É a energia, estúpido!
Em 1992, o estratega que conduziu o jovem governador do Arkansas Bill Clinton à cadeira de Presidente dos EUA, de nome James Carville, sintetizou na expressão "é a economia, estúpido!" o caminho que viria a derrotar um George Bush demasiado entretido com a Guerra do Golfo. Trinta anos depois, quando entramos numa década decisiva, as opções políticas e as escolhas dos eleitorados dos países mais desenvolvidos serão determinadas pela necessidade de descarbonizar a economia, isto é, pela energia.
Como sempre, andam por aí uns movimentos de negacionistas, travestidos de cientistas e analistas, que inundam as redes sociais com conteúdos intencionalmente enviesados, mostrando o que apelidam de "desastre ambiental" das energias renováveis, alternativas aos combustíveis fósseis petróleo, gás e carvão. Falam da dependência dos metais raros necessários para a fabricação dos equipamentos que viabilizam a captação da energia do sol, ar e água, a sua transformação em eletricidade e a conversão desta em calor e movimento. Mostram também imagens de minas e instalações de refinação muito impactantes e de mineiros a trabalhar em condições infra-humanas. Perante esta ofensiva, há que colocar alguns pontos nos is.
Primeiro, não há Humanidade sem economia e não há economia sem energia. As leis da física e da química são muito claras na demonstração de que não é possível criar matéria ou energia a partir do nada, o que nos conduz à fatalidade da existência de impactos. A questão é, pois, fazer uma opção que, para usar um palavrão técnico, minimize as externalidades negativas e configure um estado de sustentabilidade.
Segundo, as más práticas existentes na mineração de metais raros são um tema que se coloca no plano da gestão dos impactos ambientais e das relações laborais. Elas existem em geografias específicas e resultam de uma preocupante inobservância da regulamentação ambiental e dos direitos humanos. Mas existem também nos campos petrolíferos, cujas imagens se ocultam porque não são bonitas de ver. É possível fazer melhor, muito melhor, como se pode constatar nas minas existentes na União Europeia.
Terceiro, há uma diferença fundamental entre o combustível fóssil e o metal raro. O primeiro é explorado para ser queimado, sem qualquer reutilização, poluindo e aquecendo o planeta até à insustentabilidade. No percurso entre a fonte e o consumo - extração do petróleo e gás, transporte e refinação - gasta-se 50% da energia total e emitem-se quantidades colossais de dióxido de carbono. Depois, ao nível da utilização final, a eficiência dos motores térmicos é de menos de 30%, a que acrescem as emissões da combustão, enquanto nos motores elétricos está acima dos 90% e sem emissões. Ao contrário do fóssil, que é consumo, o metal raro é investimento, porque pode ser utilizado para sempre. Tudo o que existe numa bateria ou num motor elétrico pode ser reutilizado ou reciclado, o que de resto está já a gerar uma promissora fileira industrial que vai criar muitos empregos.
A neutralidade carbónica só será possível com a eletrificação massiva. Portugal está no bom caminho, quer no plano da produção hídrica, eólica e solar fotovoltaica, quer na estratégia do hidrogénio, que é a alternativa viável para alimentar os motores elétricos de veículos mais pesados - autocarros, camiões, comboios, aviões e navios -, evitando o peso proibitivo das baterias.
Aos negacionistas e aos velhos do Restelo só apetece dizer: "É a energia, estúpido!"
Deputado e professor catedrático.

