"É inquestionável que o programa cautelar não foi necessário para se chegar a bons resultados", afirmou à Lusa Filipe Garcia, economista da IMF -- Informação de Mercados Financeiros, frisando que "o processo correu bastante bem mesmo sem um programa cautelar". .Filipe Garcia destacou que "os juros de Portugal estão em mínimos históricos e o país não tem dificuldades de financiamento nesta fase", tendo também a taxa de desemprego "em mínimos de ciclo e o crescimento não tem comparado mal com o que se tem passado na zona euro".."A saída de Portugal do programa deu-se de forma muito positiva e teve a ver com a gestão financeira por parte do IGCP [Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública] coordenado com o governo da altura", afirmou, por seu turno, Pedro Lino, economista da Dif Broker. .Pedro Lino recordou que IGCP e governo decidiram criar "uma almofada financeira substancial, superior a um ano de necessidades de financiamento, o que permitiu a retoma da confiança por parte dos investidores e a diminuição do risco de incumprimento"..Segundo Pedro Lino, com o apoio do BCE e aquela almofada financeira "o programa cautelar era desnecessário, uma vez que o acesso ao mercado começava a estar normalizado"..No mesmo sentido, João Borges de Assunção, professor da Universidade Católica, recordou que, "na altura, o Tesouro criou uma válvula de segurança, mantendo em carteira valores bastante elevados de liquidez que permitiam evitar emitir obrigações caso as condições no mercado se deteriorassem". .O professor da Católica considerou que "esse mecanismo acabou por substituir com vantagem um programa cautelar". "A ausência do programa cautelar não me parece ter sido um problema", acrescentou..Foi em 17 de maio de 2014 que terminou o programa de ajustamento português, que marcou a saída da 'troika' do país, constituída por elementos da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu (BCE) e do Fundo Monetário Internacional (FMI)..Antes, em 04 de maio, o governo liderado por Passos Coelho decidiu que Portugal ia sair do programa de resgate financeiro sem recorrer a qualquer programa cautelar, regressando assim autonomamente aos mercados. .Na altura, a então presidente do Conselho de Finanças Públicas (CFP), Teodora Cardoso, e o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, defenderam a necessidade de um programa cautelar. Agora, contactados pela Lusa, Teodora Cardoso e Carlos Costa não se pronunciaram.."A defesa de um programa cautelar naquela altura tinha algum sentido porque se receava que não houvesse nem estabilidade governamental nem estabilidade política de manter o discurso e a ação no sentido da consolidação orçamental. No entanto isso foi possível", afirmou Filipe Garcia..Para Pedro Lino, "provavelmente, um programa cautelar iria manter a 'troika' mais ativa e garantir que as medidas adotadas se iriam manter". "Mas era notório que quer o governo quer os portugueses precisavam já de alguns graus de liberdade face ao forte ajustamento na economia portuguesa", acrescentou..Na opinião de João Borges de Assunção, pode hoje dizer-se que o essencial do ajustamento foi feito até 2014, e, "nesse sentido, a hipótese do programa cautelar manteria uma condicionalidade que se veio a revelar desnecessária"..Contudo, o professor da Católica considerou que "dizer que o programa de assistência correu bem é um pouco excessivo". ."Foi necessário, mas penoso. Na altura, o processo de saída ocorreu num ambiente de bastante incerteza sobre se as poupanças efetuadas pelo Estado teriam sido suficientes para Portugal regressar aos mercados", afirmou o professor da Católica..E no entender de João Borges de Assunção, a medida de Resolução do BES, que ocorreu já no verão de 2014, "foi, em rigor, a pior crise pós saída do programa". .No entanto, o professor da Católica considerou que "a existência de um programa cautelar não teria impedido a crise do BES nem dado folga adicional suficiente para o alienar noutras condições mais favoráveis". E o economista concluiu: "Num certo sentido, continuamos condicionados pelos desenvolvimentos oriundos do sistema financeiro"..Portugal pediu assistência financeira em 06 de abril de 2011, com José Sócrates como primeiro-ministro. Um mês depois, em 05 de maio, a 'troika', apresentou o programa de assistência financeira a Portugal, no valor de 78 mil milhões de euros..Em 17 de maio de 2014 terminou o Programa de Assistência Económica e Financeira a Portugal assinado em 2011, que assinalou a saída da 'troika' do país.