Eleições decisivas nos dois hemisférios

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Itália e Brasil, a braços com uma nova eleição, anteveem uma mudança brusca de rumo. Da Itália já sabemos que vem aí a extrema-direita com Meloni. E não, não é a Itália desorganizada, mas civilizada, a que nos habituámos, que está à espreita. É, sim, uma nova forma de fazer política e de liderar uma nação que, no passado, esteve sob o facho de Mussolini.

Não podemos encolher os ombros ou fazer de conta, quando somos confrontados com o crescimento da extrema-direita no Velho Continente Europeu, onde eclodiu a Segunda Guerra Mundial. No passado domingo, essa ala conquistou a terceira maior economia da União Europeia, com uma vitória histórica do partido de Giorgia Meloni nas eleições Legislativas na Itália. Pela primeira vez desde 1945, o país de Garibaldi vai ser governado por uma liderança pós-fascista.

Se o crescimento de extremismos, de direita ou esquerda, é grave, a abstenção também. Meloni lamentou que a taxa tenha tocado os 36%, a mais elevada de sempre. O povo está desencantado com os políticos. O grande desafio da líder do Fratelli d"Italia é fazer com que as pessoas acreditem nas instituições e ela sabe disso. Após a eleição, até assegurou que o objetivo será "reconstruir a relação entre o Estado e os cidadãos". Conseguirá fazê-lo com todos? Ou apenas e só com os que nela votaram?

Perante a vitória da extrema-direita nas eleições de Itália, com o partido de Giorgia Meloni a obter o maior número de votos, a vizinha França ativou a vigilância e já fez saber que vai estar "atenta" aos Direitos Humanos e ao direito ao aborto em Itália. Por cá, o Chega congratulou-se, como seria de esperar, e o Bloco de Esquerda falou em "falência da política europeia". Mais a Leste, a Rússia não surpreendeu e ressurgiu no palco extremista: o Kremlin fez saber que Moscovo está disponível para desenvolver laços "construtivos" com Roma após a vitória da líder de extrema-direita.

No hemisfério norte, a Europa está perigosa. E, no hemisfério sul, como está o Brasil? Jair Bolsonaro já se apressou a dizer que "é impossível Lula ganhar à primeira volta". Está a ficar nervoso perante as sondagens que dão vitória a Lula logo no primeiro round. Bolsonaro está também inquieto face à elevada taxa de rejeição dos eleitores em relação à sua pessoa. Na falta de uma terceira figura consensual ou de centro, o Brasil pode virar bem à esquerda ou, em caso de reeleição de Bolsonaro, a direita pode tornar-se ainda mais radical. Haverá um efeito Meloni?

O certo é que o extremismo populista com tiques militares está ameaçado. Mas, como diz o povo sempre sábio: "Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe".

Diretora do Diário de Notícias

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