Não foi garantidamente a pensar num jovem político português que subitamente viu o chão fugir-lhe debaixo dos pés, e chamado, por exemplo, Pedro Nuno Santos, que o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu José, poema publicado pela primeira vez em 1942..Em plena II Guerra Mundial, e no contexto da ditadura brasileira liderada pelo Presidente Getúlio Vargas (1882-1954), Carlos Drummond de Andrade fez através de um personagem ficcionado (José) o retrato de um homem (ou até de um povo inteiro) que perde tudo ("E agora, José? / A festa acabou, / a luz apagou, / o povo sumiu, / a noite esfriou, / e agora, José?"). Mas que, nem que seja por pura inércia, se mantém agarrado à vida: "Se você cansasse, / se você morresse.../ Mas você não morre, / você é duro, José!".Pedro Nuno Santos celebra hoje 46 anos. Vive aquele que é, seguramente, o momento mais difícil da sua já longa carreira política e, desde janeiro, retirado em casa, não para de fazer contas à vida. Sucedem-se as revelações na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) à TAP, empresa que co-tutelou (com o Ministério das Finanças) desde que foi para ministro das Infraestruturas, em outubro de 2019. Ficou a saber-se, por exemplo, que Alexandra Reis se voluntariou perante Pedro Nuno Santos, então ministro com tutela da empresa, para renunciar ao cargo de administradora sem indemnização (que seria de meio milhão de euros) e que só não o fez porque, do lado do ministério, não houve resposta..Pedro Nuno Santos arca também com as consequências de ter sido o ministro de um secretário de Estado, Hugo Mendes, que teve a conduta "perniciosa e estúpida" (palavras do presidente do PS, Carlos César) de pedir à CEO da TAP, Christine Ourmières-Widener que alterasse a data de um voo de Maputo para Lisboa com o Presidente da República..No início de janeiro, Pedro Nunos Santos deixou o governo (João Galamba ficou-lhe com a pasta das Infraestruturas e Marina Gonçalves com a da Habitação). Anunciou ao mesmo tempo que se demitia da direção do PS - decisão com que pretendeu simbolizar ter sido este um momento de fim de ciclo na sua vida política (e, portanto, de início de um outro). Podia ter retomado imediatamente o lugar de deputado, mas suspendeu o mandato, alegando necessidade de férias. Tem regresso marcado para o início de julho. Mas regressará?.O próprio não quer falar. Mas quem o conhece bem assegura que, embora a tendência (bastante) mais forte seja para manter a decisão de regressar, não está absolutamente excluída a hipótese de, como diz um amigo, "ganhar juízo" e prolongar a ausência política, batendo com a porta..Na verdade, e embora por razões infinitamente menos graves, Pedro Nuno enfrenta, como o José de Drummond de Andrade, tempos de medo e de incerteza. Os trabalhos da Comissão Inquérito já o fragilizaram bastante e, faltando ainda ouvir dezenas de personalidades, impossível é descartar a hipótese de esse desgaste se prolongar mais várias semanas..Já é claro, nomeadamente, pelas conclusões da Inspeção-Geral de Finanças, que a saída de Alexandra Reis da administração da TAP ocorreu de forma irregular. E isso aconteceu quando Pedro Nuno Santos era o ministro com a tutela da empresa..O nível de desgaste poderá ser tal que o leve a concluir que deixa definitivamente de ter condições para alimentar o sonho de um dia suceder a António Costa na liderança do PS. Que segredos se escondem nos documentos que a comissão recebeu? Que segredos nos documentos que ainda irá receber? Que surpresas preparam os futuros depoentes? São demasiadas variáveis - e sobre as quais o ex-ministro não tem o menor controlo..Oficialmente, o mandato da CPI terminará a 23 de maio. Mas já todos os seus membros sabem que - como aliás é habitual nestas comissões - os trabalhos terão de ser prorrogados. A intenção, segundo soube o DN de fontes parlamentares, é dá-los por concluídos até ao final da sessão legislativa, ou seja, até meados de julho. A relatora já se sabe quem é: a deputada socialista Ana Paula Bernardo (dirigente da UGT e ex-assessora da Presidência da República)..Quanto ao depoimento de Pedro Nuno Santos, o que se sabe é o seguinte: todos os membros do governo e ex-membros do governo a ouvir sê-lo-ão no final dos trabalhos. E observando a fita do tempo, isto é, começando dos mais antigos e progredindo até aos mais recentes..Os atuais ministros das Finanças, Fernando Medina, e das Infraestruturas, João Galamba, serão portanto os últimos a ser ouvidos. Pedro Nuno Santos será imediatamente antes. E, entretanto, vai remoendo culpas, desilusões, ódios e vinganças, sendo esse o combustível da sua sobrevivência: não entregar a taça a quem o quer ver abatido..joao.p.henriques@dn.pt