O cinema preserva a condição de país independente, resistindo a diluir-se no "espontaneísmo" simplista da televisão. Há seres que vivem na nossa memória por causa do cinema, o que não quer dizer que sejamos "íntimos" deles, como acontece na obscena estupidez dos reality shows. É o contrário que acontece: o cinema define tais seres a partir de uma distância inacessível - a sua inacessibilidade confere-lhes dignidade e fascínio..Dominique Sanda, por exemplo. Há quanto tempo não a víamos num ecrã de cinema? Tendo em conta os poucos filmes que tem feito, talvez desde Os Crimes dos Rios de Púrpura (2000), de Mathieu Kassovitz. Em Um Belo Domingo, Nicole Garcia oferece-lhe o papel da mãe de Pierre Rochefort. E recordamos a sua revelação, em 1969, aos 21 anos, filmada com o infinito pudor de Robert Bresson, em Uma Mulher Meiga. Ou, um ano mais tarde, na geometria cruel de O Conformista, de Bernardo Bertolucci..Na delicadeza do seu olhar, Nicole Garcia é uma cineasta que sabe valorizar essa vida interior das pessoas do cinema. Certamente não por acaso, Um Belo Domingo é também um filme sobre a inexorabilidade do tempo, de tal modo que as personagens, ao perderem-se na memória, se podem reencontrar através da sua própria perdição.