Eles não sabiam nem sonhavam

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É a casa de uma família portuguesa, nos idos de setenta com certeza.
Chegado do trabalho com um embrulho debaixo do braço, o pai chama a mulher e as filhas: «Trago mais um». É a mais velha das miúdas a pôr a rodela de vinil sobre o gira-discos. Canta Manuel Freire, a letra é de António Gedeão. À segunda audição, o pai abana a cabeça. «Não percebo por que proibiram isto. Só se for por causa dessa coisa do 'eles não sabem nem sonham'». O mistério só se dissipa ouvido o lado B. É sobre uma Menina dos olhos tristes, a chorar um soldado que «não volta/ do outro lado do mar». O pai sorri. «Ah, pronto. Foi por causa desta... Os tipos afinal não são assim tão parvos.»
Certo é que, se a Pedra Filosofal não acicatou a sanha dos censores, os ditos, definitivamente, não sabiam nem sonhavam. Nem das multidões de portugueses anónimos que na compra e fruição de obras proibidas acalentavam o seu gesto de rebelião, o seu desafio a um regime de pensamentos únicos. Nem do ridículo dos seus critérios e opções censórias. Nem dos truques e códigos que discotecas e livreiros inventavam para os fintar.
Desde logo, só se vendiam obras no índex a «gente conhecida».
«Queria comprar um livro da Natália Correia», conta Manuel Freire, o próprio. «Disseram-me para ir a uma livraria do Chiado pedir um livro de cozinha a um determinado empregado. Ele deu-me o livro já embrulhado... Na rua, rasguei um bocadinho, e lá estava a Natália...»
Manuel Brito, proprietário da Galeria 111, à época dono da livraria do mesmo nome, com a Barata uma das referências de subversão livresca, certifica: «Se um indivíduo qualquer me pedia uma obra proibida, fazia-me de parvo. Há até uma história engraçada com um grande amigo, da minha idade, que mora aqui perto. Não nos conhecíamos, ele foi à livraria... Como já tinha ouvido falar dele, pus um livro em cima do balcão que sabia lhe interessaria.
Ele mudou de cor, virou-me as costas e saiu. Foi dizer que eu era da PIDE com certeza, porque o tinha provocado!» Os 76 anos de Brito não lhe desbarataram o humor, nem a memória de um tempo de exacerbadas suspeições e supremas estultícias. «Às vezes mudávamos as capas dos livros. Obras políticas com cara de livros de aventuras, ou os discos que o Luís Cília gravava no exílio, em Paris - eu tinha uma pequena secção de música - dentro de uma coisa anódina qualquer.»
E assim se enganavam polícias mais dados à embalagem que ao conteúdo.
Sinal disso, de resto, é a escolha nos arrestos, de que Manuel Brito guardou os autos, mais de 70. Títulos como Amor e felicidade no casamento, como um insuspeito Para um diálogo com o Senhor Cardeal Patriarca, de Raul Rego, ou um risível Não ames um desconhecido, do best seller Harold Robbins, sofriam o mesmo destino das obras de Sartre ou tudo o que metesse «soviético», «russo» ou «revolução».
«Ter livros de Marx era como ter uma bomba. Uma vez importei uma edição de O Capital em papel bíblia e, zás, lá se foram umas boas dezenas de contos. Eu dizia: são livros de economia, adoptados em universidades americanas! Somos mais anticomunistas que eles?»
Nunca lhe tocaram, nem ficou alguma vez preso, mas não se livrou de dias seguidos de interrogatórios e de incontáveis rombos no orçamento. Instalados nos correios do Terreiro do Paço, os polícias examinavam as encomendas, guardando especial esmero para as de reincidentes. Quanto às edições nacionais, deviam ser submetidas à Censura, como os jornais, os discos e até, pasme-se, as letras das canções de concertos ao vivo, onde, não fosse alguém improvisar, havia sempre um censor. Quem seguia atalhos arriscava-se. E às vezes petiscava - era assim que havia discos e livros «proibidos» à venda.
Jorge Costa Pinto, da Tecla, que editou o segundo - e proibido - disco de Manuel Freire, era um dos relapsos. «Nunca enviava os discos à Comissão. Mas eram apanhados nas rádios, pelos censores de lá.» Que chegavam a riscar a prego ou canivete as faixas interditas, não fosse alguém «distrair-se».
Nenhuma forma de expressão intelectual escapava. «Fecharam uma exposição na Sociedade de Belas Artes, destruíram frescos do Pomar...» No seu escritório, rodeado de Paulas Regos, Batardas e Palolos, Manuel Brito faz silêncio. «Quando me perguntavam se vendia livros subversivos, dizia que não: vendia livros proibidos pela censura. Nunca lhes menti. Conto isto na desportiva, mas não sabíamos o que ia acontecer, qual o próximo capítulo. Mas as pessoas de agora, mesmo os meus filhos mais novos, têm dificuldade em compreender... Isto aconteceu, ninguém me contou. É História.»
1973, censura no Festival
«'A Tourada' era para não ir à Eurovisão»
«E diz/ o inteligente/ que acabaram as canções.» O último verso era premonitório. No estertor do fim, o regime quis afirmar a sua inabalável convicção no carácter subversivo da cultura. O que, pensando bem, era justo: que outra coisa senão uma sátira - e pouco subtil - ao Portugal marcelista era a letra de A Tourada, assinada pelo exuberante poeta e homem de esquerda José Carlos Ary dos Santos?
Já premiado no Festival da Canção com A Desfolhada, na interpretação teatral de Simone de Oliveira, Ary dos Santos logrou colocar mais esta sua criação, agora com música de Fernando Tordo (que à empresa dava também a voz e a irreverência), em concurso. Daí até à vitória, obtida por votação nacional, em directo, através de júris em cada capital de província, foi um fósforo - mas isso é história contada. O que não se sabe é que, assevera Jorge Costa Pinto, proprietário da editora Tecla (que tinha os direitos da canção), os «inteligentes» da RTP, à época presidida por Ramiro Valadão, não queriam deixar a canção representar o País no certame europeu. «Estava decidido: A Tourada não era para ir à Eurovisão.
E só foi devido a uma intervenção minha.» Como iriam os censores justificar o gesto, o que lhes disse e por que razão mudaram de ideias, não revela - «as pessoas ainda estão vivas» - mas garante que é a primeira vez que o diz publicamente. E que nem Fernando Tordo soube do sucedido.

