A não inclusão da eliminação progressiva dos combustíveis fósseis no texto final da 28.ª Conferência das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas (COP28) levou ao prolongamento da cimeira por falta de acordo sobre o texto. Porém, Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero, considera que é o ponto mais importante a ser incluído neste texto.."Não nos basta falar de emissões de uma forma geral, não nos basta assumir um pico de emissões em 2025. Se quisermos ter um compromisso para o futuro temos de assumir neste tipo de conferências que os combustíveis fósseis são para terminar, deixando apenas algumas aplicações residuais em que seja possível minimizar ou impedir as emissões", afirma..Ontem devia ser o último dia de cimeira mas não foi possível chegar a um acordo e por isso acabou por ser prolongada. O presidente da COP28, o Sultan Al Jaber, queria ter chegado a um acordo no dia em que o Acordo de Paris fez oito anos, mas tal pretensão acabou por não ser possível..Quem mais apelou ao longo das negociações para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis foram os negociadores e ativistas vindos de locais que temem ficar submersos com a subida do nível do mar. John Silk, representante das Ilhas Marshall, no Oceano Pacífico, disse à AFP que o seu país "não veio aqui para assinar a sua sentença de morte"..Vanessa Nakate, ativista do clima do Uganda, disse, também à AFP, que a COP tem de abordar a questão dos combustíveis fósseis. "Se os líderes não abordarem a causa principal da crise climática após 28 anos de conferências sobre o clima, não só estão a falhar connosco, como também estão a fazer com que percamos a confiança em todo o processo da COP", afirmou..O ambientalista Francisco Ferreira alerta para as "falsas soluções" apresentadas pelo presidente da COP no rascunho do documento final. "Se tivermos objetivos apenas em termos de emissões, sem nunca tocar na raiz do problema, não o vamos resolver. Ou então se formos por falsas soluções, como por exemplo, a captura de carbono, e der prioridade a soluções que, oxalá, venham a ter um papel importante, mas que por agora ainda não têm, não vou conseguir lidar com o aquecimento que está a caminho dos 3 graus, quando não queremos ir acima de 1,5 graus em relação à era pré-industrial"..O Sultan Al Jaber, afirmou estar a ser ultimado um novo rascunho com base nas linhas vermelhas apresentadas pelas partes envolvidas nas negociações. "É completamente normal para um processo assente no consenso. Sabíamos que as opiniões eram polarizadas, mas não sabíamos quais eram as linhas vermelhas dos países", afirmou o embaixador Majid Al Suwaidi e diretor-geral da cimeira Ao longo de todo o encontro o presidente da COP repetiu várias vezes a confiança naquilo que a ciência diz quanto às alterações climáticas..Mas depois da divulgação do primeiro rascunho várias associações de ambiente, a União Europeia, os Estados Unidos, a Austrália, o Reino Unido e outros países, concordaram que esse texto não revelava de facto confiança na ciência. "A ciência diz-nos qual o caminho a seguir, e não passa por estas falsas soluções inventariadas no documento que foi colocado em cima da mesa. Com esta proposta não conseguíamos ir longe", frisaram..Francisco Ferreira faz questão, no entanto, de apontar os aspetos garantidos e positivos dos últimos 12 dias de conversas e negociações. Por exemplo, o fundo de perdas e danos, dedicado a apoiar países afetados pelas alterações climáticas, entrou em funcionamento e foi aclamado por cerca de 200 países, tendo sido classificada por várias entidades como sendo uma decisão histórica. O ambientalista considera que apesar de vários países se terem comprometido a contribuir com valores significativos para este fundo, ainda "está aquém daquilo que é necessário e desejável"..O presidente da Zero expressa o desejo de se manter viva a esperança de cumprir o Acordo de Paris. "Para manter esta esperança é importante ter um traçado claro no que respeita ao reduzirmos fortemente o uso ou a queima de combustíveis fósseis"..A Zero considera, no entanto, que a dimensão atual da COP , em termos de participantes, infraestruturas, voos, tempo de negociação, é exagerada. Mas a associação não deixa de lembrar que se não houvesse este tipo de reuniões não haveria alternativas para discutir o problema das alterações climáticas a nível mundial..sara.a.santos@dn.pt