O verão de 2019 trouxe com ele uma novidade para os irmãos Angelina e Arcadi Ycenko: Alice, de seis meses, uma "boneca" de verdade com quem os dois adoram brincar. Estava à espera deles na aldeia de Chãos, Alcobertas, no coração do Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros (PNSAC), uma das moradas do programa Verão Azul, que há 11 anos traz a Portugal várias crianças de Chernobyl..Esta é a sexta vez que os dois irmãos deixam Ivankiv, uma vila a 50 km de Chernobyl, no norte da Ucrânia, para se juntarem à família portuguesa que os acolhe, em cada verão. Aos 15 anos, Angelina treina com a pequena Alice as brincadeiras que quer fazer quando for grande, e concretizar o sonho de ser educadora de infância. Já o irmão, Arcadi, prefere (per)correr a aldeia de bicicleta: tem ali muitos amigos, que foi fazendo nos últimos seis verões..Os dois irmãos chegaram a Portugal a 14 de julho, integrados numa comitiva de 29 crianças, distribuídas por famílias de acolhimento em diversas regiões do país. É no norte (especialmente nos distritos de Aveiro e Porto) que se concentra a maioria, mas há também famílias de Lisboa, Peniche, Fundão, Sobreda, Esposende, entre outras. Os irmãos Ycenko ficam naquela pequena aldeia de Rio Maior desde há seis anos. Cidália Santos soube deste programa patrocinado pela Liberty Seguros através de uma notícia de jornal. "Estava numa fase da vida em que já tinha os meus dois filhos criados e pensei que era um bom projeto para toda a família", conta ao DN, enquanto segura ao colo a neta Alice, numa manhã de julho em que a serra dos Candeeiros se apresenta envolta em nevoeiro e o vento não convida a passeios na rua. É uma exceção, como haveremos de perceber ao longo da conversa. A filha, Cláudia, militar da Marinha Portuguesa, goza ainda a licença parental. E por isso neste verão é ainda mais azul no café-restaurante Safari, um negócio de família que faz girar a economia da pequena aldeia de Chãos. Vai afagando o cabelo de Angelina enquanto conta ao DN que os dois miúdos "são como uns irmãos mais novos". Aliás, foi ela quem deu seguimento à intenção da mãe, quando lá em casa se colocou a hipótese de a família aderir ao programa..Angelina tinha 10 anos, Arcadi apenas 7. Cidália Santos e Adelino Rodrigues guardam a primeira fotografia com os dois, muito pequenos, um tanto assustados com tudo. "Ela foi sempre mais fácil. Integrou-se bem desde o início, ele nem tanto", recorda a mãe Cidália, que desde o primeiro verão faz todos os esforços para que as crianças tenham, em Portugal, umas férias como nunca teriam no país de origem. "Já os levámos a todo o lado: ao Jardim Zoológico, ao Portugal dos Pequenitos, ao Badoca Park. Todos os anos os levamos uma semana ao Algarve e, além disso, às praias aqui da zona." Falamos de São Martinho do Porto ou da Nazaré, que ficam a meia hora de caminho..A família Santos não se poupa a esforços para que o verão seja mesmo azul, para lá do verde que os circunda, no PNSAC. Desde o início que lhes foi explicado o objetivo desta iniciativa: interromper o ciclo de radioatividade a que estas crianças estão sujeitas diariamente, durante todo o ano, proporcionando-lhes umas férias num ambiente mais saudável, "melhorando a sua qualidade de vida e abrindo perspetivas para uma vida melhor, de preferência longe do local onde ocorreu o pior desastre nuclear a que o mundo assistiu, há 33 anos, e onde a radioatividade é ainda uma ameaça e continuará a contabilizar vítimas nas próximas décadas"..Arcadi (mais do que a irmã) é uma das crianças com baixas defesas. "Vem quase sempre doente", conta Cláudia, que vai acompanhando à distância a vida de ambos. "Mas quando chega aqui fica logo bom." Tem à sua espera a bicicleta e os amigos, e até um torneio de futsal em que já participou. "Eles dizem que só este ar que aqui respiram cura qualquer coisa", acrescenta Cidália, que logo no segundo ano em que os recebeu teve de lidar com uma provação maior: um cancro da mama obrigou-a a tratamentos de quimioterapia que lhe fizeram cair o cabelo, o que suscitava estranheza aos miúdos. Como em qualquer família, todos aprenderam a lidar com aquela adversidade. De resto, os irmãos Ycenko estão habituados a lidar com a doença, de um modo geral. A mãe - afetada pelo acidente nuclear de Chernobyl, naquele 25 de abril de 1986 - é doente renal. Todos os anos manda uma carta à família portuguesa que lhe acolhe os filhos, agradecendo, sobretudo. Quando regressam, os dois irmãos levam a mala recheada de roupas e outros bens..A maioria das histórias são felizes, pelo menos em Portugal. Porém, a primeira experiência de Angelina não foi muito positiva. Tinha apenas 6 anos quando embarcou num projeto destes, mas para uma família em França. A "mãe" de acolhimento "devolveu-a passado pouco tempo", conta a família de Chãos, que percebe na adolescente o trauma, até hoje. "É verdade que não são crianças fáceis. Mas nós aprendemos a gostar delas assim e a aceitar os seus feitios", sublinha Cidália..Viver entre a doença e a pobreza.Em Ivankiv, a maioria da população vive em situação de pobreza. Paulo Pires, responsável pelo projeto, já visitou a região diversas vezes. De resto, ele próprio recebeu crianças logo nos primeiros anos da iniciativa, num trabalho de voluntariado que foi contagiando muitos trabalhadores da Liberty Seguros. "Há 11 anos que abraçamos esta iniciativa e é muito gratificante saber que todos os anos eles querem regressar. É esse o sucesso deste programa, que ano após ano tem contribuído para a melhoria da qualidade de vida destas crianças e jovens e proporcionado uma experiência inesquecível para as famílias que as acolhem.".De cada vez que regressa à vila ucraniana fica com mais certezas da importância que estas cinco semanas assumem na vida de todos. A maioria das famílias destas crianças vive com parcos recursos, uma taxa de alcoolismo acentuada, problemas de saúde que incluem um número elevado de cancros na tiroide, entre outros..Cidália Santos já pensou ir lá, ver de perto como vivem os [seus] meninos. Outras famílias portuguesas já o fizeram, sobretudo depois de terminar o programa. "Porque os laços nunca mais se quebram", conta Paulo Pires. "Agora tenho mais duas filhas, só que vivem lá", enfatiza..O programa destina-se a crianças entre os 6 e os 16 anos. À medida que vão crescendo, muitas manifestam o desejo de se mudar para Portugal, para estudar e trabalhar. É o caso de Angelina. A família Santos não enjeita a possibilidade de a acolher, mesmo depois de terminar o programa. "Se ela quiser, nós cá estaremos." Até 18 de agosto, ainda têm tempo para construir muitas memórias. Para já, é tempo de fazerem as malas e viajar para o sul. Desta vez os irmãos vão conhecer Monte Gordo em vez da Quarteira, que já lhes é familiar. Esperam-nos dias de mergulhos, brincadeiras na praia e mimos, à boa maneira do Verão Azul.