Do Taj ao Raj 1682-1750

<em>História da Índia - Das primeiras civilizações ao desenvolvimento no século XXI</em>, de John Keay, chega em versão portuguesa às livrarias a 20 de novembro, mas o DN prépublica aqui o capítulo 15, intitulado "Do Taj ao Raj 1682-1750", que fala da transição de poder dos imperadores mogóis para os colonizadores britânicos. Este livro publicado pela BookBuilders é a edição revista atualizada pelo historiador britânico em 2022.
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«EMBUSTE E TRUQUES»

Com excepção de um desenvolvimento decisivo, o Decão ao qual Auranguezebe regressou, em 1682, era pouco diferente do Decão que ele tinha deixado, em 1658. No Norte, a província mogol do Decão estendia-se pela parte superior da península como uma cinta. Englobava o ex-sultanato de Amadnagar e os territórios orientais de Candexe e Berar, e era administrada a partir de Burampur, em Candexe. Na parte ocidental da província, a cidade de Aurangabade - perto da fortaleza seuna de Devaguiri (Daulatabade) e da cidade de grutas rastracuta de Elorá - também era um centro importante do poder mogol e estava prestes a ultrapassar Burampur; tinha sido a capital do sultanato de Amadnagar no reinado de Melique Ambar, o «cara preta», mas fora rebaptizada Aurangabade quando Auranguezebe fora governador da província.

No litoral, os europeus chegavam e partiam. Os Portugueses, a partir de Baçaim, haviam adquirido um conjunto de ilhas adjacentes que ofereciam bom abrigo para os seus navios. No meio do coqueiral de uma das ilhas, construíram um pequeno forte. Chamaram-lhe «Boa Baía», ou Bombaim. Na década de 60 do século xvii, depois da conclusão de uma aliança anglo-portuguesa para combater os Holandeses, o forte foi transferido para Carlos II como parte do dote da sua noiva portuguesa, Catarina de Bragança. Bombaim (hoje Mumbai) não tinha valor comercial, mas os Ingleses adquiriram uma pequena presença territorial adjacente às concorridas rotas de navegação da costa ocidental.

No Sul, na mesma década, os Portugueses permaneceram na posse de Goa, mas perderam Cochim, um entreposto importante para o comércio das especiarias, para os Holandeses. A norte de Bombaim, o porto mogol de Surate, que estava a ultrapassar Cambaia, entretanto sedimentado com lama, como principal saída para o mar do Norte da Índia, albergava as feitorias holandesa e inglesa mais atarefadas. A partir de Surate, os compradores europeus rumavam às cidades e centros de tecelagem do Guzerate e não só para fazerem encomendas e supervisionarem o seu envio. E de Amadabade, Burampur, Baroche e Baroda chegavam a Surate os fardos de algodões e sedas e os barris de índigo (muito procurado para tingir uniformes), que eram as principais exportações.

No outro lado da península, as três potências europeias e os recém-chegados Franceses tinham presença em pontos similares nas costas do Coromandel e de Andra. Também aqui os têxteis eram os principais produtos comerciados, mas os tecelões tendiam a gravitar para as povoações europeias, cuja prosperidade passou a depender das exportações. Nenhuma destas povoações tinha muita importância política, mas a segurança oferecida pela sua artilharia pesada e pelos seus fortes bem construídos era um atractivo. Além disso, a sua pólvora e os seus canhões e artilheiros eram muito procuradas pelas potências beligerantes do interior.

Mas a única mudança ocorrida no Decão durante os vinte e quatro anos de ausência de Auranguezebe foi decisiva. Na primeira metade do século xvii, tinha havido duas grandes potências na península, os sultanatos de Golconda e Bijapur, mas agora havia três: os Maratas tinham entrado em cena. Depois de estabelecerem as suas credenciais militares ao serviço de terceiros e de seguida, sob a liderança inspiradora de Xivaji, terem criado uma pátria independente nos Gates Ocidentais, tinham-na transformado num Estado, com Xivaji como rei.

Este ressurgimento da monarquia hindu, numa altura de supremacia muçulmana impressionante e marcadamente ortodoxa, foi inesperado e extremamente impressionante. Os feitos extraordinários de Xivaji, além de causarem sensação na época, transcenderam o seu contexto imediato e ofuscaram os seus sucessores, consolaram o orgulho hindu nos anos da supremacia britânica e ofereceram aos nacionalistas indianos um exemplo inspirado de rebelião indígena contra o domínio estrangeiro. E ultimamente, também têm servido para encorajar os extremistas hindus na convicção de que o valor marcial faz tanto parte da sua tradição como a não violência.

O feito mais celebrado de Xivaji ocorreu em 1659. Nas palavras de Caficão, um cronista não oficial do reinado de Auranguezebe, enquanto o imperador estava no Norte a «repelir os crocodilos do oceano da dignidade» (ou seja, os seus irmãos), Xivaji «ganhou dignidade e recursos». Nos anos anteriores, Xivaji tinha capturado uns quarenta fortes nos Gates Ocidentais e na Costa do Concão adjacente. Mas depois de «ter erguido o estandarte da revolta abertamente e sem medo», quando foi desafiado, revelou a sua verdadeira natureza: «recorreu ao embuste e aos truques». Afezalcão, o melhor general de Bijapur, foi enviado para desentocar «o patife manhoso» e encurralou-o no forte de montanha de Pratabegar (perto de Maabalexevar). O exército bijapuri carecia de meios para tomar uma posição tão forte, e os Maratas não tinham hipótese nenhuma de o repelir. Por conseguinte, o impasse foi resolvido à maneira antiga, com negociações. Xivaji comprometeu-se a reconhecer simbolicamente a suserania de Bijapur, e Afzal comprometeu-se a deixar Xivaji na posse dos fortes. Restava apenas a submissão pessoal de Xivaji.

Os dois homens encontraram-se numa clareira no sopé do monte Pratabegar. Tinham supostamente dispensado os servos e as armas, mas «apresentaram-se ambos armados»(280). O arsenal dissimulado de Xivaji incluía uma pequena arma de ferro com quatro garras curvas compridas e afiadas como navalhas.

Quando o experiente e perfeito traidor se aproximou de Afezalcão, prostrou-se aos seus pés, em lágrimas. Quando ele [Afezalcão] tentou erguer-lhe a cabeça e, por simpatia, lhe pôs a mão nas costas para o abraçar, Xivaji, com uma destreza perfeita, espetou-lhe a arma dissimulada no abdómen e ele nem teve tempo de suspirar, e matou-o.(281)

Xivaji fez sinal aos seus homens, que estavam escondidos nos arbustos. Apanharam os Bijapuris de surpresa e «destruíram o acampamento do desgraçado Afezalcão», capturaram as provisões, o tesouro, os cavalos e os elefantes, e recrutaram muitos dos seus homens. «E assim, Xivaji ganhou muito mais dignidade e força do que antes.»

Dado que alguns dos soldados bijapuris eram maratas e alguns dos de Xivaji eram muçulmanos, é evidente que aquilo que o tradutor de Caficão traduz por «dignidade» - ou talvez «prestígio» - era mais importante do que o credo. O tradutor, que era muçulmano, chama ao episódio «um dos assassinatos mais famigerados da história do subcontinente»; mas segundo parece, para os contemporâneos e para a maior parte dos historiadores hindus, foi tanto uma prova do engenho genial de Xivaji como da sua «torpeza intriguista». A lealdade dos seus parentes e correligionários era vital, mas também era a dos diversos dissidentes e aventureiros que o passaram a reconhecer como um líder de coragem indómita e fortuna assegurada. Xivaji, diz Caficão, «fez questão de (...) não profanar mesquitas nem o Livro de Alá, nem de se apoderar das mulheres»(282). Tanto os muçulmanos como os hindus podiam servi-lo sem problemas.

Xivaji comemorou a vitória sobre Afezalcão apoderando-se de uma parte maior da Costa do Concão, entre Bombaim e Goa. Reuniu uma pequena marinha e começou a fortificar as angras e estuários para servirem de bases. Xivaji também se apoderou do monte com pinhais de Panala, que era mais um maciço muralhado do que um forte, a norte de Colapur. Xivaji foi apanhado por um novo exército bijapuri em Panala mas, noutra célebre proeza, escapuliu-se a coberto da noite com alguns seguidores de confiança.

Em 1660, Auranguezebe acabou de lidar com os «crocodilos» e enviou para o Decão um grande exército comandado por Xaistacão, irmão de Mumetaze Mahal, a amada de Xá Jaão. A missão de Xaistacão era garantir a posse dos territórios cedidos ao império por Bijapur, em 1657, que incluíam os Gates, a pátria marata. Por conseguinte, Xivaji viu-se confrontado com um inimigo muito mais formidável e que ele tinha ainda menos hipóteses de derrotar. O exército mogol foi incessantemente atacado e cada forte custou muito em sangue mogol; no entanto, Pune, a capital de Xivaji, caiu, e os bastiões maratas sucumbiram um a um. Em 1663, Xivaji viu-se perante a derrota. Impunha-se nova proeza.

