Eles andam aí

Há 25 anos, um grupo de estudiosos criou no Porto a Comissão Nacional de Investigação do Fenómeno Ovni (CNIFO). Foi a resposta ao aumento do interesse por extraterrestres e ao número extraordinário de avistamentos em Portugal de objectos voadores não identificados que se seguiu à exibição nos cinemas, uns anos antes, do filme de Spielberg <em>Encontros Imediatos do 3.º Grau</em>.
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Em finais dos anos 1970 e primeira metade dos oitenta, o fenómeno ovni ganhou uma dimensão enorme em todo o mundo – e Portugal não ficou atrás. Por todo o lado eram relatados avistamentos, quase como se se tratasse de uma caça a esses objectos voadores não identificados que vinham de outro planeta e que toda a gente queria ver… também.


O fenómeno ganhou tal dimensão que um grupo de estudiosos fascinado pelo desconhecido e pelo enorme mistério que o mesmo acarretava decidiu criar a Comissão Nacional de Investigação do Fenómeno Ovni (CNIFO), com sede na Rua Sá da bandeira, no Porto. A escritura pública foi assinada a 26 de Julho de 1984 e publicada na III série do Diário da República de 4 de Setembro daquele ano.


«Boa parte de nós tinha a veleidade de explicar tudo e até de que poderíamos chegar a provar sinais da presença entre nós de algo de fora da Terra», começa por contar Joaquim Fernandes, hoje professor de História na Universidade Fernando Pessoa, do Porto, e um dos fundadores da CNIFO.


Mas o fascínio que tinham pelo fenómeno ovni e o seu pensamento crítico obrigava os investigadores a serem rigorosos. «Enquanto jovens estudiosos, alguns ainda estudantes, outros já com as suas formações definidas, com alguma experiência de campo na observação destes fenómenos, tentámos introduzir outras vertentes de análise que não fossem de mero passatempo de coleccionista», lembra Joaquim Fernandes, acrescentando: «Não era possível explorar o fenómeno sem que fosse projectado um corpo científico, de consultores e de investigadores universitários, que pudesse lançar uma nova luz e novos critérios metodológicos e de análise sobre os casos, as narrativas e os depoimentos que recolhíamos.»


Era claro o objectivo da CNIFO: estudar à luz das mais diversas ciências os fenómenos e tentar encontrar explicações para eles. «A formação da CNIFO correspondeu a um salto qualitativo, a uma exigência. No início dos anos oitenta, o interesse por estas coisas em Portugal passou por muitos agrupamentos incipientes, a nível de estudantes liceais, que se baseavam muito em recortes de jornais», recorda.


Total abertura, «sem preocupações dogmáticas, de algum distanciamento, racional e o mais científica possível, num tema que é muito difícil ser tratado com rigor científico» foi, desde a primeira hora, o leitmotiv da CNIFO. A Comissão contou com a estreita colaboração de algumas instituições nacionais, como a Força Aérea, o Instituto de Meteorologia ou os aeroportos, «porque percebiam que a intenção era honesta, racional e ponderada».


Efectuar um estudo integrado de diversas ciências guiou sempre os elementos da CNIFO, que «ao longo dos anos oitenta foi, paulatinamente, incorporando mais-valias de cooperação, no sentido de ter especialistas com capacidades específicas em diversas áreas, como análises psicológicas e físicas, astronomia, meteorologia e mesmo a nível das ciências humanas, como a antropologia, ou a história».


As conclusões a que chegaram na esmagadora maioria dos casos, «cerca de 99 por cento dos casos», redundam em «explicações prosaicas», como o simples avistamento de Vénus ou de objectos voadores perfeitamente identificados, como aviões, tendo sempre muito que ver com observações deficientes, mas não só.


Durante o vasto trabalho de campo que efectuaram em pouco mais de uma década, os elementos da CNIFO aprenderam a «lidar com as deficiências da atenção, da acuidade visual e da memória humanas», refere Joaquim Fernandes, acrescentando: «Deparámo-nos com pessoas a introduzirem as suas crenças e a sua carga cultural.»


Desse contacto saiu, segundo o fundador, algo de muito importante, que foram «as representações que as pessoas fazem destes fenómenos». E nos cerca de oitocentos relatórios devidamente elaborados e arquivados «é a subjectividade humana que está reflectida», conclui.


