Maria S. entrou com 20 valores na Faculdade de Medicina de Lisboa (FML). Foi a aluna com a média mais elevada, mas rejeita que isso seja importante a partir dali. "Sou igual a qualquer outro aluno. O facto de ter tido 20 não fará de mim melhor médica do que os outros". Maria, 18 anos, lisboeta, definia-se desta maneira, assumindo alguma timidez, "Sempre fui", diz a sorrir. Nós acrescentamos também: "Humilde." Ri-se, de novo, entre a hesitação se deve ou não falar ao DN num contexto diferente do dos outros colegas. Precisamente, porque não gosta de "palco", mas acaba por aceitar..A verdade é que o palco é de todos os que ali estão com ela naquela manhã de quinta-feira para viverem a Semana de Acolhimento aos novos estudantes, no pátio frente ao edifício que ostenta as letras Faculdade de Medicina de Lisboa e que divide paredes-meias com o Instituto de Medicina Molecular Prof. João Lobo Antunes (iMM) e até com o Hospital de Santa Maria..O palco é tanto de Maria como da Carolina, da Beatriz, das Margaridas, dos Duartes, do Rodrigo, da Joana, dos Franciscos e de todos os outros que ingressaram no 1.º ano do Curso de Medicina da Universidade de Lisboa. Eles são a Geração 2023-2024 e foram recebidos durante vários dias e em várias sessões por alunos mais velhos, pelos diretor e vice-diretor da FML, por professores e outros colaboradores de vários departamentos da instituição, nomeadamente do administrativo, e até por figuras públicas, como um ex-ministro da Saúde e também ex-aluno, Adalberto Campos Fernandes..A Semana de Acolhimento é já uma tradição, por ser organizada pelos alunos mais velhos, e cumpre um único objetivo: o de fazer com que os que chegam se sintam "verdadeiramente acolhidos" e "integrados", porque o que aí vem, sobretudo para os que são de fora - já que a FML integra 50% de alunos da Grande Lisboa e 50% de alunos de todo o país -, "não será fácil", alertam à partida..Através destas sessões, onde cada um tem a possibilidade de explicar por que está ali e de colocar as questões que entender, os recém-chegados ficam a conhecer quem têm à sua volta e como funciona a faculdade, mas nestas não faltam também conselhos e alertas que quem já ali está considera importantes..E um dos primeiros conselhos que recebem, até pelas médias que tiveram de alcançar para ali estarem, é que "não têm de ser sempre extraordinários". Ou que "não sejam só estudantes de Medicina, sejam também pessoas interessadas, tentem conhecer quem vos rodeia, porque há uma diversidade tão grande de pessoas que isso só vos ajudará, pois vão ter de fazer isso com os doentes", lança uma das administrativas que lhes dirige as primeiras palavras de boas-vindas..E continua: "Estão habituados a ser os melhores, mas chegam aqui e apanham com um 10 de nota a uma disciplina. É normal. Não se deixem ir abaixo, não se isolem no vosso mundo, existem colegas que passaram pelo mesmo, existem professores, grupos de apoio e funcionários que estão cá para vos ajudar. Procurem-nos.".A administrativa conta que chegou ao serviço administrativo da FML em 2005, depois de ter passado pela licenciatura de Sociologia - alguns riem-se e comentam baixinho: "Ainda não existíamos" - e sabe que o embate das notas é "um choque" para quem sempre esteve no topo das médias, mas que também é um desafio para seguir caminho..O futuro está a começar, com a primeira semana de aulas a decorrer, e todos sabem a reputação que os curso de Medicina tem: "É difícil, duro, exigente, deixas muita coisa para trás", dizem-nos alguns que é o ouvem comentar, mas nada disto parece ter importado, porque "é exatamente isto que queria [m] estudar", assumem. Alguns entraram à primeira, outros tiveram de se candidatar duas ou três vezes, até conseguirem..Este ano, vão ser quase 400 os alunos que iniciam a época 2023/2024, mas só 295 entraram pelo contingente geral, explica o diretor da FML, o médico, professor e investigador João Eurico da Fonseca. "Além do contingente geral recebemos depois mais alunos que já trazem outras licenciaturas e os alunos que vêm através da cooperação com os países de língua portuguesa"..Pouco depois das inscrições o perfil desta geração está traçado: "75% são mulheres e 50% são de fora de Lisboa", mas, "é já o habitual", confirma o diretor. "A FML é uma faculdade nacional, vêm alunos de todo o lado, incluindo Açores e Madeira, apesar de termos um acordo com a Madeira em que os alunos podem fazer lá até ao 3.