Educar um país com ideias brilhantes

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Lavores e bordados, construção em lego, representação da família com folhas e troncos, destreza e criatividade na elaboração de quantos-queres e aviões e barcos de papel, capacidade de combinação de cores pelo uso de missangas em colares. Mas também aprendizagem dos passos do vira, correta aplicação do lenço na recriação do rancho algarvio e manuseamento do instrumento na interpretação pós-moderna dos pauliteiros de Miranda. Andarão por aqui os próximos desafios que o genial ministro da Educação se prepara para propor às escolas, a nível nacional, de forma a aferir se os miúdos andam a ser bem preparados para o futuro.

Sou eu que o imagino, claro, mas faço-o a partir de dados concretos sobre as provas de aferição em Expressões Artísticas e Físico-Motoras que as crianças do 2.º ano vão fazer na próxima semana, e que incluem materiais como plasticina, lã, revistas, garrafas de plástico e meias antiderrapantes e testes como "interpretar como apanhariam boleia do vento" - espera-se que pelo menos haja o bom senso de manter as janelas fechadas... Avaliar a imaginação e a capacidade de expressão de miúdos de 7 anos, portanto, a par da destreza física e manual, em exames nacionais de uma ou duas horas que se pretende repetir todos os anos e até alargar a outros ciclos.

Coisa inédita a nível europeu, entusiasma-se Tiago Brandão Rodrigues, sem entender que há coisas que nunca foram feitas não por falta de imaginação ou de visão mas simplesmente porque são uma bizarria sem sentido. E que os resultados deste tipo de vocação e aprendizagem não podem nem devem medir-se num momento mas antes requerem acompanhamento, incentivo e, sobretudo no que à criatividade diz respeito, liberdade de movimentos. Implicam ter ao lado um guia com capacidades e sensibilidade especiais, um mestre, alguém com capacidade de conduzir e ajudar a desenvolver talento ao longo de um período alargado e com desafios diversos de variável grau de dificuldade. Dar-lhes notas com base num momento de prova, conte ou não para a nota curricular e mesmo sendo qualitativa e não quantitativa, é de uma subjetividade brutal.

Valha-nos que nada disto conta para a nota, serve só para ver se as escolas estão a passar bem esta parte do currículo - nem outra coisa seria de esperar do ministro que acabou com as provas de disciplinas nucleares como Português ou Matemática a contar para a nota até ao 9.º ano. Mas mesmo neste aspeto a coisa é surreal quando muitas destas escolas se queixam, por exemplo, de nem sequer conseguirem dar aulas de Educação Física aos miúdos por não terem material. Problema nenhum, responde a tutela: arranja-se parcerias com as freguesias - não para garantir que as crianças se ginasticam mas para assegurar que têm os instrumentos na altura de fazer o exame.

Já que passa tanto tempo a ter ideias, mais valia que o senhor ministro se concentrasse em algo mais simples e proveitoso, como apostar em fórmulas que realmente permitissem aos miúdos desenvolver-se a todos os níveis, com gente capaz a guiá-los. Como assegurar que, se não podem tê-lo nas escolas e os pais não têm como pagar, terão acesso a áreas complementares que correspondam a interesses e talentos, seja na expressão dramática, artística ou física, através de acordos e parcerias que possam constituir complementos de formação integrados no currículo. Assegurar, por exemplo, que cada criança tem, a par de um ensino de qualidade nas áreas nucleares, possibilidade de escolha de uma área supletiva que lhe permita desenvolver diferentes capacidades e vocações.

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