E agora, Afeganistão?

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Está abundantemente demonstrado que é mais fácil iniciar do que acabar uma guerra. Foi assim com a Primeira e a Segunda Guerras Mundiais, com as guerras coloniais em África, com o Vietname, para referir apenas algumas do século XX. E está a ser assim com a saída da coligação internacional do Afeganistão, na sequência da tomada de Cabul pelo exército talibã.

Nos Estados Unidos, líder da coligação, começou já a habitual procura de bodes expiatórios, com democratas e republicanos a culpabilizarem, respetivamente, Donald Trump ou Joe Biden. O primeiro fez com os talibãs um acordo que não lembra ao diabo, libertando prisioneiros e entregando-lhes o país de mão beijada, como se viu pela rapidez com que chegaram à capital. O segundo ficou com a criança nas mãos e mais não pode fazer do que minimizar as perdas de uma operação de retirada, que, como a História nos ensinou, é sempre humilhante e frequentemente sangrenta. Ainda assim, Biden sabe que esta é uma janela de oportunidade única para se afastar de um território repleto de etnias e tribos rivais, onde os pais educam as crianças para não se subjugarem aos estrangeiros.

Para responder à pergunta sobre o que acontece agora, socorro-me do atentado terrorista às portas do aeroporto de Cabul que, na quinta-feira, vitimou um número de mortos ainda por determinar, mas que se aproximará dos 200, e feriu algumas centenas. Este ataque suicida foi perpetrado pelo chamado ISIS-K, a vertente afegã do Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIS), que atua na província do Khorasan, uma região que se desenvolve em partes do Afeganistão, Paquistão e Irão. São os principais inimigos do regime talibã, embora sejam também sunitas extremistas, obedientes à sharia - a lei religiosa que resulta da interpretação fundamentalista do Corão - e dedicados à jihad, a guerra santa.

Com esta ação, o ISIS-K conseguiu três objetivos de uma só vez. Primeiro, fixou definitivamente a data de 31 de agosto como o limite último da retirada das potências ocidentais. O risco de permanecerem mais dias é de tal forma grande que, à exceção dos Estados Unidos, já todas as forças da coligação deram por findas as operações de evacuação. E Joe Biden não suportará mais caixões cobertos com a bandeira americana vindos de Cabul. Um segundo objetivo foi a humilhação dupla imposta aos estrangeiros ocupantes e ao novo regime talibã. Com todos os olhos do mundo postos naquele aeroporto, o ISIS fez a sua mais musculada prova de vida. Por fim, o mais importante dos objetivos: a antecipação de um Estado falhado. Não é verosímil que venham a ser cumpridas as promessas de reconstrução e inclusão que os talibãs desajeitadamente verteram nas conferências de imprensa dos últimos dias. Porque eles próprios não abandonaram o fundamentalismo religioso, manifesto no tratamento que dão às mulheres e às crianças, mas também porque o ISIS lá estará para gerar a instabilidade que melhor serve os seus propósitos.

E é justamente nestes propósitos do ISIS, que serão também aproveitados pela Al-Qaeda, que reside a maior ameaça para o Ocidente. Um Estado falhado no Afeganistão será o casulo ideal para dar um novo fôlego à jihad, recriando as condições que resultaram no 11 de Setembro, há 20 anos. Os Estados Unidos e a Europa não ficarão mais seguros a partir do dia 31 de agosto. Cabe-lhes, agora, encontrar uma nova e mais eficaz fórmula para manter o terrorismo islamita longe das suas fronteiras.

Deputado e professor catedrático.

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