Xaistacão instalou-se em Pune. Os Maratas não estavam autorizados a entrar na cidade e a casa estava fortemente guardada. No entanto, foi dada uma autorização especial para um casamento na cidade, e no mesmo dia um grupo desconsolado de maratas chegou como prisioneiros. A meio da noite, o noivo, os convidados, os prisioneiros e os guardas reuniram-se, desfizeram-se dos disfarces, pegaram nas armas e rastejaram até ao complexo da casa de Xaistacão. Entraram por uma janela da cozinha e depois abriram um buraco numa parede para chegarem aos quartos: «puseram toda a gente que estava acordada a dormir o sono da morte, e todos os que estavam a dormir foram mortos na cama.» Xaistacão teve sorte. Ficou sem um polegar e perdeu os sentidos, mas «as suas criadas levaram-no para um lugar seguro». Segundo Caficão, cujo pai estava destacado em Pune, os Maratas mataram outro homem julgando que se tratava do comandante mogol. O filho de Xaistacão e uma das suas mulheres também foram mortos. Não houve pilhagem: os atacantes retiraram tão subitamente como tinham aparecido. Xivaji não estava com eles, mas terá organizado a operação e é provável que tenha garantido a cumplicidade de um general mogol.

A este episódio, que foi um golpe devastador para o orgulho mogol, seguiu-se um muito grave para as finanças mogóis. Em 1664, Xivaji saiu das montanhas, entrou no Norte do Guzerate e conquistou o grande porto de Surate, que foi saqueado pelos Maratas durante quarenta dias. Só a bem defendida feitoria inglesa foi poupada. Mas de forma ainda mais humilhante, a «dignidade» de Xivaji estava a eclipsar a do império.

Um exército mogol rumou ao Decão comandado pelo grande Jai Singue, o vencedor do príncipe Xuja. Os territórios maratas foram novamente devastados: Jai Singue conquistou forte atrás de forte e alistou os seus defensores desesperados. Em 1665, Xivaji foi encurralado perto de Purandar e pediu para negociar. As negociações foram prolongadas e complexas. No fim, «com os brincos da submissão nas orelhas e o manto da devoção no corpo», Xivaji aceitou ceder vinte fortes, pagar uma indemnização considerável, que as suas terras fossem avaliadas para serviço militar mogol, e a entrada do filho para a hierarquia militar mogol. E depois fez a sua submissão pessoal a Jai Singue no meio de medidas de segurança compreensivelmente rigorosas.

Mas o tratado de Purandar não foi uma capitulação(283). Xivaji manteve a posse de doze fortes e do seu desfalcado exército, que se compunha essencialmente de cavalaria e podia movimentar-se com rapidez e viver do terreno, logo, era muito mais esquivo e podia cobrir muito mais território do que a pesada cavalaria mogol. De facto, o tratado destinou-se tanto a garantir a colaboração dos Maratas com as forças mogóis numa ofensiva contra Bijapur como a neutralizar Xivaji. Um ano depois, em 1666, o receio de deserções maratas durante a ofensiva contra Bijapur levou os Mogóis a exigirem que Xivaji viajasse para norte, para Agra, para se apresentar pessoalmente ao imperador. Não correu bem. À custa de Auranguezebe, Xivaji montou um desfile impressionante de elefantes, palanquins de prata e uma comitiva deslumbrantemente trajada, mas à chegada o imperador mal lhe deu atenção. Xivaji ficou detido, no meio de rumores de morte ou exílio, numa situação que era pouco melhor do que prisão domiciliária. Fiel a si próprio, o humilhado marata escapou, mas mais provavelmente com a ajuda de um suborno do que escondido num cesto de confeitaria, como reza o mito popular. Recorrendo a atalhos e a florestas, Xivaji regressou a Maarastra sem ser detectado. «Foi a proeza mais sensacional de todos os seus feitos maravilhosos», opina um historiador que não é imparcial, «e conferiu para sempre um brilho sobrenatural à sua personalidade singular».

A proeza ecoou de imediato por todo o país, tornando Xivaji uma figura pan-indiana e divinamente dotada de poderes extraordinários. Ao mesmo tempo, o incidente expôs a manha do imperador, aumentando a sua má reputação de manhoso e cruel. A reputação de Xivaji atingiu o apogeu: ele tinha levado a melhor sobre o imperador mais inteligente e mais poderoso.(284)

Seguiu-se uma pausa de três anos, após o que a exigência mogol do reembolso das despesas de Xivaji em Agra levou o líder marata a lançar uma nova ofensiva. Vários fortes vitais foram reconquistados, o porto de Surate foi saqueado pela segunda vez, em 1670, e as forças maratas internaram-se profundamente nos distritos de Candexe e Berar, no Decão mogol. Pune foi libertada, bem como Panala e uma grande parte da Costa do Concão. E em 1674, como que para coroar todos estes feitos, Xivaji proclamou-se rei.

A assunção da monarquia foi menos para edificação dos Mogóis do que por motivos internos. Xivaji, pensando no futuro, procurou legitimar os direitos à precedência, às receitas e ao serviço dos seus pares maratas, que tinham dependido em muito da força das armas e do seu ascendente pessoal. Também foi criado um aparelho de governação básico e as finanças do reino foram reorganizadas. A «coroação» (não se usou nenhuma coroa) apresentou o tipo de problemas que os antigos candidatos dinásticos terão enfrentado. Os Maratas não tinham recebido o estatuto de xátrias e teve de ser inventada uma genealogia que ligou os antecessores bonsles de Xivaji aos ilustres Rajaputros sissódias de Mevar. Para tal, era necessário um brâmane de grande reputação que aprovasse o esquema, presidisse à penitência de Xivaji por não ter vivido como xátria, e conduzisse os rituais de consagração. O homem foi descoberto em Varánassi e levado em triunfo para Maarastra, mas o ritual, há tanto tempo suspenso, teve de ser laboriosamente deduzido de textos antigos e adaptado às circunstâncias correntes. Incluiu muitas unções com diversos líquidos e, obviamente, donativos generosos aos brâmanes. Além disso, foi proclamada uma nova era e criado um novo calendário. O sacrifício do cavalo não foi realizado, mas para completar a cerimónia tradicional, Xivaji partiu num circuito de conquistas simbólico que incluiu um ataque a um acampamento mogol e incursões em Candexe e Berar.

Xivaji, transformado num soberano independente e sem enfrentar ameaças das forças mogóis, virou-se para o sul e, aliado ao sultanato de Golconda, atacou as distantes possessões de Bijapur no Sul de Tâmil Nadu. A campanha, que foi a sua última, foi realizada quase por inteiro pelas forças maratas e resultou na formação de um núcleo militar marata centrado nos fortes capturados de Velor e Ginja (sudoeste de Chenai). Quando Xivaji morreu, em 1680, com a sua «dignidade» minada pela disenteria, deixou um reino marata muito extenso, mas indefinido. Os seus territórios não eram contíguos e os seus súbditos ainda estavam habituados à fidelidade pessoal ao seu líder notável.

As divisões entre os líderes maratas foram exacerbadas pela disputa da sucessão, mas em 1681, Sambaji, um dos dois filhos de Xivaji que disputavam o trono, conseguiu vantagem, foi coroado e retomou as políticas expansionistas de seu pai. Quando o príncipe Acbar, o filho rebelde de Auranguezebe, fracassou nas suas intrigas com os Rajaputros, refugiou-se na corte de Sambaji. Em 1682, o imperador, decidido a anular a possibilidade de uma aliança entre Rajaputros e Maratas em torno do príncipe e a retomar o seu longo envolvimento com os sultanatos do Decão, deslocou-se para sul com a corte, a administração e cerca de 180 000 soldados.

OS ÚLTIMOS ANOS DE AURANGUEZEBE

A combinação da resistência marata e rajaputra que o príncipe Acbar contava montar contra o pai não se materializou. Sambaji, com o Norte dos territórios maratas invadido pelos Mogóis, optou por ignorar as súplicas do príncipe para lançar uma ofensiva pan-indiana, e concentrar-se nos seus vizinhos costeiros, o que incluiu uma guerra de pequenas dimensões, mas renhida, com os Portugueses de Goa. Em 1687, o príncipe Acbar, desesperado, embarcou para a Pérsia; tal como Humaium, tinha a esperança de interessar o xá nos seus desígnios, mas ficou desiludido.

Os exércitos de Auranguezebe somaram vitórias atrás de vitórias, mas nenhuma foi decisiva. «A estratégia mogol para Maarastra não foi subtil, foi meticulosa.»(285) As terras maratas foram devastadas e os nobres feudais maratas foram atemorizados e depois incorporados na hierarquia civil e militar imperial. Mas os fortes raramente valiam o esforço enorme da conquista e os principais contingentes inimigos eram demasiado astutos paras se deixarem arrastar para batalhas. Começou a ficar patente que a conquista do reino marata exigiria empenhar mais recursos imperiais do que Auranguezebe previra(286).

