de mais universal, perscrutá-la nos seus recessos mais obscuros e sombrios, os quais, no caso de Munch, eram muitos e profundos. Fora uma criança pálida e enfermiça, baptizada poucos dias depois de nascer, tal era o medo de que não sobrevivesse. O pai, um médico militar e pietista devoto, obcecado com a religião e o pecado, castrou-lhe a infância e a juventude, marcando-o para sempre e Edvard cresceu atormentado por demónios nocturnos e sentimentos de culpa, que se agravaram com a morte da muito amada mãe, vitimada por uma tuberculose no Natal de 1886..Restou Sophie, a irmã querida, a confidente, o refúgio afectivo, mas também ela morreria não muito depois, um golpe de que Munch nunca recuperaria. Ainda hoje, em Oslo, no museu com o seu nome, se encontra a cadeira onde Sophie morreu e que Edvard guardou como uma relíquia até ao fim. Para piorar as coisas, a outra irmã, Laura, começou na altura a apresentar os primeiros sintomas da esquizofrenia que a perseguiria até à morte, obrigando-a a ser internada por largos períodos e a viver na dependência das magras finanças de Edvard (outro dos irmãos, médico, pouco a ajudava e, de resto, também ele morreria cedo, meses depois de se casar). Nas fases mais agudas da doença, Laura deambulava seminua pelas ruas de Kristiana, suja e desgrenhada, dormindo ao relento, nas estações de comboios ou nas entradas dos prédios da burguesia austera da cidade, que observava tudo aquilo com horrorizada repulsa, como se o comportamento da jovem louca fosse castigo divino ou maldição lançada sobre os Munch, uma família ilustre, caída em desgraça..É desconcertante pensar que em Berlim, no meio de tanta pobreza e de tantos excessos, com companheiros como Staczu ou Strindberg, ambos nas raias da mais completa loucura, Edvard Munch foi capaz de produzir algumas das suas obras mais importantes, entre as quais O Grito ou, melhor dizendo, a primeira das quatro versões dessa pintura uivante, avassaladora. Todas elas, note-se, pintadas em cartão, pois Munch não tinha sequer dinheiro para comprar telas. Em Berlim, durante um ano, conseguiu vender apenas dois quadros e era frequente passar dois, três ou quatro dias sem comer coisa alguma, dormindo na rua ou onde calhasse sempre que a senhoria do seu quarto o despejava, por atraso na renda..A sua musa, Dagny Juel, penaria horrores às mãos do satânico - e misógino - Staczu. Acompanhou-o até à Polónia, onde se diz que Staczu a encorajou a tornar-se amante do famoso novelista Henryk Sienkiewicz, galardoado com o Nobel em 1905. Mas diz-se mais, e pior: diz-se que foi Staczu quem engendrou o seu assassinato e, seja verdade ou não, o certo é que Dagny acabou morta a tiro por um amante, no Grand Hotel de Tbilissi, na Geórgia. Um dos filhos dela, na altura com 5 anos, assistiu a tudo. Quanto a Staczu, o canalha louco, nunca se conseguiu libertar do alcoolismo e, até morrer novo, com 59 anos, acumulou empregos precários entre Poznan, Gdansk e Varsóvia (onde chegou a ser assessor do presidente da Polónia...)..Melhor sorte teve Munch, o seu rival amoroso. Paris reconheceu-lhe o valor e exibiu-lhe os quadros, algo que não acontecera em Berlim e, menos ainda, em Kristiana. Hoje, tudo mudou. Agora, em Oslo, há museus em sua honra e percursos turísticos pelos locais onde viveu ou pintou. Em 2013, para celebrar os 150 anos do seu nascimento, Marina Abramovič instalou no Parque Ekeberg, o local retratado em O Grito, uma gigantesca moldura onde todos foram convidados a comparecer e a gritar o que lhes ia na alma. No parque existem tabuletas para ajudar os visitantes na sua demanda pelo ponto exacto de onde Munch terá concebido a obra que, para muitos, condensa a angústia imensa dos tempos modernos. Diz-se que a pintura terá sido inspirada em Schopenhauer, mas Munch desmentiu-o, afirmando que só anos depois conheceu os livros do filósofo alemão. O Grito, aliás, não foi pintado in situ, mas de memória, na longínqua Berlim. E a paisagem retratada não surge sequer de um ponto fixo, sendo antes uma combinação da vista a partir da colina do Parque Ekeberg e da perspectiva da estrada que vai para Ljabro, no sopé dessa colina. Por outro lado, e ao contrário do que muitos julgam, o quadro não retrata uma estrada nem uma ponte, mas um caminho pedonal, com uma cerca de protecção. Como Munch dizia, "não pinto o que vejo, mas o que vi" e, de resto, o próprio recordou por escrito a visão terrível que o inspirou n'O Grito. Um dia, segundo ele, quando passeava com alguns amigos ao final da tarde, o céu inundou-se subitamente de um vermelho intenso, cor de sangue, que alastrou a todo o fiorde, e Munch sentiu abrir-se uma ferida no peito, através da qual brotou um enorme grito, lancinante, que envolveu toda a natureza, o mundo inteiro. Não foi pura invenção da sua loucura. Na colina de Ekeberg ficavam o matadouro e o hospício da cidade, onde a sua irmã Laura estava internada. Os uivos das reses a serem supliciadas e dos loucos do manicómio ouviam-se ali em uníssono, num só e potente grito, que subia até ao cimo da colina. Na época, esse som atroz era escutado na cidade, do outro lado do fiorde. O grito de O Grito é, pois, mais real do que julgamos..Foi a cruel loucura que criou O Grito e toda as demais obras de Munch, o qual, todavia, sempre advertiu que ele poderia ser demente, insano, mas os seus quadros não o eram. Talvez nunca consigamos alcançar - e ainda bem - o sofrimento imenso, tremendo, que foi necessário para pintar como Edvard Munch pintou. Mas só o compreenderemos verdadeiramente se nos fizermos cúmplices dos seus mistérios e percebermos que, queiramos ou não, a sua loucura também é nossa..Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia