Na prova de aferição de Matemática do 2.º Ciclo do Ensino Básico, feita no passado mês de Maio por cerca de 100000 alunos no final do 6.º ano de escolaridade, a percentagem de notas positivas foi de 73%, sendo que apenas 1,3% dos alunos tiveram o menor dos dois níveis negativos existentes. Na primeira chamada do exame nacional de Matemática do 3.º Ciclo do Ensino Básico, feita no passado mês de Junho por cerca de 90000 alunos no final do 9.º ano de escolaridade, a percentagem de notas positivas foi de apenas 51%, sendo que 9,5% dos alunos tiveram o menor dos dois níveis negativos existentes. À primeira vista, estes números poderiam permitir concluir que o problema do desempenho em Matemática dos nossos alunos está melhor resolvido ao nível do 2.º ciclo do que do 3.º. Essa seria, no entanto, uma conclusão precipitada. De facto, os critérios de exigência que terão orientado a elaboração destas duas provas não foram os mesmos, e os seus resultados não são comparáveis..Relativamente ao enunciado da prova do 2.º ciclo, a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) divulgou um parecer no qual referia que 50% das questões da prova eram de 1.º ciclo. Este facto pode ser confirmado com mais detalhe num artigo que escrevi com Filipe Oliveira, meu colega na direcção da SPM, em que se mostra que o nível de exigência desta prova é inferior ao que é usado internacionalmente para alunos do 4.º ano de escolaridade (cf. Gazeta de Matemática, Julho de 2010, pp. 39-42 - http:// www.spm.pt/files/outros/Prova%20de%20aferição.pdf). Assim, os resultados da prova de aferição de Matemática do 2.º ciclo de 2010 pouco ou nada dizem sobre o nível de desempenho em Matemática dos alunos no final do 6.º ano de escolaridade do nosso sistema de ensino..O parecer da SPM relativo ao enunciado da 1.ª chamada do exame nacional de Matemática do 3.º ciclo foi bastante diferente. Não deixando de considerar que a prova não tem ainda o nível de exigência adequado ao final de nove anos de ensino básico obrigatório, reconhece que não cai nos exageros de facilitismo de anos recentes e que representa um passo positivo que deve ser continuado. .Os resultados desta prova dizem qualquer coisa sobre o nível de desempenho em Matemática dos alunos no final do 9.º ano de escolaridade do nosso sistema de ensino em 2010. Ninguém pode ficar satisfeito com quase 50% de notas negativas, mas é muito melhor ter dados minimamente fiáveis, como estes do 3.º ciclo, do que dados sem qualquer significado real, como os do 2.º ciclo. .Uma das condições necessárias para uma melhoria efectiva da qualidade do ensino e da aprendizagem da Matemática em Portugal é a existência de provas nacionais de avaliação exigentes, adequadas a cada um dos nossos ciclos de estudo e com resultados fiáveis e comparáveis ao longo do tempo. Há que ter a coragem e a determinação necessárias para dar todos os passos necessários à sua implementação.