O imperador, desesperado por uma vitória mais tangível, atacou Bijapur. Em 1684, o sultanato foi invadido por um exército de 80 000 homens. O sultanato foi mais «inundado» do que propriamente derrotado: a cidade e o sultão capitularam depois de um cerco que durou mais de um ano. O sultanato tornou-se uma província mogol, a alta aristocracia foi cooptada para a hierarquia mogol e o sultão tornou-se prisioneiro de Estado no acampamento imperial. Pouco depois, juntou-se-lhe o seu homólogo de Golconda. O sultanato de Golconda foi invadido e ocupado em 1685, e dois anos depois, a grande praça-forte de Golconda e o próprio sultanato foram conquistados. O sultanato também foi incorporado no império.

Auranguezebe disse que os sultanatos tinham merecido o seu destino por terem auxiliado os infiéis maratas. Em Haiderabade, em especial, a vingança dos justos foi doce: apropriaram-se de riquezas imensas, profanaram templos, mataram brâmanes e aplicaram a jízia aos hindus de todas as castas. No entanto, verificou-se muita inquietação, mesmo entre os ulemás, pelo tratamento arrogante dado pelo imperador a Estados islâmicos tão antigos. Os seus súbditos não muçulmanos, em especial os membros das aristocracias guerreiras, subordinados aos seus ex-naiaques de Vijaianagar, nunca se resignariam com o domínio mogol, e os nobres «decanis», apesar de muitos serem de origem persa e xiitas, que foram incorporados no regime mogol como emires, mantiveram um forte sentimento de identidade regional e cultural. No seio da hierarquia militar mogol, constituíram uma clique influente que era olhada com desconfiança pelos emires «hindustanis» do Norte.

A missão de Auranguezebe no Sul atingiu o seu apogeu de glória em 1688, quando Sambaji, o sucessor de Xivaji, e o seu primeiro-ministro brâmane foram capturados numa emboscada. No acampamento imperial, Sambaji insultou o imperador e o Profeta: foi torturado e desmembrado, num processo que simbolizou o destino reservado por Auranguezebe para o reino marata.

Rajarão, irmão e ex-rival de Sambaji, assumiu o manto de Xivaji mas foi sitiado no forte de Raigar. No entanto, conseguiu escapar e rumou às possessões maratas em Tâmil Nadu, no Sul. Rajarão instalou-se nas montanhas de Ginja, mas foi sitiado por outro exército mogol. O cerco durou oito anos (1689-1697), a maior parte do reinado de Rajarão. Por vezes, forças maratas provenientes de outros lugares pressionaram os Mogóis e cortaram-lhes os abastecimentos, e os sitiantes tornaram-se os sitiados; noutras alturas, o impasse decorreu de um conluio entre os adversários. Quando o forte caiu, os Mogóis deixaram fugir Rajarão e a maior parte dos seus homens.

Auranguezebe nunca se deslocou a Ginja, mas não foi a prolongada resistência de Rajarão que levou o imperador a permanecer no Decão. A grande dificuldade residiu na intransigência dos grupos de maratas dos Gates Ocidentais. O imperador, já com oitenta e muitos anos de idade, continuou a comandar os seus exércitos desgastados numa campanha dispendiosa e cada vez mais fútil de conquista de fortes. Auranguezebe considerou a campanha uma jiade e, além de praticar actos de devoção como a transcrição do Alcorão e a confecção de taqiyah [barretes] para os fiéis, entendeu que a forma apropriada de terminar a sua vida seria uma deslocação a outro bastião da idolatria.

Mas a concentração obsessiva de Auranguezebe na oposição de Maarastra não foi boa para o império, e no que toca aos Maratas foi irremediavelmente contraproducente. Um dos factores foi o terreno. Seria difícil imaginar algo menos adequado para a máquina militar mogol do que as montanhas dos Gates. Escarpas perpendiculares orientadas de norte para sul abrigam um terreno caótico de ravinas arborizadas e colinas estéreis onde cada monte é uma fortaleza natural e cada vale uma armadilha mortal em potência. Entre a linha de costa do Concão, composta de rocha, e a tundra seca do interior do Decão, são centenas de quilómetros de terreno irregular. A artilharia e a cavalaria pesada dos Mogóis eram mais uma desvantagem do que um activo.

Os fortes raramente eram tomados de assalto. As guarnições aceitavam as melhores condições oferecidas, esperavam que o circo mogol se fosse embora e depois renegavam as suas promessas e reocupavam as suas terras e os fortes. De facto, Auranguezebe estava perante um novo tipo de insurreição, em parte criação sua. Com Sambaji morto e Rajarão encurralado, cada chefe marata passou a operar de modo independente. O Estado deixou de ser susceptível ao desmembramento sistemático infligido a Sambaji. O exército de Auranguezebe mostrou a sua impotência e, ao devastar as terras maratas, obrigou aqueles que delas dependiam para o seu sustento a pegarem em armas e a redobrarem os seus ataques.

Em 1700, Satara, para onde Xivaji transferira a capital marata, foi sitiada pelos Mogóis e capitulou. Na mesma altura, Rajarão morreu. A viúva principal, Tarabai, assumiu o controlo em nome do filho, Sambaji II, e ofereceu a Auranguezebe condições que deveriam ter posto fim à guerra. Todavia, apesar de o cerco de Satara ter custado milhares de vidas - só numa operação de sapa mal planeada, perderam a vida 2000 soldados mogóis -, o imperador rejeitou a proposta. No mesmo ano, os Maratas atravessaram pela primeira vez o rio Narmada, o Rubicão tradicional entre o Decão e o Norte; Malva ficou à distância de um ataque marata. Dois anos depois, os Maratas viraram-se para leste e lançaram uma expedição de 50 000 homens contra Haiderabade e saquearam a grande cidade, que ainda era uma das mais ricas da península. Foi novamente pilhada em 1704, bem como Masulipatão, o seu porto no Golfo de Bengala. Os Maratas alargaram as suas operações a quase toda a península.

Entretanto, a regente Tarabai foi introduzindo sub-repticiamente uma espécie de administração paralela na província mogol do Decão. Foi uma nova táctica, baseada no direito marata a 25 % das receitas cobradas no Decão, acrescidos de 10 % para o soberano hereditário marata. O pagamento garantia supostamente protecção, em especial dos cobradores mogóis, e justificou a existência de uma hierarquia-sombra de governadores e vice-governadores maratas que operavam a partir das suas bases fortificadas em território mogol e que aplicavam portagens adicionais nas importantes estradas comerciais da região. Os mercadores e os membros das elites rurais que não pagassem sujeitavam-se a expropriações e a incursões. Na prática, era um esquema de extorsão, mas não enfrentou muita resistência. A autoridade mogol foi minada por diversos factores: a idade extremamente avançada do imperador, a expectativa da crise sucessória que decorreria inevitavelmente da sua morte, o ressentimento causado pelas suas políticas religiosas, a pressão imposta aos seus recursos militares e financeiros pela incessante campanha marata e o crescente descontentamento da hierarquia civil e militar mogol, cujos feudos temporários no Decão não se materializaram ou não geraram as receitas previstas.

Em 1705, Auranguezebe adoeceu gravemente. Era um espectro frágil e vestido «todo de branco», como disse um visitante, com o turbante e a barba fantasmagoricamente pálidos; foi cuidadosamente levado num palanquim para Amadnagar. Mas mesmo assim, levou muito tempo a morrer. Amargurado e isolado, rezou muito, lamentou a situação do império e culpou os seus funcionários - já não acreditava na maior parte dos seus filhos. Quanto a si próprio, escreveu ele, «Estou abandonado e desamparado, e a minha sorte final é a miséria»(287). A miséria terminou em 1707, no seu nonagésimo ano de vida. As despesas do funeral foram supostamente pagas com a venda de Alcorões que ele tinha copiado e os barretes que tinha confeccionado. Os seus desejos foram respeitados: não foi sepultado debaixo de uma elegante montanha de mármore e grés no coração do império, mas numa sepultura simples ao lado de um santuário de aldeia acarinhado pelos muçulmanos do Decão. Em Culdabade, perto de Aurangabade, uma pequena mesquita simples ergue-se ao lado do pátio onde se encontra o menos pretensioso de todos os túmulos mogóis. Mal existe espaço para uma dezena de peregrinos. E em vez de uma grande cúpula branca, a única cobertura é providenciada por uma árvore graciosa, mas sólida.

A NOVA ORDEM

Tendo em conta que, segundo uma estimativa, Auranguezebe, aquando da sua morte, em 1707, deixou 17 filhos, netos e bisnetos adultos com a possibilidade de reclamarem o trono, a guerra de sucessão foi relativamente inócua. Mas não saiu barata. Foram distribuídos tesouros às pazadas, atribuídos feudos temporários, mobilizados exércitos e morreram 10 000 soldados.

Os dois principais pretendentes enfrentaram-se perto de Agra, quase no mesmo campo de batalha de Auranguezebe e do irmão, Dara Xicó. O príncipe Muazame (também conhecido por Xá Alame), ex-governador de Cabul, derrotou e matou o príncipe Azame Xá, do Decão, e assumiu o título de Baadur Xá (ou Xá Alame I). Um ano depois, outro irmão, de sanidade mental duvidosa, entrou na liça, mas foi desfeiteado e morto, em 1709. O novo imperador, apesar da sua idade, parecia prometedor. Porém, enquanto que o reinado de Auranguezebe foi demasiado longo para bem do império, o de Baadur Xá foi demasiado breve: morreu passados cinco anos. Uma guerra de sucessão mal tinha acabado quando começou outra, e entre as duas, crises graves no Rajastão e no Panjabe e turbulência rural em praticamente todo o lado expuseram fatalmente a fragilidade do poder mogol.

