Numa manhã de 2003, Mickey Rourke acordou dentro do guarda-roupa do seu quarto, na sua pequena casa de Los Angeles. Mal se conseguia mexer, e custava-lhe pensar. Tinha tido uma overdose. Já não tinha o seu Rolls-Royce nem a sua colecção de motos nem a sua mansão em Benedict Canyon. Já não tinha amigos, dinheiro ou agente. Já nem tinha mobília, roubada pelos gangsters e yes-men que formavam o seu circulo íntimo. Entre os papéis que havia recusado nos anos anteriores contava-se o de Bruce Willis em Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, e o de Tom Cruise em Encontro de Irmãos, de Barry Levinson..Mickey Rourke estava sozinho e sem esperança. Pensou em suicidar-se, mas não o fez por causa do olhar carinhoso que lhe lançou o seu fiel cão Beau Jack, que dormira a seu lado. Vinte anos antes, Mickey Rourke havia sido a grande esperança do cinema americano, comparado a James Dean e a Marlon Brando, a nova jovem estrela "rebelde" de Hollywood, revelado em 1981 com um papel secundário em Noites Escaldantes, de Lawrence Kasdan, que quase "roubou" a William Hurt e Kathleen Turner. .Entre o início dos anos 80 e o começo da década de 90, Rourke havia rodado filmes como Diner, de Barry Levinson, Juventude Inquieta, de Francis Ford Coppola, O Papa de Greenwich Village, de Stuart Rosenberg (ainda o seu favorito), O Ano do Dragão, de Michael Cimino, ou Barfly, de Barbet Schroeder. .Mas depois de uma rajada de fracassos de bilheteira, como Orquídea Selvagem, ou Harley Davidson e o Marlboro Man; da decisão de deixar de ser actor e voltar ao pugilismo, a sua primeira paixão; e da combinação de um estilo de vida anárquico, péssimas companhias, escolhas de papéis catastróficas e uma atitude agressiva e arrogante para com a indústria cinematográfica que lhe dava dinheiro a ganhar, Mickey Rourke passou de celebridade lisonjeada a pária incontratável..Quase desapareceu do radar, protagonizando filmes menores ou feitos directamente para vídeo e DVD, sendo notícia apenas quando apareceu no julgamento do mafioso John Gotti, em Nova Iorque, ou espancou dois traficantes de droga em Miami. Uma operação plástica falhada à cara obrigou-o a uma penosa reconstrução cirúrgica. A mansão foi penhorada, teve de vender os carros e as motos, a mulher, a actriz Carré Otis, divorciou-se dele, os parceiros foram-no abandonando, mudou-se para uma casa modesta com os cães, "os meus únicos amigos". .Por isso, Mickey Rourke acordou um dia a dormir no guarda-roupa, com uma overdose, e a pensar em dar um tiro na cabeça. Mas tivesse sido pela forma como o cão Beau Jack olhou para ele, ou porque achou que a morte não era solução, Rourke decidiu mudar de vida. Arranjou um agente novo, voltou ao catolicismo graças a um sacerdote amigo, o padre Steve, começou a fazer psicanálise e ginástica, e foi conseguindo pequenos mas vistosos papéis em filmes de amigos como Vincent Gallo, Steve Buscemi, Tony Scott, Sylvester Stallone ou Robert Rodriguez. .Já não está "zangado com ninguém". E regressa agora pela porta grande em O Wrestler, de Darren Aronofsky, cuja personagem principal, o lutador de wrestling Randy "The Ram" Robinson, caído nas ruas da amargura, tem algo do próprio Rourke, e da sua história de ascensão, queda e ressurreição. .Mickey Rourke ganhou todos os prémios que podia ganhar com O Wrestler, mas a Academia negou-lhe o Óscar de Melhor Actor. Como o próprio Rourke disse: "Já incomodei tanta gente em Hollywood, porque diabo é que eles haviam de me dar um Óscar?" Acertou em cheio.