º ano e depois virem para Lisboa completar o 4.º e o 5.º ano. Só que há muitos que preferem iniciar logo aqui o curso e candidatam-se pelo contingente geral". Aliás, "neste momento, temos 30 alunos a começar o Curso de Medicina na Madeira", sublinha João Eurico da Fonseca..A Faculdade de Medicina de Lisboa é a maior do país, a que recebe todos os alunos, o maior número de alunos, comparativamente com qualquer outra escola médica, o que, muitas vezes, faz com que seja apontada como a instituição que tem a média mais baixa de entrada, mas tal não é assim. O diretor da FML faz mesmo questão de explicar, dizendo que tal associação "não é correta".."Se recebemos mais alunos do que as outras escolas médicas é normal que o último a entrar tenha uma média mais baixa", argumenta, pedindo que se olhe para os números. "Se olharmos para a Universidade do Minho, em que entraram só 122 alunos, o último a entrar teve média de 18,28. No caso da nossa faculdade, se só recebêssemos 122 alunos, a nossa média de entrada seria de 18,42, porque foi esta a média do nosso aluno nessa posição. Só que recebemos muitos mais alunos e, por isso, é que atingimos uma média de entrada mais baixa, o último aluno a entrar teve 17,95.".Mas como confessam os alunos recém-chegados, na maior parte dos casos, a média não importou assim tanto na escolha da faculdade. A decisão foi tomada sobretudo por a FML pertencer a "um polo que integra o maior hospital do país, Santa Maria, e um dos maiores centros biomédicos de investigação - o Instituto de Medicina Molecular (iMM) Prof. João Lobo Antunes, se não mesmo o maior, já que se está a fundir com o Instituto de Ciência da Gulbenkian (ICG)", explicam-nos..Rodrigo, de 17 anos, confessa que essa foi uma das razões que o levou a deixar Braga para vir para a FML, quando ainda "nem sou maior", diz a rir. "Sempre quis estudar Medicina, mas não queria ficar na Universidade do Minho, em Braga, na minha cidade. Até gostava de estudar no Porto, mas ali entram menos alunos, portanto sobravam Lisboa e Coimbra, e escolhi a FML. Está associada ao maior hospital do país, Santa Maria, e ao maior centro de investigação biomédica.".Os outros partilham da mesma opinião, mas muitas outras razões sustentaram a decisão de ingressar na FML. Para Maria S, além de ser de Lisboa, a escolha teve a ver com o facto de considerar "esta faculdade e o Hospital de Santa Maria duas instituições incríveis". Ela, sim, poderia ter escolhido qualquer uma, até as do Porto, que o diretor da FML reconhece que "têm médias mais elevadas, não só por terem menos alunos, mas pela performance excecional das escolas secundárias da região, que são consideradas as melhores do país. Os alunos não só têm as melhores médias de frequência como depois as repetem nos exames"..Este foi o percurso de Maria S., notas elevadas nas frequências e nos exames, desde sempre, mesmo quando ainda não sabia que queria seguir Medicina, porque tudo começou pela sua grande "paixão pela Ciência", contando que "a Medicina apareceu mais tarde, e associada ao espírito de missão da profissão. Mas recentemente tive algumas experiências de voluntariado que talvez tenham sido o elemento catalisador para pensar: 'Ok. Se calhar, o que quero fazer com a minha vida é isto, ter a oportunidade de poder ajudar os outros de uma forma muito direta'." Portanto, "não foi uma decisão tomada assim há tanto tempo. Foi uma decisão que foi solidificando, sobretudo no secundário, porque, obviamente, é uma escolha muito importante para todos.".Para Carolina Contreiras, de 18 anos, de Azeitão, a escolha ainda é mais recente. Como admite, "não foi uma escolha com uma história romântica - gostava que fosse, mas não. Foi mesmo uma escolha quando tinha à minha frente uma listagem de 400 cursos", diz, rindo, embora "sempre tenha olhado para Medicina como algo que me fazia sentido, até pelo lado muito digno que marca o exercício da