O problema do Rajastão começou com a expulsão das tropas mogóis de Marvar (Jodpur) por Ajite Singue, o bebé que tinha sido levado às escondidas de Deli em 1678. Ajite, com quase trinta anos de idade, aproveitou a oportunidade esperada há muito - a morte de Auranguezebe - para vingar a profanação de Marvar. Foi apoiado por outros rajaputros, incluindo os Cachevaas de Amber (Jaipur) e os Sissódias de Mevar (Udaipur). Mas Baadur Xá mostrou-se à altura. Atemorizou os Cachevaas e ignorou os Sissódias, invadiu Marvar e chegou a um compromisso com Ajite Singue. Um ano depois, Ajite Singue e Jai Singue Cachevaa sublevaram-se novamente e atacaram a capital provincial de Asmer. A repetição do desafio teria outrora provocado represálias terríveis, mas mais uma vez, deu apenas origem a clemência. Enquanto Baadur Xá avançava apressadamente para o Panjabe para lidar com os Siques, a tolerância imperial em relação aos Rajaputros, outrora assente na força e ditada por uma questão de política, pareceu subvertida por dúvidas e ditada pelas circunstâncias. Dez anos mais tarde, depois de novos desafios rajaputros e cedências mogóis abjectas, os rajás de Jaipur e Udaipur possuíam «todo o território desde 30 kos [cerca de cem quilómetros] de Deli, onde começa a terra natal de Jai Singue, até ao mar, em Surate»(288).

O problema sique, que era o mais premente, surgiu do assassinato, em 1708, de Govinde Singue, o último guru sique. O guru tinha-se deslocado à corte imperial na expectativa de recuperar a base sique recentemente estabelecida em Anandapur Saíbe (perto de Bilaspur, em Himachal Pradexe) e de obter satisfação em relação ao comandante mogol local, que perseguia os Siques. Este homem tinha assassinado os dois filhos de Govinde e foi considerado o instigador da morte do guru.

Talvez a provocação tivesse sido outrora ignorada pelos discípulos amantes da paz do guru Nanaque, mas com o guru Govinde a irmandade sique tinha sofrido transformações radicais. O guru Govinde retirou para as montanhas do Panjabe depois de Auranguezebe ter executado o guru Tegue Baadur, em 1676, armou os seus seguidores, para eles se defenderem dos rajás das montanhas, e receberam o apoio de siques dispersos pelo Norte da Índia. Os ditames da consciência seriam mantidos pela força sempre que necessário. Alguns contingentes mogóis foram repelidos e o guru Govinde, fiel à sua postura mais assertiva, introduziu uma padrão de ortodoxia mais rígido. Os verdadeiros siques teriam de passar por uma cerimónia baptismal para se juntarem aos «puros»; não poderiam cortar o cabelo, deveriam andar armados e adoptar o epíteto «Singue» («Leão»). A irmandade sique, mais facilmente reconhecível, mais coesa, mais consciente em termos territoriais e muito mais militante, preparou-se para entrar na luta pelo poder no período mogol tardio.

Passado um ano da morte do guru, um discípulo que se auto-intitulou Banda Baadur começou a reunir armas e seguidores na região oriental do Panjabe. O Panjabe, tal como outras províncias, tinha prosperado na primeira metade do século xvii: as receitas aumentaram dois terços e Laor tornou-se um grande empório. Mas esta tendência inverteu-se, a produção agrícola e as receitas caíram, apesar do aumento dos preços. A miséria rural reforçou o apelo de Banda Baadur e transformou o seu protesto «num movimento milenar de resistência»(289) com um forte elemento de revolta das castas inferiores. As forças siques, apesar de mal armadas, começaram a tomar de assalto as cidades predominantemente muçulmanas da região.

Banda assumiu o título de rei, iniciou um novo calendário e cunhou a primeira moeda sique. Ao acrescentar autonomia política às aspirações da nova irmandade dos puros, ele antecipou em quase um século o reino sique de Ranjite Singue. Banda e os seus muitos simpatizantes foram obrigados a retirar para as montanhas devido à enorme ofensiva de Baadur Xá, mas depois o imperador morreu e os Siques, quando foram finalmente derrotados, em 1715, deixaram um legado de contestação firme e militância sectária. «Banda Baadur (...) e centenas de siques foram capturados e mortos em 1715, mas a hostilidade sique continuou a minar as fundações do poder mogol até a província ser totalmente assolada pela turbulência, em meados do século xviii.»(290)

Mas apesar da decrepitude crónica, o edifício mogol resistiu ainda 150 anos, um período durante o qual a sua legitimidade e autoridade raramente foram questionadas. No século xix, os Britânicos reconheceram a supremacia mogol e funcionaram no âmbito das suas instituições. Contudo, a erosão da riqueza e do poder mogóis nas primeiras décadas do século xviii e a expropriação do sistema através do qual os Mogóis operavam foram efectivamente espectaculares. A situação é geralmente explicada em termos dinásticos. Disputas sucessórias, pretendentes imbecis e reinados breves resultaram no esgotamento rápido dos recursos imperiais, dando origem ao caos administrativo e a secessões regionais. A estas «causas» do «declínio» do império, os historiadores pró-hindus acrescentam a alienação causada pelas políticas religiosas de Auranguezebe, e os historiadores marxistas destacam o desespero rural e a agitação campesina devido ao fracasso de um sistema agrário assente na exploração excessiva e no investimento mínimo. Tal como em muitos outros muitos casos, os dados mais históricos oferecem menos certezas reconfortantes.

O facto de a turbulência local ter antecedido a morte de Auranguezebe e depois se ter generalizado por todo o império sugere que os problemas rajaputro e sique foram sintomas de um problema mais profundo, mas é duvidoso que tenha resultado directamente da opressão rural descrita por Bernier. «Quem se revoltou contra Deli, em finais do século xvii e no princípio do século xviii, não foram tanto os camponeses empobrecidos, mas sim os pequenos proprietários abastados e os lavradores prósperos que faziam parte do nexo de dinheiro e serviço mogol.»(291) Estes pequenos proprietários e lavradores constituíam as elites vagamente definidas, imensamente diversas e locais, à custa das quais Todar Mal tinha montado o seu sistema de receitas. Na primeira metade do século xvii, graças às condições comerciais favoráveis e ao aumento da produção, as elites locais mais do que compensaram as perdas. Nos sarcares(distritos) e parganas (subdistritos) do Norte da Índia, as elites locais começaram a fazer sentir o seu peso; estes grupos, baseados na casta e no parentesco, usaram a sua nova riqueza para pagarem a sua reintegração no sistema de receitas ou para adquirirem tropas e armas para defenderem os seus privilégios. O edifício imperial estava a ser insidiosamente minado, ao mesmo tempo que era convertido e partilhado à superfície.

A agitação contribuiu para uma crise dos feudos temporários. Durante todo o período mogol, a hierarquia civil e militar foi sujeita a uma enorme inflação à medida que um número cada vez maior de indivíduos foi recebendo cargos cada vez mais altos, e a quantidade de feudos necessários para sustentar os cargos não acompanhou, e a sua produção individual diminuiu. Foi elaborada uma escala diferencial para lidar com o problema, mas os feudatários estavam tão receosos de ficar sem os seus feudos que ignoraram as ordens no sentido de se transferirem e começaram a considerá-los regalias permanentes que podiam ser arrendadas ou cultivadas e transmitidas aos seus herdeiros.

A hierarquia civil e militar tinha uma perspectiva idêntica em relação aos seus cargos. No nível mais alto, em muitos casos o cargo de governador de província passou a ser ocupado vitaliciamente, e com um titular poderoso e ambicioso podia tornar-se hereditário. Foi o que aconteceu na década de 30 do século xviii, em relação ao Panjabe, Bengala, Avade e o Decão. Pouco depois, foi dado o pequeno passo para a autonomia genuína, geralmente na forma da recusa da entrega das receitas da província ao tesouro imperial, ou da presença pessoal na corte imperial. Em Bengala e Avade, duas gerações transformaram o governador num nababo autónomo; no Decão, «nizão» tornou-se sinónimo de «nababo».

Não se tratou propriamente de uma sucessão pura e simples; foi mais uma devolução ou uma descentralização radical. Além disso, o império, enquanto representado pela soma das partes, revelou-se mais prestigioso e mais sólido do que quando o poder residia exclusivamente no imperador. Os nababos continuaram a funcionar por intermédio dos funcionários e das instituições herdados da administração mogol. As orações continuaram a ser em nome do imperador, e a moeda continuou a ser cunhada em seu nome. A sua pessoa e a sua autoridade deram à nova ordem a sua única legitimidade. Com efeito, o imperador mogol conformou-se com o modelo tradicional pré-islâmico do «grande rajá dos rajás» ou «rei dos reis». Aliás, este último título tinha-se tornado um título mogol: o «rei dos reis» também significava «rei entre reis». Os Mogóis tardios, apesar de debilitados, ocupavam incontestados o topo da «hierarquia de soberanos menores», presidindo a algo parecido com a antiga «sociedade de reis».

