Chega pontual a um restaurante da avenida da Liberdade, em Lisboa. A refeição é apenas um pretexto para uma boa conversa. Pragmática, vai direta ao assunto: os negócios, a inovação, os clientes e a equipa. Aparentemente, é uma mulher apressada. Fala rápido, agita o cabelo, olha em redor com a aparente vontade de querer sorver o mundo..Cristina Rodrigues tem alma de financeira, mas é um "coração mole", como a própria admite. Fala, vezes sem conta, no papel das pessoas dentro da organização que lidera. Muitas acompanham-na há décadas, afinal entrou pela primeira vez na Capgemini aos 29 anos, depois de ter feito carreira na Caixa Geral de Depósitos e onde chegou a diretora..Já na multinacional tecnológica e de consultoria, Cristina foi a primeira mulher a ocupar a cadeira de CFO (administradora financeira). E hoje, sempre que participa em reuniões da firma, é a única mulher CEO que se destaca entre 11 líderes da Europa com assento nesses comités de alta decisão. A partir de Lisboa, Cristina Rodrigues gere também o mercado de Angola. Uma cultura diferente, um desafio acrescido..Adepta das últimas tendências tecnológicas, por vezes usa sensores para que a família saiba onde está. Diz que é uma questão de segurança, afiança. Viaja bastante e para vários mercados e, mesmo à distância, mantém por perto a relação com as três filhas. A do meio viveu em San Diego, cidade onde frequentou o terceiro ano do curso de Gestão. A mais velha preferiu a área do Turismo e a mais nova, apesar de estar ainda no décimo ano, está determinada em ir para Medicina..Cristina está habituada a gerir casas cheias. Na Capgemini comanda 4300 pessoas, no total, e em casa, além das três filhas, tem uma equipa com mais quatro enteados e que fazem plenamente parte do clã..Atenta aos detalhes.CEO desde 2018, é uma gestora atenta aos pormenores. Sabe que não pode nem deve "fazer micro gestão, nem tem tempo para isso", mas preocupa-se com os detalhes sempre que possível. Por exemplo, esta semana a empresa estreou novas instalações na Torre do Colombo Oriente, em Lisboa. A gestora envolveu-se na escolha dos materiais e ajudou a definir espaços, ambientes, cores. Também em Évora, a firma tem um novo escritório e um centro de inovação e Cristina apostou em acrescentar-lhe uma horta. Os alimentos que ali nascem revertem para uma associação local que apoia crianças..No Porto, a Capgemini tem dois escritórios, um deles é um centro de inovação e, por causa do risco de espionagem, "ali só entram pessoas autorizadas". Afinal, são desenvolvidas soluções para "as indústrias automóvel e de máquinas de café", por exemplo. No Fundão estão situados outros escritórios, fruto da aquisição da Altran pela Capgemini ..Com orgulho, Cristina conta que a organização que gere foi escolhida para desenvolver um projecto piloto de condução autónoma e mostra-se muito entusiasmada com o desafio. Diz ser um dos projectos mais desafiantes que tem em mãos. "Até 2025 deverá ser implementado e, até lá, é preciso prototipar as cidades", conta. Neste projecto público estão envolvidas 23 entidades e a Capgemini é líder do consórcio. "No futuro, quando chamarmos um Uber vai aparecer um carro sem condutor", e "vão surgir dúvidas sobre como gerir um seguro e de quem são as responsabilidades", alerta..A inovação faz parte do ADN da empresa e da líder, mas é o setor financeiro que representa 40% do negócio total, seguido do setor das telecomunicações. "No Fundão, temos um laboratório de 5G". Segue-se "o setor público, o da energia e o do retalho está a crescer, uma vez que estamos a gerir grandes superíficies em várias frentes: sustentabilidade, processos, tecnologia, sensorização e experiência do cliente", avança..A "vontade de ir sempre a reuniões com os clientes" impera na agenda frenética da executiva que, de forma pragmática, tenta chegar a todos. Para Cristina, "impossíveis não há". Quando chegou à cadeira do poder, teve de percorrer todo o mercado, contactar