profissão, que é o estudarmos para sermos úteis aos outros, com grande proximidade e de forma muito concreta"..O ter escolhido a FML foi "algo muito instintivo. Há pouco dizíamos ao professor que foi quase transversal a todos os que aqui estão e teve a ver com o facto de a faculdade estar inserida num campus, com outras faculdades, com um hospital e um centro de investigação"..Ao lado de Carolina, no círculo criado para que todos se olhassem e conhecessem melhor, está Ana Margarida Andrade, de 19 anos, que se sentiu atraída para a FML pela mesma razão. "O facto de a faculdade ser ao lado do hospital e de um centro de investigação dá-nos um acesso quase direto à realidade hospitalar e ao que nos espera, se escolhermos a vertente clínica ou se optarmos pela investigação.".Mas, ao contrário de Carolina, Margarida conta que desde muito cedo teve "tendência para a Medicina", precisamente pela sua vertente do cuidar. "Talvez por a minha mãe estar na área, é enfermeira, talvez por ter um irmão mais novo e estar habituada a cuidar dele", desabafa. O certo é que sentiu que era em Medicina que melhor poderia contribuir "com todas as minhas capacidades para ajudar as outras pessoas". Por isso, "uma parte da minha missão está cumprida"..A outra Margarida, de apelido Teixeira, de Santo Estêvão, no Ribatejo, tem uma das histórias mais peculiares, porque a tendência para a Medicina vem desde os 4 anos, "quando conheci o obstetra da minha mãe. Ia nascer o meu irmão", diz a rir..Tem 20 anos, antes de aqui chegar experimentou um ano em Ciências Farmacêuticas, não gostou e candidatou-se uma segunda vez, não conseguiu. Ficou um ano parada e tirou a carta de condução e, agora, à terceira, "foi de vez". "Era mesmo isto que eu queria desde os 4 anos. Já percebi que Obstetrícia, se calhar, não é o mais indicado para mim, mas quero ficar na área, gosto muito de pediatria"..Margarida tem tudo pensado, desde que olhou para o médico da mãe e pensou: "Quero ser como este senhor", começando depois a olhar para os médicos como "verdadeiros heróis"..Beatriz Góis, também de 19 anos, ri-se quando chega a sua vez. "Ao contrário da Margarida, eu fui daquelas pessoas que sempre disse que queria ser médica e depois comecei a achar que, afinal, não era bem o que queria, porque tinha dois irmãos que estavam a estudar nesta faculdade, um já acabou o curso. Achei que o melhor era experimentar outra coisa e fui para Ciências Biomédicas. Adorei, mas também me fez perceber que Medicina era mesmo o que queria. Voltei a recandidatei-me e este ano estou cá". Quanto à faculdade, "não tive dúvidas. Tenho dois irmãos que passaram por aqui", diz a rir..Para Duarte, de 18 anos e de Lisboa, a escolha da faculdade não teve a ver com irmãos, mas com amigos e outros alunos que lhe falaram da instituição. Quanto à escolha de Medicina, "foi um processo que começou a amadurecer durante o Secundário. Fui percebendo que o que me atraía mais eram as disciplinas para a área da Ciência e comecei a ver-me em Medicina"..A seu lado, está Rodrigo, de Braga, que também tem uma história para contar. A opção pela Medicina começou a surgir quando ainda frequentava o 6.º ano e estava a ser tratado por um médico Fisiatra, "amigo dos meus pais e que também foi do Sport Clube de Braga".."Eu sofria muito dos joelhos. Tive uma doença de crescimento e tive de fazer muitos tratamentos e fisioterapia, mas, apesar de eu ser miúdo e de não ter grandes conhecimentos, o médico falava comigo e abordava a situação de uma maneira que eu entendia e me dava grande tranquilidade. Foi quando comecei a pensar que era aquilo que queria fazer, queria ser médico.".Duarte Domingos vem de Salvaterra de Magos, Santarém, e tem 18 anos. Também conta saber querer ser médico "desde os [seus] 3 ou 4 anos". "Lembro-me de ir aos consultórios e de ficar a ver o que o médico fazia, como tratava e curava as pessoas. Achei sempre tão extraordinário que dizia: "É isto que quero fazer e vou lutar por isso".".Joana Costa, 17 anos, do Barreiro, conta que também nunca colocou outra opção. "A Medicina sempre me fascinou, desde pequenina, e nunca fez sentido outra coisa. Tenho duas primas médicas e comecei a a ter