UMA COMUNHÃO DE INTERESSES

A prova maior de que a autoridade do império mogol continuou a ser predominante é o desejo dos Maratas de obterem a sua aprovação. Para os Maratas, a consequência mais importante da morte de Auranguezebe foi a libertação de Xauji, filho do desmembrado Sambaji (e neto de Xivaji). Xauji, apesar de criado no acampamento imperial, não foi obrigado a converter-se ao islão, e depois de libertado por Baadur Xá reclamou ousadamente o trono marata. Tarabai, a sua tia, contestou as suas pretensões em nome do seu filho, Sambaji. Por conseguinte, a guerra entre Mogóis e Maratas tornou-se tripartida, com Xauji a tentar também garantir a fidelidade dos chefes maratas. Entretanto, os governadores do Decão mogol foram mudando, um favorecendo Xauji e o seguinte Tarabai. O impasse deu origem a uma anarquia crónica, mas em 1713 Xauji começou a escutar os conselhos do temível Balaji Vixevanate.

Balaji era um brâmane da Costa do Concão que tinha sido amanuense nas salinas, e carecia das credencias mínimas do cavaleiro marata. «Ele não era particularmente bom a montar a cavalo, precisava de um homem de cada lado para o segurarem.»(292) No entanto, Balaji tinha uma grande reputação em relação à outra perícia bélica essencial dos Maratas: a negociação. Em 1714, garantiu inesperadamente a Xauji o apoio de Canogi Angriá, o almirante da esquadra marata (os Britânicos de Bombaim chamavam-lhe «pirata angriano»), que tinha sido o pilar da facção de Tarabai. Balaji foi recompensado com o cargo de pexavá (primeiro-ministro) de Xauji e outros brâmanes assumiram a responsabilidade pela administração marata e reforçaram a sua capacidade de endividamento; a situação de Xauji melhorou de imediato. Com o passar do tempo, o cargo de pexavá tornou-se hereditário na família de Balaji, e os pexavás substituíram os soberanos como outorgantes do poder e do patrocínio maratas nos sessenta anos seguintes.

Entretanto, em Deli, vivia-se a crise sucessória decorrente da morte de Baadur Xá, em 1712. A crise foi mais orquestrada por alguns altos funcionários mogóis do que pelos quatro filhos de Baadur Xá, mas não deixou de custar muito sangue e riqueza e resultou na subida ao trono de um homem que Caficão descreve, com alguma justificação, como um imbecil frívolo e um borrachão. Felizmente, Jaandar Xá durou apenas onze meses no trono - um reinado breve, mas um deboche prolongado. «Foi uma época de menestréis e cantores e de todas as tribos de dançarinos e actores. (...) Os homens dignos e talentosos foram corridos, e os de espírito impudente e atrevido e os contadores de piadas foram recrutados.» As piadas eram sempre acerca de Lal Cunvar (ou Cumari), a escandalosa amante do imperador, cujos parentes amantes do regabofe foram cumulados de feudos, cargos, elefantes e jóias. O ambiente era tão contagioso que «parecia que os cádis se iam transformar em borrachões e os muftis em taberneiros»(293).

A festança acabou e o decoro foi temporariamente restaurado em 1713, quando Faruquessiar, filho de um dos irmãos de Jaandar Xá, se aproximou vindo de Biar com um grande exército. As forças de Jaandar Xá sumiram-se e Faruquessiar, que já se tinha proclamado imperador, iniciou o seu reinado de seis anos (1713-1719). Faruquessiar foi o responsável pela repressão sanguinária de Banda Baadur e dos seus Siques, e tolerou, fatidicamente, os desígnios ambiciosos da Companhia das Índias Orientais inglesa.

Mas a sua conquista do poder e o seu regime dependeram muito de dois irmãos extremamente capazes chamados Saídes, um dos quais fora governador de Alaabade e o outro de Patná. Os Saídes foram recompensados com altos cargos, mas pouco depois desentenderam-se com o imperador, cuja ambição só era ultrapassada pela sua indecisão crónica. Faruquessiar achou os Saídes altivos, depois indispensáveis, e depois inaturáveis, e por fim enviou o mais novo, Hocém Alicão, para o Decão. Enquanto governador do Decão, estaria fora do caminho; melhor ainda, conforme as instruções secretas enviadas ao governador do Guzerate, seria assassinado pelo caminho. Mas Hocém Alicão eliminou o potencial assassino e depois, tal como seria de esperar, planeou vingar-se do imperador.

Os Maratas foram arrastados para a vingança e irromperam finalmente do Decão e do Guzerate, iniciando o seu longo envolvimento nos assuntos do Norte da Índia. Desconhece-se se a iniciativa partiu de Hocém Alicão Saíde ou do primeiro-ministro Balaji Vixevanate, mas em 1716 eles iniciaram negociações destinadas a terminar os trinta anos de guerra entre Mogóis e Maratas. Tal como sucedeu com Xivaji em 1665, Xauji teria de aceitar o domínio mogol no Decão, fornecer tropas ao exército imperial e pagar um tributo anual. Mas em troca, Xauji exigiu uma directiva imperial que garantisse a independência da pátria marata, e direitos a cerca de 35 % do total das receitas do Guzerate, de Malva e das seis províncias mogóis do Decão (que incluíam os antigos territórios de Bijapur e Golconda, em Tâmil Nadu). Foi uma exigência enorme; Hocém Alicão aceitou-a, mas foi peremptoriamente rejeitada pelo imperador Faruquessiar, que compreendeu que semelhante directiva poria fim ao poder mogol na região(294). Mas Hocém Alicão decidiu garantir a aceitação do tratado em pessoa. O irmão, em Deli, estava permanentemente ameaçado pelas intrigas do hesitante imperador, e pediu-lhe urgentemente a sua presença. Além disso, Balaji estava disposto a apoiá-lo em troca da ratificação do tratado. Por conseguinte, em 1719, o primeiro-ministro e o Saíde mais novo rumaram a Deli com um exército composto por tropas maratas e mogóis.

Aproximaram-se da cidade sem oposição e montaram o acampamento ao pé da coluna de Axoca reerguida por Firuz Xá II. O som dos seus tambores subiu o Iamuna - que ainda corria ao pé das muralhas - e ouviu-se no grande Forte Vermelho de Xajaanabade. Faruquessiar ficou rapidamente isolado e, com a sua guarda pessoal sub-repticiamente substituída, foi uma presa fácil para os Saídes. Cegaram-no, meteram-no numa jaula, envenenaram-no, garrotaram-no e por fim mataram-no à punhalada - a sua morte foi tão indecisa como a sua vida. O imperador foi substituído no trono por um jovem tuberculoso que só durou seis meses, e depois pelo seu irmão, igualmente irrelevante, que se deliciou com o título de Xá Jaão II mas que morreu, diz Caficão, «de disenteria e desordem mental depois de três meses e alguns dias de reinado». As coisas continuaram como antes (...)», diz o cronista, «ele [Xá Jaão II] não participava na governação do país»(295). Mas sob o domínio dos Saídes, a primeira nulidade imperial aprovou o tratado com os Maratas. Balaji Vixevanate e os seus homens regressaram ao Decão satisfeitos com a sua obra.

Os Saídes instalaram no trono o terceiro imperador num ano, Moâmede Xá. Num reinado inesperadamente longo (1719-1748), o seu feito mais notável ocorreu em 1720, quando o Saíde mais novo foi assassinado e o mais velho derrotado. Mas depois de libertado dos seus vigilantes, o imperador foi presa de outras facções antagónicas e terá desistido de governar. «Jovem, belo e amante de todo o tipo de prazeres, viciou-se numa vida inactiva.»(296) As incursões catastróficas contra Deli dos Maratas (1737), de Nadir Xá da Pérsia (1739) e do afegão Amade Xá Abdali (a partir de 1748) não o galvanizaram.
O reinado foi longo, mas não foi glorioso.

Balaji Vixevanate, o aliado dos Saídes, também morreu em 1720. O filho, Baji Rau I, «depois de Xivaji, o líder mais carismático e dinâmico da história marata»(297), herdou o cargo de primeiro-ministro, bem como as perspectivas extraordinárias decorrentes do novo tratado e o compreensível desprezo do pai pelo poderio e pela mística do imperador mogol. Nas duas décadas seguintes, os Maratas atacaram com impunidade nos quatro pontos cardeais. Chegaram ao Rajastão em 1735, a Deli em 1737, e a Odixá e Bengala em 1740. No entanto, a estrutura da soberania marata continuou a ser pouco coesa. A distribuição, por Balaji, das receitas cedidas do Decão por diversos comandantes maratas deu origem ao que James Grant Duff, o primeiro historiador dos Maratas, chamou «uma comunhão de interesses»(298). As distribuições e partilhas posteriores também procuraram garantir uma comunidade harmonizada. Podia ser orientada, mas não era de todo uma entidade imperial. Os chefes operavam de modo independente. Às vezes enfrentavam-se, outras vezes colaboravam, mas o mais típico era operarem nas respectivas esferas, que eram determinadas pelas operações anteriores e por bastiões militares ou aprovadas através da atribuição de receitas específicas. O talento excepcional de Baji Rau garantiu algum controlo central, mas o «Estado» marata do século xvii transformou-se na «confederação» marata do século xviii.

