E o povo das Nações Unidas aplaudiu

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Mais nenhum português teria conseguido o que António Guterres conseguiu", disse Marcelo Rebelo de Sousa após a cerimónia do juramento do novo secretário-geral. Tinham passado os momentos emocionantes da sessão, com aplausos a interromper o discurso de Guterres apenas quando pormenorizou aspetos da reforma interna. As palmas vieram dos delegados mas também das zonas da sala onde estavam aqueles que são o pessoal que aqui trabalha.

Sentada na zona da imprensa, a chinesa Noelle Xie, conselheira das Nações Unidas, mostrou-me orgulhosa uma fotografia que tirou com Guterres numa receção na embaixada francesa. Gosta dele? "He"s a very nice guy", responde, e talvez seja este um elogio que faltava depois de dado o devido realce à sabedoria, à sensatez, ao profundo conhecimento e domínio das matérias que pesam sobre ele. A importância de Guterres ser um homem da casa, de quem o pessoal gosta e em quem confia, voltou a ser evidente. Não surpreendeu ninguém que ele afirmasse que, por exemplo, "não se pode demorar nove meses a colocar um elemento no campo". Aplausos de quem conhece os entraves da pesada máquina burocrática.

"Ele é o homem ideal para este cargo e para continuar o trabalho de Ban Ki-moon", tinha sublinhado Samantha Power, a impressiva embaixadora dos EUA que fez uma intervenção política mas muito pessoal sobre o secretário-geral cessante. Contou a vida do sul-coreano, um "filho das Nações Unidas" com um árduo percurso até aqui chegar. A testemunhar esta mudança, uma freira sul-coreana riu-se com gosto quando lhe disse que estávamos a trocar de papéis - ela a despedir-se do homem do seu país, eu a ver chegar o português. Na galeria, muitos portugueses que trabalham na ONU tiravam fotografias com os telemóveis.

A enorme sala da Assembleia Geral, com o seu painel dourado com duas dezenas de metros de altura, esteve sempre atenta ao que ia sendo dito. Na zona dos convidados, a família de Guterres - a mulher, Catarina Vaz Pinto, e os filhos Mariana e Pedro, o genro e a nora, e a irmã Teresa - lado a lado com a de Ban Ki-moon. Na mesma bancada, o padre Melícias e o médico pessoal e velho amigo Leopoldo de Matos. No lugar da delegação portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa seguiram toda a sessão e subiram ao palco momentos antes do juramento.

No final, Guterres falou à comunicação social internacional, da norte-americana CNN à agência chinesa. Depois foi a vez de os jornalistas portugueses colocarem algumas perguntas ao novo secretário-geral, que entra em funções a 1 de janeiro. Todas as sessões de perguntas e respostas tinham de ser curtas, uma dor de cabeça para os assessores, porque há almoço agendado e a cerimónia acabou com atraso. Pelos corredores, fotografias dos secretários-gerais e dos presidentes da Assembleia Geral, onde se descobre Freitas do Amaral. Obras de arte enchem as paredes e os espaços abertos.

Marcelo e Costa continuam a exibir uma cumplicidade bem disposta. Claro que estavam particularmente felizes ontem, dia em que o PR fez 68 anos, por coincidência. Andaram sempre juntos, conversando animadamente e citando-se um ao outro. "Hoje é um dia de unidade nacional, um momento de serviço de Portugal às Nações Unidas e ao mundo", disse o aniversariante. E sobre Guterres: "Somos amigos desde os 18 anos, ele sempre melhor, preocupado com os problemas sociais. Queríamos mudar o mundo. Quem diria que 46 anos mais tarde ele estaria aqui, a contribuir mesmo para a salvação do mundo." Mas não é só de festa o momento. Costa acrescentou uma nota: Portugal tem agora uma maior responsabilidade, para se manter no nível tão alto a que todo o processo da candidatura de Guterres e a eleição do secretário-geral a elevaram. "Grande dia", diz já sem protocolos nem microfones - "disseram-me que até o Ronaldo vai ser Bola de Ouro!" Lá fora, a chuva que molhou Nova Iorque pela manhã já parou. E Ronaldo ganhou mesmo.

Enviada a Nova Iorque

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