Don Juan não passou por aqui

O filme<em> Don Juan</em>, de Serge Bozon, é sobre isso mesmo: a personagem e um ator que o interpreta em palco. O objetivo é reencontrar o espírito de um certo cinema musical... mas a evocação "teórica" não basta para salvar o projeto.
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O enfraquecimento dos valores tradicionais da cinefilia, banalizando o culto pedagógico da memória, tem vindo a gerar filmes que se comprazem em inventariar referências (cinematográficas ou não) como quem coleciona cartas de trunfo para disfarçar as limitações do seu jogo. Assim é Don Juan, de Serge Bozon, um daqueles empreendimentos "de prestígio" que parece querer dar razão ao cliché segundo o qual a produção francesa não passa de uma coleção de pretensiosismos disfarçados de grande proeza cultural...

Apesar disso, ou precisamente por causa disso, Don Juan é um objeto que começa por nos envolver através de uma curiosa ambiguidade dramática, plena de ironia. De que se trata, então? Das aventuras e desventuras de um ator de teatro, Laurent (Tahar Rahim), rejeitado pela noiva (Virginie Efira) no dia do casamento. Ele está, justamente, a trabalhar numa encenação de Don Juan, começando a sentir os efeitos de uma bizarra alucinação: todas as mulheres com quem se cruza têm o rosto da noiva (sendo, assim, todas interpretadas por Efira).

Para nos ficarmos pelo legado de um autor francês, dir-se-ia que estamos perante um conto moral, à maneira de François Truffaut, além do mais aproximando os enigmas da vida e os artifícios do palco - o que pode justificar também a evocação de Jean Renoir, a começar por esse hiper-clássico que é A Regra do Jogo (1939). O certo é que Bozon parece privilegiar outra inspiração: a certa altura, quando Tahar Rahim começa, não a dizer, mas a cantar os seus problemas, compreendemos que este Don Juan tem como referência primordial o cinema musical de Jacques Demy e, em particular, o tom romanesco de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (1964).

É sempre interessante evocar, ou invocar, os mestres. Em qualquer caso, Bozon parece não compreender a (falta de) lógica da sua homenagem. Assim, no cinema de Demy (lembremos também esse filme sublime que é As Donzelas de Rochefort, lançado em 1967) a música não é uma "variação" formal da narrativa, antes criando um corpo orgânico com todos os outros materiais do filme - no limite, e de forma sugestiva, pode dizer-se que a música é a matriz interior da própria narrativa. Ora, que faz Bozon? Trata os momentos musicais como uma espécie de suplemento "experimental", supostamente capaz de transformar o seu filme numa celebração "teórica" da herança plural da personagem de Don Juan.

O resultado é tanto mais desconexo quanto, apesar do seu esforço, Tahar Rahim parece não estar à vontade com essa "passagem" da fala para o canto. Pior um pouco, a demanda existencial que seria o motor do comportamento do próprio Laurent vai-se dissipando num lirismo pesado e "demonstrativo", afinal pouco interessado nos poderes específicos das imagens e dos sons que fazem o cinema. O resultado acaba por esvaziar a própria referência de Don Juan, apenas restando a elegância algo postiça de um cinema a que, como se prova, não falta um saber mais ou menos "universitário" - é o suficiente para celebrar o gosto cinéfilo, mas não basta para sustentar um filme.

dnot@dn.pt

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