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Discos e livros censurados

A lista de obras censuradas durante a ditadura é extensa, na literatura e na música. Publicam-se alguns exemplos.
Livros Títulos de livros censurados. Autores portugueses: Portugal Amordaçado, de Mário Soares, Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, O Libertino Passeia por Braga, Luiz Pacheco, Seara do Vento, de Manuel da Fonseca, O Vinho e a Lira e Antologia da Poesia Erótica e Satírica, de Natália Correia, Contos da Montanha, de Miguel Torga, Um Auto para Jerusalém, de Mário de Cesariny de Vasconcelos. Autores estrangeiros: O Capital, de Karl Marx, Os 120 Dias de Sodoma, de Marquês de Sade, Capitães da Areia, de Jorge Amado, A Condição Humana, de André Malraux, A Nossa Vida Sexual, de Fritz Khan, Escuta, Zé-Ninguém, de Wilhlem Reich, Júlio César, de William Shakespeare.
música A Emissora Nacional proibiu, ao longo dos anos, discos e canções. Gente de Aqui e Agora, de Adriano Correia de Oliveira, E Alegre se fez triste, de Carlos Mendes, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, Os Vampiros, Cantigas de Maio, Venham mais cinco, de José Afonso, Power to the People, de John Lennon, Los guerrilleros, de Jean Ferrat.

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