Economistas e agências de acordo: ainda é cedo para subir o rating

Época de classificações reabre dia 16. Mas agências querem indicadores mais sólidos para poderem subir as notas
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As últimas vitórias da economia portuguesa parecem não ser suficientes para aliviar as reservas das agências de rating. E os economistas concordam: é preciso cautela. É que, apesar dos apelos do governo, do Presidente da República e até do comissário Moscovici para uma descida do rating que permitisse aliviar os juros da dívida e trazer o investimento de alguns grandes fundos, há ainda obstáculos a ultrapassar, como a enorme dívida pública e privada, a fragilidade da banca, carregada de crédito malparado, e o ainda fraco crescimento económico. A discussão reabre já no dia 16, com a análise da Fitch.

"Portugal ainda não demonstrou capacidade de crescer a médio prazo, e sem provas dadas de um crescimento sustentável e com capacidade para travar a dívida todas as cautelas são justificadas", afirmou o economista Paulo Soares de Pinho, professor na Universidade Nova de Lisboa. "Tenho sérias dúvidas de que os perigos tenham passado."

Não é o único. A Moody"s, que mantém desde julho de 2011 a avaliação de Portugal num patamar de investimento especulativo, ou lixo (Ba1), não adianta, para já, quaisquer novidades. "Publicámos o nosso relatório anual sobre o crédito a 18 de maio, em que se incluem dados sobre o que pode ajudar a subir ou a descer a nota", adiantou a agência ao DN/Dinheiro Vivo. E repete os recados: "O rating pode subir se a consolidação orçamental e a redução da dívida acelerarem significativamente por comparação com as expectativas. Um crescimento económico muito mais forte seria também benéfico".

Ainda assim, o discurso da Moody"s tem vindo a desanuviar. A agência considera, por exemplo, que o andamento da economia poderá ajudar a cumprir as metas orçamentais. As notas mais críticas vão para a dificuldade em gerir o malparado da banca e para a enorme dívida pública - 130,4% do PIB em 2016.

Em entrevista ao DN/Dinheiro Vivo, Jean-Michel Six , economista chefe da Standard & Poor"s, outra agência que também tem Portugal num nível especulativo, faz uma leitura mais positiva da economia, mas afirma que é necessário perceber se o crescimento deste primeiro trimestre - o maior desde o final de 2007 - é sustentado e se vai além da boa prestação do turismo. "É preciso perceber se esta recuperação é sustentável. Como o efeito base é muito baixo, qualquer pequena recuperação resulta num crescimento percentual muito elevado."

Da Fitch, os recados são idênticos. Em resposta ao DN/Dinheiro Vivo, a agência de notação financeira remete para as declarações quando Bruxelas deu por terminado o procedimento por défices excessivos. "Esperamos que a tendência pronunciada de redução do défice continue, mas a elevada dívida pública e a qualidade dos ativos bancários ainda pesam no perfil de crédito soberano de Portugal." Ou seja, dia 16, quando fizer a nova análise à economia portuguesa, dificilmente mudará o rating.

"Acho excessivo esta pressão sobre as agências porque objetivamente não temos mais razão hoje do que há um ano para esperar uma subida", diz Ricardo Paes Mamede. O que temos "são indicadores, não mais do que isso". Mas o economista também vê "algum exagero [das agências] na insistência em manter o rating em lixo", porque muitos fundos que gostariam de investir em Portugal não o podem fazer enquanto a notação se mantiver no patamar especulativo.

Filipe Garcia, analista da IMF, também realça as incertezas sobre a sustentabilidade do crescimento da nossa economia. "Para as agências de rating, um bom ano não chega. Aliás, foi essa cautela que impediu as agências de cortar mais na notação, nomeadamente no caso da DBRS", a única agência que permite a Portugal continuar a financiar-se no mercado. E acentua que "é importante que o governo continue a consolidar as contas públicas". Porque há perigos. "A nível externo, os riscos são porventura mais sérios, nomeadamente uma desaceleração da procura externa, desalinhamento político dentro da UE ou redução dos estímulos do BCE."

Paulo Soares de Pinho alerta também para os níveis "muito baixo do investimento" porque vê aqui mais um entrave a um crescimento robusto. "É preciso investimento produtivo, não investimento público, que nos traga mais encargos no futuro."

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