Tal como os governos provinciais devolvidos do império mogol, a soberania podia ser um conceito fugaz. As exigências maratas continuaram mais focadas nas receitas do que nos territórios, e a reflectir a mobilidade espantosa da cavalaria marata. O domínio marata era mais forte onde o sistema de receitas era vulnerável ou nos pontos de convergência das artérias comerciais. Por vezes, contornou os governantes ou acomodou-os. O domínio marata, apesar de incompreensível para os historiadores formados nas certezas definíveis do Estado-nação, prosperou com frequência com uma administração paralela, ou mesmo com uma contra-administraçao.

As grandes famílias confederadas que surgiram neste período tornaram-se a aristocracia marata da época britânica. Distinguiram-se militarmente na década de 20 do século xviii, mas não eram necessariamente nobres feudais com terras ancestrais na pátria marata. Por exemplo, Damaji Gaiquevade, o antepassado dos Gaiquevades de Baroda, serviu no Guzerate com uma família marata opositora do primeiro-ministro e combateu-o ao lado de Nizão Almulque, o governador mogol do Decão. Só alguns anos mais tarde, depois da derrota do governador em Palquede, em 1728, é que Damaji, que se tornara supremo no Guzerate, declarou a sua fidelidade ao primeiro-ministro. Por outro lado, Malar Rau Holcar e Ranoji Síndia distinguiram-se ao serviço do primeiro-ministro, principalmente em Malva. Holcar combateu valorosamente em Palquede e foi recompensado com uma grande parte de Malva, incluindo Indor, onde os seus descendentes governaram como marajás de Indor. Síndia foi recompensado com a antiga cidade de Ujaim, mas Gualior, conquistada pelo seu filho, Maadaji, em 1766, tornou-se a sede do futuro poder síndia e o mais formidável bastião marata do Norte da Índia.

De forma idêntica, os apoiantes bonsles de Xauji na sua disputa com a regente Tarabai foram recompensados com direitos de receitas em Berar, que se tornou o núcleo do poder marata na parte oriental da Índia e de onde foram lançadas incursões em Odixá e Bengala. Os Bonsles adoptaram Naguepur como capital, e foi a anexação britânica do Estado de Naguepur, entre outros, que contribuiu para o descontentamento que resultou na Revolta dos Sipaios, em 1857. Quando à marginalizada Tarabai e aos seus protegidos Bonsles, foram comprados com a oferta de Colapur, no Sul de Maarastra. Colapur, enquanto Estado independente governado por marajás maratas, sobreviveu aos Mogóis, aos diversos primeiros-ministros e até aos Britânicos: só cedeu a sua autonomia aquando da independência da Índia. Tal como todas as outras grandes casas aristocratas, foi finalmente dissolvida por Indira Gandhi, nos anos 70 do século xx.

Os primeiros-ministros permaneceram em Pune. Baji Rau, o segundo primeiro-ministro, partiu do princípio, e com razão, de que com a devolução do poder mogol às províncias, o principal obstáculo à expansão dos Maratas viria de regimes regionais como os que estavam a surgir em Bengala e Avade. Nizão Almulque, um dos mais importantes e capazes emires mogóis que tinha salvo o império por diversas, chegou relutantemente à mesma conclusão. Em vez de apoiar imperadores inúteis em Deli, decidiu, em 1723, criar o seu próprio reino, baseado na província do Decão, da qual era governador. Esbarrou com dois adversários formidáveis, os Maratas e um tal Mubariscão, um funcionário mogol que tinha criado um Estado semi-independente centrado em Haiderabade. Em 1724, Nizão Almulque derrotou e matou Mubariscão, mas em 1728 e 1731 foi desfeiteado pelos Maratas. Nizão Almulque abandonou a sua capital, Aurangabade, e levou o seu título, as suas tropas e as suas aspirações para Haiderabade, onde fundou o mais poderoso dos Estados-satélites recém-devolvidos do império - e também foi um dos mais duradouros por via do entendimento alcançado com os Britânicos.

PRIMEIRO, A DIRECTIVA...

Faruquessiar, o protegido, flagelo e vítima dos irmãos Saídes, que em 1719 rejeitou o acordo alcançado com Balaji Vixevanate, tinha recebido um pedido idêntico de autorização imperial em 1717. Veio do canto oposto do império vacilante, de Calcutá, e depois de muita hesitação deu o seu consentimento. Mas as consequências foram igualmente fatídicas. Com base na directiva imperial de Faruquessiar, «A Honorável Companhia de Mercadores de Londres que comerceia nas Índias Orientais» pôs-se na bicha com os Maratas e com o governador para garantir o seu quinhão do poder devolvido dos grandes imperadores mogóis.

Desde o tempo de Acbar, as companhias comerciais europeias vinham solicitando aos imperadores mogóis directivas imperiais que em teoria regulamentavam o seu estatuto, os seus privilégios e as suas condições comerciais em todo o império e protestavam contra as vexações, exacções e exigências impostas pelos funcionários mogóis dos portos e das capitais de província. Para uma organização como a Companhia das Índias Orientais inglesa, cuja existência dependia de um monopólio nacional do comércio oriental solenemente atribuído por carta régia, era mais do que evidente a necessidade de uma autorização recíproca que garantisse o acesso favorável ao seu mais importante parceiro comercial.

Passada uma década depois de a companhia inglesa ter recebido a primeira carta régia, em 1600, um tal capitão William Hawkins deslocou-se de Surate a Agra para solicitar uma directiva a Jaanguir. Hawkins foi seguido de uma sucessão de pretendentes esperançados com presentes mais generosos ou credenciais mais impressionantes, entre os quais Sir Thomas Roe, o primeiro embaixador inglês, que ficou impressionado com as jóias de Jaanguir. Roe ficou menos impressionado com a Índia, e desdenhou do país nos mesmos termos que Babur. O embaixador era tão melindroso acerca do seu estatuto diplomático que chegava a ter apoplexias, e dava sermões aos seus compatriotas presentes na Índia, antagonizando os feitores da companhia, cujos interesses ele devia supostamente representar. «Se ele [o príncipe Currão, o futuro Xá Jaão] me oferecesse dez [fortes], eu não aceitaria nem um», disse ele aos feitores «(...) porque não há dúvida de que é um erro recorrer a guarnições e guerras terrestres na Índia. (...) Que seja a regra: se procurardes lucros, fazei-o no mar e através do comércio tranquilo.» Embora a ideia de Roe de «comércio tranquilo» incluísse um ataque gratuito a navios mogóis de quatro em quatro anos - ele explicou: «temos de punir esta gente» -, os directores da Companhia das Índias Orientais concordaram com ele no sentido de evitar guarnições e guerras. Enquanto garantia de condições comerciais favoráveis, uma directiva imperial parecia a alternativa perfeita por não ser dispendiosa.

Mas a directiva não foi obtida e seguiram-se guarnições e guerras. Chenai foi conquistada ao naiaque local em 1640, e perto da praia foi construído o Forte de São Jorge. Bombaim, como referimos, foi transferida para Carlos II em 1661, como parte do dote de Catarina de Bragança. Depois de uma tentativa desastrosa para instalar uma guarnição real na cidade, Bombaim foi alugada à Companhia, cujos funcionários deram valor à sua segurança quando Xivaji e os seus sucessores começaram as suas incursões em Surate. A transferência da coroa para a Companhia foi em 1668, por uma carta patente que presumivelmente por razões de conveniência burocrática situou Bombaim «no Solar de East Greenwich, no condado de Kent»; a renda, no valor de 10 libras, deveria ser paga «em ouro, no dia 30 de Setembro, todos os anos e para sempre.»

Calcutá foi fundada vinte anos antes, durante uma das guerras menos conhecidas de Auranguezebe. Em 1664, Xaistacão, regressado do Decão sem o polegar perdido durante o audacioso ataque marata à sua residência, em Pune, foi nomeado governador de Bengala depois de Mir Jumela, o conquistador do Assão. Em 1682, quando Auranguezebe se transferiu para o Decão, Xaistacão ainda estava em Bengala, e no mesmo ano recebeu em Daca, a sua capital, um tal William Hedges, um director da Companhia das Índias Orientais. Hedges tentou persuadir Xaistacão a cancelar um novo imposto sobre o ouro e a prata que a Companhia importava para pagar as suas exportações da Índia, e a pedir a Auranguezebe a directiva há muito desejada. Xaistacão, enquanto irmão da Mumetaze Mahal do Taj Mahal, logo, tio de Auranguezebe, era considerado uma figura bastante influente. A dada altura, Hedges julgou que a directiva estava praticamente assinada, mas em 1684 a sua diplomacia foi minada pelas reclamações dos feitores da Companhia, em Bengala, e por Sir Josiah Child, o seu belicoso governador, em Londres. Xaistacão tirou a conclusão óbvia: «os Ingleses são gente baixa e quezilenta, e negociam de má-fé.» As negociações foram canceladas e dois anos mais tarde - o tempo que demorou para as recriminações chegarem a Londres e a vingança a chegar à Índia -, dois navios com 308 soldados da Companhia chegaram a Ugolim para insistirem na directiva e desafiarem um império que dispunha de 100 000 homens em armas(299).

