E a canção estava na rua

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Tudo mudou na música portuguesa depois de Abril de 74. A mais evidente das transformações assinalou o fim do exílio, da vida escondida e dos discos passados por debaixo do balcão para os muitos cantores de intervenção que desde 60 lutavam contra o regime. Passaram a ser as vozes dos discos mais procurados, que enchiam cantos livres, que se escutavam nas emissões de rádio e televisão, num ciclo de protagonismo da canção popular politizada (e na esmagadora maioria dos casos essencialmente panfletária) que conheceria fim a 25 de Novembro de 75. Inversamente proporcional, a criação e divulgação de géneros antes "eleitos" acabou quase silenciada. A canção ligeira de letra anódina (que então ganhou apelido de "nacional cançonetismo") rapidamente foi saneada dos hábitos de consumo (regressando, aos poucos, e reformulada, primeiro com os Green Windows logo em 75 e, depois, através das carreiras de sucesso popular de José Cid, Herman José, Gemini, Cocktail e Marco Paulo). O fado, por muitos associado à velha ordem, quase foi apagado dos hábitos mais saudáveis do consumo português durante duas décadas, excepção para raras carreiras como as de Amália (que em 74 chegou a editar discos "revolucionários" como Meu Amor É Marinheiro, com capa alusiva ao 25 de Abril, o clássico Fado Peniche ou mesmo Grândola Vila Morena) ou Carlos do Carmo. O rock português, afogado pela euforia politizada (era coisa capitalista), acabou remetido a uma vida discreta. Mesmo sob abertura das rádios à nova produção anglo-americana, tivemos de esperar até 1980 para, aí, viver outra revolução.

Em 1975, concretização da euforia musical que inundou as ruas e salas de espectáculo da cidade e província desde 74, os nomes do canto de intervenção chegaram, em massa, aos discos (num ano onde raras foram as fugas editoriais a este tronco politizado... e de esquerda). Em tempos, e à distância, criticava-se o regime, denunciavam-se factos, cantava-se o desejo de mudança. Salvo pontuais e raras excepções, a canção política do Portugal pós-revolucionário transformou-se num programa de princípios com evidente carga pedagógica e, sobretudo, ideológica. Defen- dia-se o poder popular, a reforma agrária, o combate ao capitalismo, a celebração do operário e do camponês. Tractores e enxadas viravam protagonistas em canções feitas sob certas regras implícitas que promoviam frequentemente a eficaz descodificação da mensagem, a repetição do slogan, a fácil memorização da melodia, a transmissão da ideia.

Paradigma da então pouco comum não cedência da escrita (lírica e musical) perante a necessidade de passar uma mensagem, a canção Liberdade (vulgarmente conhecida como A paz, o pão, habitação...) de Sérgio Godinho foi um dos hinos do ano. Revelado no álbum À Queima Roupa, de 74, foi editado em 75 como single.

O outro exemplo musicologicamente marcante de 75 nasceu do já consagrado José Mário Branco. À sua chegada a Lisboa em 74 formou-se o CAC, Colectivo de Acção Cultural, uma das primeiras forças de luta e acção pela música, que congregou esforços diversos, com declaração de intenções num manifesto lido no 1.º Encontro Livre da Canção Popular, a 6 de Maio de 74. O tempo abriu cisões e criou dissidências. Afastaram-se os músicos ligados ao PCP, depois os próximos da LUAR, mantendo-se firme um grupo associado à UDP. Em 1975, o GAC Grupo de Acção Cultural -Vozes na Luta nascia dos sobreviventes ideológicos do CAC, abdicando os envolvidos de qualquer manifestação individualista, destacando antes o trabalho colectivo e depurado do que então se criticava como "vícios burgueses". O GAC editou quatro singles e um álbum em 75, afirmando-se como uma das mais activas forças musicais e políticas do momento.

A edição de música dominada por carga política marcou o ano. Fausto lançou Um Beco Com Saída, Luís Cília gravou Resposta e José Afonso limitou-se a editar, pela LUAR, o single panfletário Viva O Poder Popular. Carlos Paredes gravava É Preciso Um País, com poemas de Manuel Alegre. A estes juntaram-se tantos outros, muitos deles musicalmente menores e hoje datados. Entre a multidão de discos de canto político ou de perfil politizado de 75 destacam-se Que Nunca Mais de Adriano Correia de Oliveira, Estamos Livres de Ermelinda Duarte, Avante Camarada de Luísa Basto, Pelo Socialismo Com A Classe Operária de José Jorge Letria (na altura responsável pela música ligeira na Emissora Nacional), Daqui o Povo Não Arreda Pé de Carlos Alberto Moniz, De Pé Na Revolução de Samuel ou A Boca do Lobo de Carlos Cavalheiro. Este último, com Júlio Pereira, editou Bota Fora.

Mas houve excepções... A música popular acolhia as positivas e estimulantes estreias em álbum de Vitorino (Semear Salsa Ao Reguinho) e Jorge Palma (Com Uma Viagem na Palma da Mão). Nicolau Breyner (com Herman José) levava ao disco os sucessos de Nicolau no País das Maravilhas. Carlos do Carmo propunha Maria Vida Fria e Rodrigo, o mais conservador, A Última Tourada Real de Salvaterra. Fundamental, a estreia da Banda do Casaco em Dos Benefícios de Um Vendido no Reino dos Bonifácios abria espaço a um novo conceito de modernidade na música portuguesa. Em esferas rock, Petrus Castrus, Plutónicos e Beat-niks tocavam ao vivo. Os Tantra só apareceriam em 76.

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