Estes estudos, com referências de 1908 a 2000, servem de base à antologia De Outros Mundos – Portugueses e Extraterrestres, o primeiro grande trabalho de fundo editado em Portugal sobre a matéria e que chega às livrarias no próximo dia 3 de Novembro. O livro é editado pelo CTEC – Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência, estrutura criada em 2001 que integra a Universidade Fernando Pessoa e que ficou com a herança da CNIFO e de todo o seu acervo documental.


Extinta em «meados dos anos noventa», a CNIFO deu ainda origem à Sociedade Portuguesa de Exploração Científica, que foi a primeira tentativa de «integrar académicos de outras universidades», mas que nunca teve o estatuto académico que ganhou com o CTEC.


Fanatismo na internet
O carácter desapaixonado e racional que a CNIFO sempre quis imprimir ao estudo do fenómeno ovni choca com o que, segundo Joaquim Fernandes, é «um delírio» que se passa no mundo virtual. «Hoje na internet há muitos entusiastas, fanáticos propagandistas do ideário E.T.… Vende-se de tudo e, relativamente ao fenómeno ovni, a internet é um mal que infelizmente afecta muito a credibilidade dos testemunhos e das testemunhas», critica. E adianta: «Muitos desses testemunhos e possíveis fotografias são manipulados continuamente. Há uma produção de hipertexto que é imparável, é um ciclo infernal e incontrolável.»


Apesar de não negar a possível existência de vida alienígena – «seria excepcional sermos uma excepção no universo tão vasto. Como alguém disse, seria um desperdício de espaço. Seria um disparate pensar que estamos sozinhos ou que somos o centro do universo» –, condena o modo como as questões são tratadas no mundo virtual.


«Neste momento, a vivência e as experiências tipo ovni passaram do exterior aberto aos investigadores para o interior fechado da internet. E estão aí a reproduzir-se, quase como uma espécie de Matrix, de maneira tal que não há ninguém capaz de controlar», sustenta o professor de História, acusando: «Com a internet, o fenómeno ovni transpôs o limiar do incontrolável, o que não acontecia quando a relação era entre a testemunha e o investigador. O que se vê não tem nada que ver com ciência, pese toda a boa vontade das pessoas.» E deixa um alerta: «Se estes fenómenos não forem integrados e estudados no meio académico, isto seguramente torna-se numa superstição moderna.»



General testemunhou fenómeno


Em 1957, uma esquadrilha de cinco aviões da Força Aérea Portuguesa comandada pelo então capitão Lemos Ferreira avistou, no regresso de Córdoba (Espanha) rumo à base da Ota, um fenómeno luminoso que foi crescendo e que parecia um dedo luminoso do qual depois saíram uns quatro objectos que supostamente iriam em direcção da esquadrilha.

Gerou-se alguma desorganização e o capitão que chegou a general e foi chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas portuguesas deu ordem para a esquadrilha deixar a formação, pois os pilotos tiveram a sensação de que os objectos iam entrar em rota de colisão. «Eles ficaram bastante assustados e confusos, mas até hoje não houve uma explicação muito plausível. Lemos Ferreira fez um relatório, que foi inclusivamente encaminhado para os norte-americanos para o famoso projecto Blue Book (iniciativa das autoridades militares dos EUA sobre o fenómeno ovni), mas não havia grande vontade de aprofundar a situação», recorda Joaquim Fernandes.


Outro episódio lembrado pelo fundador da CNIFO é o que ele considera ser «o caso de maior riqueza e mais bem testemunhado». A 2 de Novembro de 1982, cerca das 11h00 de uma manhã de céu limpo e sol radioso, o tenente piloto-aviador Guerra efectuava um voo de treino junto à serra de Montejunto quando avistou um objecto que parecia uma «bolha de mercúrio». Um outro avião, com os alferes Garcês e Gomes, aproximou-se e as duas aeronaves voaram em torno do objecto cerca de dez minutos, uma de cada lado, acompanhando a sua trajectória.

«O depoimento deles é perfeitamente coerente, as condições atmosféricas não permitiam pensar-se que fosse algum fenómeno eléctrico, a perspectiva deles é do objecto no meio deles, portanto não há qualquer ilusão. Eles conseguiram mesmo reproduzir a dimensão do objecto, que teria entre dois a três metros de diâmetro», conta Joaquim Fernandes.

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