A Guerra Mogol, por vezes também chamada «Guerra de Child», é tão pouco referenciada nas histórias da Índia britânica como nas histórias dos Mogóis. Não foi gloriosa para ninguém. Em Bengala, depois de desordens no porto mogol de Ugolim, os Ingleses retiraram rio abaixo, desembarcaram no lugar ao qual mais tarde chamaram Calcutá, e partiram no ano seguinte. Este desempenho repetiu-se em 1688-1689, quando a «guerra» se intensificou noutras paragens. O mais alto funcionário da Companhia em Surate (que também se chamava Child), decidiu apoiar os seus companheiros de Bengala e transferiu-se para a segurança relativa de Bombaim. Depois, em consonância com o ditame do embaixador Roe, começou a atacar navios mogóis. O Child de Londres aplaudiu; daqui a um ano, anunciou ele, «os súbditos do mogol [vão estar a] passar fome e a morrer aos milhares por falta do nosso comércio». O Child de Bombaim declarou que se Auranguezebe enviasse o seu almirante contra ele, ele «mandá-lo-ia pelos ares com o vento do seu traseiro»(300). Auranguezebe enviou o almirante e a «Guerra de Child» espalhou-se de uma extremidade à outra do império mogol. No princípio de 1689, Cide Iacube, um africano que comandava uma esquadra na costa ocidental que funcionava como a marinha mogol, apoderou-se de surpresa da ilha de Bombaim; os Ingleses foram sitiados no Forte de Bombaim durante a maior parte do ano, e acabaram por capitular.

Os «enviados» da Companhia que em 1690 viajaram até ao acampamento imperial para pedirem perdão foram de mãos atadas e, numa indignidade acrescida, foram obrigados a prostrar-se perante o imperador. Mas Auranguezebe estava ciente do valor do seu comércio e do perigo de eles fazerem causa comum com os Maratas. A troco de uma indemnização colossal e da promessa de melhor comportamento no futuro, o imperador restaurou graciosamente os privilégios comerciais da Companhia e ordenou a retirada das suas tropas. E no mesmo espírito de perdoar e esquecer, a Companhia foi autorizada a regressar ao rio Ugolim, onde em 1690 se instalou permanentemente em Calcutá e iniciou a construção do «Forte William». Com a primeira guerra anglo-indiana ganha tão decisivamente pelo império mogol, nem se falou na directiva.

No princípio do século xviii, o comércio de Surate recuperou, mas o de Bombaim tinha dificuldade em competir. A paz com Cide Iacube e com o imperador mogol tornou os navios da Companhia alvos naturais para o inimigo inveterado dos Mogóis, o almirante marata Canogi Angriá. Um livro intitulado A History of the Indian Wars, publicado em Inglaterra, em 1737, uma década antes de se pensar que os Britânicos tinham travado guerras na Índia, fala pouco na «Guerra de Child» e é um relato colorido dos ataques quase incessantes de Canogi Angriá contra navios com a bandeira da Companhia e das tentativas de represálias britânicas contra os bastiões de Canogi na Costa do Concão. Estas «guerras» arrastaram-se até meados do século. Nas décadas de 20 e 30, embora não se possa dizer que alguém estava a ganhar, a vantagem pertencia inequivocamente a Canogi, e o comércio de Bombaim foi muito atingido.

Mas Chenai e Calcutá prosperaram. O «investimento» da Companhia na Índia, principalmente as aquisições de têxteis de algodão, mas também de sedas, melaço e salitre de Bengala e de índigo do Guzerate estava a ser altamente lucrativo, tal como era para os Indianos o acesso à prata das Américas, com a qual a Companhia pagava as compras. À chegada, a prata era geralmente transformada em rupias, monetizando ainda mais a economia mogol, que se tornou mais dinâmica apesar do declínio mogol. Os banqueiros, empresários e funcionários indianos beneficiaram imenso com a estabilidade da moeda e a disponibilidade de capital. No entanto, com o aumento do volume do comércio, aumentou também a dependência desta fonte aparentemente ilimitada de riqueza. Em Londres, tal como outrora na Roma imperial, alguns profetas da desgraça começaram a denunciar a sangria das reservas nacionais devido àquele comércio desequilibrado. Mas com os tafetás, as musselinas, as chitas e os calicós a conquistarem as arcas dos linhos, a amontoarem-se nos guarda-fatos e a cobrirem o mobiliário da Europa, a Companhia ignorou as críticas, confiante no apoio dos seus accionistas, cujas belas fatiotas espelhavam os seus belos dividendos.

Os directores da Companhia estavam mais preocupados com as actividades privadas dos seus funcionários. Muitos ingleses faziam fortuna na Índia, não com o seu trabalho leal para a Companhia, adquirindo e enviando produtos, mas investindo a título privado numa variedade de oportunidades financeiras, algumas das quais relacionadas com o comércio. A Companhia só podia defender o seu monopólio no tráfego entre a Inglaterra e o Oriente. No Oriente e na própria Índia, muitos funcionários da Companhia aproveitaram-se do declínio do tráfego de navios indianos iniciado durante o Estado da Índia português, no século xvi, e investiram fortemente no comércio do Oceano Índico. Compravam ou alugavam navios, transportavam cargas, vendiam seguros e sobretudo aproveitavam-se da segurança e da protecção oferecidas pela bandeira da sua empregadora. Em Chenai, dois funcionários da Companhia, os irmãos Yale, nascidos na América, fizeram uma grande fortuna no comércio com o Sião (Tailândia) e com Cantão, na China; uma parte dos rendimentos de Elihu Yale financiou o colégio e futura universidade que tem o seu nome, no Connecticut. Alguns funcionários da Companhia também investiram em - e muitos desertaram para - empresas de navegação que não reconheciam o monopólio da Companhia, por exemplo, outras Companhias das Índias Orientais europeias, como a holandesa ou a francesa, ou os consórcios ingleses «ilegais» chamados «clandestinos», ou ainda ambas as coisas - clandestinos ingleses que navegavam com uma bandeira de conveniência. No princípio do século xviii, muitos navios que apesar de principalmente financiados por ingleses arvoravam as bandeiras das Companhia de Ostende, da Companhia Sueca das Índias Orientais e da Companhia de Emden (prussiana), subiam o rio Ugolim em busca dos produtos de Bengala.

Thomas Pitt, ex-clandestino e deputado, já tinha feito e gasto uma fortuna com a Índia quando regressou a Chenai, em 1699, como governador do Forte São Jorge. Pitt passou doze anos em Chenai, acumulando uma segunda fortuna que incluiu o diamante Regente(comprado por Pitt por 45 000 libras e vendido ao regente de França por 135 000); a sua fortuna sustentou confortavelmente as carreiras políticas dos seus neto (Chatham) e trisneto (William Pitt, o Jovem), que chegaram a primeiros-ministros. O governador Pitt defendeu ciosamente os interesses da Companhia nos tempos de incerteza antes e depois da morte de Auranguezebe. Em 1701, outro embaixador inglês, o primeiro desde Roe, deslocou-se à corte peripatética do imperador, no Decão, com uma dádiva generosa de canhões, cavalos e carroças carregadas de vidraria e faiança, mas Auranguezebe só se dispôs a considerar uma directiva se os Ingleses assumissem a tarefa dispendiosa do policiamento do Oceano Índico e eliminassem os piratas, que eram principalmente clandestinos e renegados europeus. Isto não estava previsto, e não houve directiva. A embaixada foi o desastre caríssimo que Pitt tinha previsto.

A morte de Auranguezebe, em 1707, e a disputa sucessória ofereceram novas possibilidades. Em nome do príncipe Muazame, um intermediário imperial pediu aos Ingleses que cortassem a retirada a um dos rivais do príncipe; em troca, Pitt foi convidado a redigir os termos de uma directiva. O rival do príncipe não chegou a Chenai, mas Muazame subiu ao trono como Baadur Xá e a Companhia começou a reunir os elefantes, cavalos, relógios e caixas de música considerados adequados para outra missão à corte imperial. Quando Pitt deixou a Índia, em 1709, estava confiante no resultado, e no ano seguinte foram feitos diversos contactos pelo mesmo intermediário, entretanto destacado para Bengala. Os relógios e os elefantes foram enviados para Calcutá, e em 1712 a embaixada estava pronta para partir. Mas depois chegou de Deli a notícia de que Baadur Xá tinha morrido.

