Rob e eu acabámos numa segunda-feira. Era o primeiro dia quente depois de um inverno terrivelmente longo, o que fez que tudo parecesse mais cruel ainda. Eu estava na fila do Starbucks quando recebi uma mensagem que dizia: "Olá, estás por aí? Acho que precisamos de falar.".Duas pequenas frases apenas, mas que tiveram a força destruidora de uma tempestade de verão repentina..Ao dirigir-me para casa, o pânico instalou-se no meu estômago como se tivesse engolido uma pedra. Entrei no quarto e fechei a porta, embora vivesse sozinha. A nossa conversa foi breve ou pelo menos assim pareceu. Fiquei sem noção do tempo..Abstive-me de lhe perguntar porquê para não parecer desesperada, uma vontade de manter a compostura à custa da obtenção de uma resposta verdadeira ou de uma conclusão..Tudo o que consegui perceber fez-me entender que, enquanto eu tinha estado a flutuar num mar de felicidade, ele tinha estado a catalogar mentalmente todos os meus defeitos..No início dessa semana tínhamos falado em passarmos pelo parque para cães de Tompkins Square. Nós não tínhamos cão, mas adorávamos ir até lá espreitá--los - chegávamos sempre em separado para dar a impressão de que tínhamos combinado encontrar-nos ali. Atribuíamos vozes engraçadas aos cães, sotaques, histórias de vida. Ou talvez aquilo fosse uma coisa só minha?.Na terça-feira cheguei mais cedo ao trabalho para tirar as fotografias de nós dois da parede do meu cubículo, redistribuindo as outras na esperança de que os colegas não reparassem e não fizessem perguntas. Guardei os pioneses de volta na sua caixinha, enfiei as fotos numa pasta no fundo de uma gaveta e fui para a casa de banho, onde chorei desalmadamente.."Tens de regressar à vida normal", aconselhavam as minhas amigas naquele tom de voz demasiado gentil que costumamos usar ao falar com uma criança ou com alguém mentalmente instável. "Vai ajudar-te a sentires-te melhor.".Durante o resto da semana apareci no emprego com os olhos manchados de rímel e com as marcas da insónia. Ficava sentada nas reuniões, virando a cabeça quando alguém chamava o meu nome, mas demorando alguns instantes a perceber porquê..Quando o fim de semana chegou finalmente, estava ansiosa pelo alívio doce da solidão e planeei ficar em casa com os estores corridos para deixar do lado de fora a alegria opressiva do final de abril. Fui buscar sushi com uma indumentária pouco apropriada para aparecer em público, corri para casa e liguei o Netflix para mergulhar nos 57 episódios de Portlandia..E ali estava: a minha lista dos programas vistos recentemente, representando toda a história da nossa relação..Lá estava Mad Men, uma série que voltámos a ver do início durante uma tempestade de neve, com as minhas pernas no colo dele, o gato a dormir em cima da minha barriga e Peggy Olson ainda vulnerável e submissa..Mais tarde, enquanto fazia o jantar, trauteava uma canção de Billie Holiday à frente do fogão quando ele apareceu por trás de mim, abraçou-me pela cintura e fez coro comigo num vibrato baixinho..Desmanchei-me a rir e encostei-me a ele.."Isto é tudo o que eu desejo", disse ele repentinamente sério.."Tacos?", brinquei, mas a minha garganta apertou-se numa mistura de medo e esperança..Lá estava o especial de comédia de Bill Burr que mal tínhamos começado a ver quando ele me puxou para o seu colo e começou a beijar-me. Tentou carregar-me para a cama, mas as suas meias escorregaram um bocadinho no chão de madeira e nós rimo-nos, com as bocas ainda juntas, o que tornou o momento ainda mais doce..Acabámos de ver o programa meio vestidos e com um piquenique espalhado em cima da cama. Foi a primeira vez na minha vida que senti nostalgia pelo exato momento que estava a viver..Havia o documentário sobre criaturas das profundezas do oceano, com David Attenborough a explicar o processo reprodutivo dos chocos, enquanto nós conversávamos sobre a mudança de carreira que eu estava a considerar.."Avança, olha como ficas feliz só por falares dessa possibilidade", disse ele..E, por um instante, vi-me a mim própria tal como ele me via. Depois de ele ter adormecido fiquei a ouvir a sua respiração firme e regular enquanto uma lula gigante morria a proteger os seus ovos..No início dessa noite, um amigo tinha-nos tirado uma fotografia sentados a um balcão, de frente um para o outro, ele a estender os braços para mim, eu a tapar a boca com as mãos e com uns enormes sorrisos estampados nas nossas caras. Nenhum dos dois reparou na câmara apontada para nós, na multidão que nos rodeava ou na vida da cidade lá fora..Sem pensar carreguei na tecla para ver Mad Men. A um qualquer nível do subconsciente eu devia ter a esperança de que ao tornar a ver os episódios conseguisse reviver as memórias também, e