os stakeholders, dizer ao que vinha, "melhorar a imagem e a própria reputação da empresa" que já tinha vivido melhores dias. Hoje sente que a missão está a ser cumprida, mas é um trabalho diário..Nos clientes e na equipa, afiança ser muito orientada para "as pessoas. Gosto de fazer mais do aquilo que pedem para fazer. E se os projectos correm mal eu vou para a frente, dou a cara", afiança..Entrar no ranking das melhores empresas para trabalhar do Great Place to Work foi um grande salto em termos de ambiente de trabalho e Cristina enaltece essa distinção. "Sou exigente é verdade, mas também atenta. Por exemplo, os cabazes de Natal começaram a ser oferecidos aos colaboradores depois de um deles vir ter comigo a pedir adiantamento de salário no Natal" e "o apoio dados aos livros escolares das crianças [que são filhos de empregados] surgiram porque as pessoas me pediam um adiantamento para livros e material escolar e aí, confrontada com a situação, decidi atribui um plafond por cada filho, para ser usado em livros ou material"..pequeno almoço da proximidade.Uma vez por mês, Cristina toma o pequeno almoço com colaboradores. "São escolhidos vários e de níveis hierárquicos diferentes. Não trazem computador, nem papel e, desse encontro, não faço reporte para com as respectivas chefias". Esta foi a forma que encontrou de ouvir todos, sem filtros, e com informalidade.."Em 2018 acabaram-se as gravatas e o formalismo dentro da empresa, depois de um inquérito aos trabalhadores ter revelado que isso os incomodava. Portanto, se vão estar com um cliente de um banco, por exemplo, têm de se apresentar de gravata, e já o sabem. Nos outros momentos, podem adaptar-se." O conforto é importante quando se trabalha tantas horas seguidas e debaixo da pressão dos fregueses.."Perfecionista" e com 51 anos, Cristina faz questão de chegar ao escritório antes das 8h, todos os dias. Mesmo quando não há pequenos almoços agendados com a equipa, "quem lá está cedo é desafiado para tomar um café comigo"..Apesar do gabinete onde trabalha ser transparente, gosta de circular pelo open space. "No início até houve quem estranhasse e se queixasse", recorda. Para Cristina não há barreiras..Na gestão da carreira e da família, diz que a organização é tudo. "Sempre fui a festas das minhas filhas na escola e digo às pessoas da empresa para irem também, é importante". Admite: "sou muito exigente, mas a exigência começa comigo". Garante que na gestão do quotidiano"tem de sobrar tempo para a vida pessoal. À sexta-feira de tarde não gosto de ter reuniões e, sempre que possível, tento não trabalhar para poder passear um pouco com as minhas filhas"..Os dias são longos, raramente terminam antes das 20h ou 21h, pelo que opta por "marcar as atividades pessoais na agenda", como se de uma reunião se tratasse. Depois, "quando gostamos do que fazemos já não custa trabalhar até tarde" e "há pequenas coisas que valem mais do que o dinheiro, como um chocolate no dia certo", brinca..Há outras coisas que nâo têm preço, como o sorriso de uma criança feliz. Recorda que a Capgemini sempre comprou presentes para os filhos dos colaboradores no Natal, mas com a aquisição da Altran a iniciativa tornou-se uma gigantesca empreitada, pelo que optou "por enviar uma carta da CEO a cada criança, acompanhada de um cartão com um valor para que cada um gastasse no que quisesse." Para elaborar a carta usou um desenho do Principezinho, de Antoine Saint- Exupéry, obra que tem sempre em cima da sua secretária de trabalho. A carta foi bem acolhida por todos e os miúdos apreciaram, garante..Já no desporto, a multinacional apoia a seleção feminina de rugby e vai, inclusivé, organizar um campeonato que envolverá equipas com trabalhadoras e trabalhadores da consultora. Os valores do rubgy e o espírito de corpo são boas referências quando se quer inspirar uma equipa que joga num mercado tão competitivo, como aquele em que atua a Capgemini. Agora, só falta marcar muitos ensaios!