noção do que era o curso e a profissão - soube que era isto que queria fazer". Quanto à FML, diz mesmo: "Tinha de ser aqui, nasci no Hospital de Santa Maria e agora tinha de regressar para compensar.".Francisco, de 17 anos, vem de Glória do Ribatejo, Santarém, fazendo mesmo questão de sublinhar: "É a vila que inspirou a primeira série da Netflix portuguesa." A escolha da faculdade teve a ver com o facto de uma pesquisa prévia feita por si o fazer acreditar que ali havia "um espírito de entre ajuda e de profissionalismo que [lhe] agradou muito". Quanto a Medicina, diz, "desde sempre que senti uma conexão com os outros, apesar de ser um pouco tímido, mas também soube desde sempre que não gostaria de passar a minha vida num trabalho com máquinas, eliminei logo as engenharias". Ficou a Medicina, através da qual espera "mudar algo no mundo, aproveitando as minhas capacidades para isso"..Todos trazem muitas expectativas. Maria S. diz mesmo esperar que seja como lhe têm dito: "Que os anos de faculdade são dos melhores da nossa vida." Por isso, quer aproveitar todas as experiências a nível académico.."Além das aulas e de tudo o que a faculdade nos oferece, aproveitar a oportunidade de conhecer pessoas espetaculares. Medicina tem reputação de ser um percurso duro e difícil, mas isso só o torna mais especial.".Um percurso que, quer queiram, quer não, "já começou" e, para alguns, já tem nota positiva "com o acolhimento que nos têm feito". Quando questionamos se pensam na situação atual do Serviço Nacional de Saúde (SNS), alguns riem-se, mostrando que a sua motivação supera tudo e que o futuro, que agora começa, ainda falta para chegar..A todos, Ana Raquel e Duarte Graça, respetivamente alunos do 5.º ano e do 6.º, atual presidente da Associação de Alunos da FML, e ex-presidente, pedem que "se interessem", que "se envolvam", pois "é através do envolvimento que conseguimos fazer com que as coisas mudem e que os nossos sonhos se concretizem, porque esta é a faculdade que dá muito espaço aos alunos para participarem e decidirem", sublinha Raquel..Duarte aconselha: "Aproveitem ao máximo desde o primeiro momento. Eu estou no final de um ciclo e penso, cada vez mais, que deixei escapar algumas coisas, mas se quem entra agora estiver atento desde o primeiro momento, estão na escola certa para formar grupos de amigos e até para outras experiências". Ali, Duarte, que só conseguiu entrar no curso de Medicina à terceira, diz que ganhou "caráter". "A forma como vou ser médico foi, sem dúvida, moldada aqui.".em números Estudantes. Este ano, as seis faculdades de Medicina do país receberam, na totalidade, 1233 alunos pelo contingente geral, através dos exames do 12.º ano. A Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa foi a que abriu mais vagas, 295, depois seguiu-se a faculdade da Universidade do Porto, 282 vagas, seguida da faculdade da Universidade Nova de Lisboa, que integrou 233 alunos. O Instituto Abel Salazar, da Universidade do Porto, integrou 155 alunos, a Universidade da Beira Interior 145 e Universidade do Minho 122. Mas, no final, todas estas faculdades acabam por receber mais alunos, devido aos contingentes para os alunos já com outras licenciaturas e até para os que chegam ao brigo da cooperação com Países de Língua Oficial Portuguesa..Médias. As médias de entrada mais elevadas foram registadas nas universidades do Porto. O Instituto Abel Salazar ocupa o segundo lugar de média mais elevada de todos os cursos, com 186,8, a seguir à Engenharia Aeroespacial. Depois vem a Faculdade de Medicina do Porto com 183,5, a Universidade do Minho com 182,8, a Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, com 180,2, a Faculdade de Medicina de Lisboa com 179,5 e a Universidade da Beira com 177,8..Ensino Superior. Na época 2023/2024 entraram no Ensino Superior quase 50 mil alunos (49 438), sendo que concorreram à primeira fase de acesso 59 364 alunos, para 54 311 vagas disponíveis em quase mil cursos. Segundo o Ministério da Ciência e do Ensino Superior, mais 275 vagas do que as que foram anunciadas inicialmente e mais 671 do que no ano de 2022. Do total dos alunos que entraram, 87% entrou na sua primeira opção.