render-me completamente ao desgosto..Eu estava cansada de tentar manter a cabeça fora de água, de tentar usar as tarefas e a rotina para afastar a tristeza que exigia ser sentida. No ecrã, Don Draper procurava a frase certa para vender o Lucky Strike enquanto eu me permitia chafurdar nos "comos e porquês" do meu desgosto de amor..As minhas amigas apareceram no sábado à noite e obrigaram-me a tomar um duche e a vestir um sutiã. Levaram-me a sair, sentaram--me num banco alto de um balcão de bar e tentaram falar comigo através do meu olhar vazio e perdido.."Aqueles tipos ali estão a olhar para ti, acho que devias sorrir para eles", gritou a minha amiga Hannah ao meu ouvido..Eu tentei, mas as sinapses entre o cérebro e os músculos da face estavam adormecidas por falta de uso e, em vez de um sorriso, a minha cara fez uma espécie de esgar com os dentes à mostra..Na noite seguinte, as minhas amigas voltaram a tentar, desta vez em casa com vinho tinto. Até usámos tiaras, porque quem é que consegue estar triste a usar uma tiara?.Aparentemente, eu. Eu estava presente na conversa e participei ocasionalmente, mas a minha cabeça estava tão longe dali que as minhas contribuições envolviam, na sua maioria, qualquer coisa que saía inconsequentemente da minha boca, sobre um tópico que elas já tinham abandonado..Depois de a conversa ter mudado da nova geladaria para os méritos da utilização da biblioteca pública, acrescentei: "Será que eles têm produtos sem lactose?" Elas perdoaram os meus lapsos da maneira que as pessoas costumam perdoar um velho cão flatulento..Nas últimas horas do fim de semana, as minhas amigas deixaram-me rastejar de novo para a minha caverna. Liguei a televisão e fiquei surpreendida ao ver uma coisa nova na minha lista: Os Sonhos de Sushi de Jiro..Levantei-me, de boca aberta..Aquilo era comunicação do éter, como uma canção que adoramos que começa a tocar no rádio com uma clareza surpreendente enquanto conduzimos numa estrada rural. Imaginei-o a ver o programa deitado no sofá demasiado curto para as suas pernas, com os pés a saírem por cima do apoio de braço, e alguma coisa no meu peito se amarfanhou como uma flor de papel..Queria ficar irritada por ele ainda estar a usar a minha ligação, algo que ainda podia tirar de mim depois de me ter deixado sem nada. Mas não consegui. Aquela era a minha única ligação com ele e mudar a minha palavra-passe significaria cortar a última artéria do membro que sangrava..Ao mesmo tempo pensei: pode ser que se ele vir os mesmos programas que eu vejo também ele vá desfiar a lista das nossas melhores recordações e comover-se com elas. E, quem sabe, talvez isso possa trazê-lo de volta para mim..Comecei a ver Jiro a cortar metodicamente o peixe e, rapidamente, caí num sono profundo e sem sonhos pela primeira vez numa semana..No dia seguinte, depois do trabalho, estava a observar uma tigela com restos a rodar no micro-ondas quando uma mensagem apitou no meu telefone.."Olá... como estás?".O meu rosto ficou vermelho de amor e raiva, desejo e indignação..Abri uma nova mensagem para que ele não percebesse a hesitação na minha resposta. Comecei e apaguei mensagens, enquanto o apito do micro-ondas parecia vir de um qualquer lugar a quilómetros de distância. Finalmente escrevi: "Estou boa, está tudo bem?"."Sim, claro. Só queria dizer olá... ter a certeza de que estavas bem.".Subitamente, a parte do meu cérebro que continha toda a minha dor mergulhou na escuridão e a parte que continha a minha raiva iluminou-se. Será que ele estava à espera de que eu estivesse em casa, sentada em cima de um balcão de cozinha manchado a comer as sobras de ontem? Quer dizer, era o que eu estava a fazer, mas será que a ideia de eu estar bem sem ele era assim tão improvável que ele tinha sentido a necessidade de verificar a minha estabilidade?.Mais um sinal de mensagem no meu telefone: "Viste Os Sonhos de Sushi de Jiro? Acho que ias gostar, pois adoras velhinhos peculiares.".Sentei-me a jantar e pensei em várias respostas, algumas gentis e simpáticas, outras violentas e insultuosas. Acabei por decidir não responder. Em vez disso mudei a minha palavra-passe do Netflix..Fiquei preocupada com a ideia de que nunca mais iria voltar a sentir-me tão completamente segura e à vontade como me tinha sentido a fazer vozes engraçadas para um bulldog francês com ele ao meu lado, mas não podemos controlar os sentimentos dos outros. No fim de contas é melhor concentrarmo-nos nas poucas coisas que podemos controlar..Como o acesso dele ao Netflix..Tonya Malinowski vive no Connecticut, onde é produtora da ESPN..É de amor que se fala nesta coluna, a mais lida do the New York Times. histórias verdadeiras, contadas pelos leitores.Leia-as no DN aos domingos