O seu sucessor «imbecil» durou apenas tempo suficiente para uma troca de cartas, mas com a subida ao trono de Faruquessiar, as esperanças da Companhia voltaram a aumentar. O novo imperador tinha sido criado em Bengala, onde o pai fora governador depois de Xaistacão. Faruquessiar era conhecido de alguns dos ingleses de Calcutá, e a Companhia tinha-lhe fornecido brinquedos quando ele era menino. E os bonecos tinham sido manifestamente apreciados, pois a notícia de que cerca de quarenta toneladas de produtos exóticos estavam à disposição do imperador resultou na confirmação provisória dos privilégios da Companhia e no pedido de que a embaixada procedesse de imediato para Deli. Em 1715, chefiada pelo insípido John Surman e guardada por cerca de 600 soldados, uma caravana de 160 carroças puxadas por bois, 1200 carregadores e uma selecção de carruagens, canhões e camelos rumou a oeste através da planície gangética.

«Tendo em conta a grande pompa e o estado dos reis do Hindustão, fomos bem recebidos», escreveu Surman, à chegada a Deli. Surman adorou o cerimonial impressionante e começou a oferecer subornos generosos. O médico da missão tratou uns inchaços na virilha imperial e foi ricamente recompensado, mas Faruquessiar manteve-se irritantemente indiferente à directiva, e só cedeu depois de ser ameaçado com a retirada da Companhia de Surate e dos seus outros estabelecimentos no Guzerate. Era impensável ficar sem a prata e sem o comércio da Companhia por causa de um papel. Em 1716, na véspera de Ano Novo, mais de um século depois de o capitão William Hawkins a ter solicitado, a directiva recebeu a assinatura imperial.

A directiva, que foi explícita no que dizia respeito aos direitos territoriais e comerciais da Companhia em toda a Índia, «concedeu favores nunca antes concedidos a nenhuma nação europeia». Em Calcutá, Chenai e Bombaim, realizaram-se celebrações, fizeram-se brindes e dispararam-se salvas de artilharia quando o documento foi levado em desfile pelas ruas e proclamado às portas das cidades. «A nossa directiva caríssima» tornou-se «a Magna Carta da Companhia na Índia». Confirmou uma quantidade de privilégios, alguns dos quais eram mais presumidos do que garantidos; integrou a Companhia na hierarquia política da Índia mogol através de uma relação directa com o imperador semelhante à dos detentores de cargos imperiais; e ao legitimar a acção contra quem infringisse os seus termos, ofereceu muito espaço para futuras intervenções. Trinta anos mais tarde, foi com base na directiva de Faruquessiar que Robert Clive justificou o seu avanço sobre Palassi e o derrube do nababo de Bengala.

Mas se a participação directa da Companhia na emasculação do império ainda estava a uma geração de distância, o mesmo não aconteceu com a participação dos seus funcionários na economia mogol nem das suas tropas no chamado «bazar militar pan-indiano»(301). Os funcionários da Companhia investiam a título privado não só nas diferentes formas de comércio marítimo, mas também nos monopólios, cargos, concessões, arrendamentos da cobrança de receitas e concessões comerciais que passaram a ser comerciados no império. Há muito que os detentores de cargos e os feudatários temporários aceitavam adiantamentos em dinheiro contra receitas previstas, mas agora, com a autoridade imperial a ser devolvida e arrendada, aconteceu o mesmo com os direitos e as receitas inerentes a todos os funcionários subsidiários. Nas províncias, os governadores e os nababos autónomos arrendaram cada vez mais os seus direitos a receitas a uma meia dúzia de membros da elite rural poderosos que podiam, depois da devida consideração, ser elevados ao estatuto de nababos ou rajás subsidiários. Em Bengala, «em 1728, mais de 25 % das receitas nominais dependiam dos membros da elite rural [e futuros rajás] de Bardamane e Rajexaí. No fim do regime do nababo, 60 % das receitas provinham de 15 membros da elite rural»(302). Mas estes grandes senhores arrendavam a maior parte dos seus direitos a senhores menores, mercadores, chefes de guerra e grandes agricultores. Os grandes bancos indianos e os poderosos interesses mercantis ajudaram a financiar o mercado dos direitos de impostos e foram dos seus principais beneficiários. E tendo em conta que a realização das receitas e a sua conversão em moeda dependiam frequentemente de uma demonstração de força, as aristocracias guerreiras locais e os feitores ingleses começaram a participar no processo.

Cada funcionário da Companhia tinha um agente local, um baniano ou um intérprete. As negociações de Surman em Deli tinham dependido muito de um arménio temperamental; Pitt tinha recorrido aos serviços do «vilão mais maldito que alguma vez se viu no mundo» porque ele também era «o tipo mais hábil e incansável em actividade»(303). Os agentes, cientes do estatuto da Companhia, melhorado pela directiva, e da capacidade de endividamento dos seus funcionários, prezavam imenso os seus clientes ingleses e garantiam-lhes investimentos e empréstimos. «Os Britânicos foram sugados para a economia indiana tanto pela dinâmica da sua economia política como pela sua busca incansável do lucro.»(304) Alguns estudos recentes do colonialismo salientam o papel crucial desempenhado pelas elites nativas dispostas a colaborarem com a potência colonial. Foi o caso dos intérpretes e dos banianos, e com eles como intermediários os residentes britânicos entraram para a nova classe empresarial da Índia mogol tardia.

A dinâmica da economia política mogol tinha tanto a ver com tropas como com dinheiro. Os líderes mogóis financiavam as suas actividades com iniciativas empresariais, e os empresários garantiam os seus investimentos apoiando iniciativas militares. Por conseguinte, ainda antes da guerra contra os Franceses, na década de 40 do século xviii, a Companhia, através dos seus funcionários, já estava indirectamente envolvida na contratação e manutenção de tropas pelas elites rurais e pelos cobradores de receitas. Além disso, a Companhia, encorajada pela confirmação da directiva de certos direitos a receitas locais, aumentou significativamente o número de tropas considerado necessário para defender as suas instalações. Por exemplo, a guarnição de Chenai aumentou de 360 efectivos em 1717 para cerca de 1200 em 1742. A maior parte era recrutada localmente, pois muitos pertenciam à comunidade indo-portuguesa. No entanto, também eram contratados soldados indianos, os «peões» ou sipaios, pois existiam reservas amplas de soldados profissionais - maratas, decanis, afegãos, rajaputros e bacsaris (de Avade) - que os Mogóis tinham deixado - em muitos casos, sem o pré - por todo o subcontinente. A existência deste mercado de tropas, tal como o mercado de cargos e o arrendamento da cobrança de receitas, foi um convite inequívoco à participação europeia.

... DEPOIS, O DIVÃ

Mas se a directiva podia ser usada como base jurídica para as interferências britânicas, e se o animado mercado de oportunidades comerciais, fiscais e militares encorajava as intervenções, foram as guerras anglo-francesas que as precipitaram: ofereceram o pretexto, demonstraram o método e inspiraram a confiança para as primeiras iniciativas britânicas destinadas a garantir o seu domínio em toda a Índia.

A Companhia das Índias Orientais Francesa chegou tarde à Índia, em comparação com as companhias holandesa e inglesa. Foi fundada por Jean-Baptiste Colbert, o homólogo de Bernier, na década de 60 do século xvii, e expandiu-se rapidamente no princípio do século seguinte. Pondicherri, o quartel-general francês, era um desafio para Chenai, na Costa do Coromandel, e Chandernagor aspirava a rivalizar com Calcutá em Bengala. Mas a rivalidade manteve-se exclusivamente comercial, mesmo quando a Inglaterra e a França foram adversárias na Guerra da Sucessão Espanhola. Em Bengala, nos anos 40, as duas companhias também optaram por ignorar a Guerra da Sucessão Austríaca. Os seus colegas do Sul poderiam ter feito a mesma coisa, não fossem as operações das esquadras britânica e francesa no Oceano Índico. A captura de presas pela Marinha britânica provocou represálias francesas em terra e a conquista de Chenai, em 1746. As duas esquadras desembarcaram tropas regulares e ambas as companhias recrutaram mais sipaios; as guarnições heterogéneas receberam instrução, uniformes e transformaram-se rapidamente em exércitos disciplinados.

Além disso, ambas as companhias procuraram o apoio dos seus vizinhos mais próximos. Nizão Almulque, governador nominal mogol do Decão, mas na realidade nababo autónomo de Haiderabade, governava com mão firme as actuais Telangana e Andra Pradexe. Mas a sul, os territórios tâmiles do ex-sultanato de Golconda, apesar de integrados na província do nababo, eram governados por um nababo subsidiário conhecido por nababo de Arcote (a sua capital) ou do «Carnático» (Esta palavra deriva de «Carnataca», que designava originalmente a metade sul do moderno estado de Carnataca - a área Misore-Bengaluru - e os territórios tâmiles adjacentes, ambos adquiridos simultaneamente aos naiaques de Vijaianagar pelo sultanato de Bijapur na década de 30 do século xvii).

O nababo do Carnático, cujos territórios rodeavam Chenai e Pondicherri e que auxiliou os Britânicos depois da perda de Chenai, revelou involuntariamente a superioridade das tropas regulares europeias. O seu exército de cerca de 10 000 cavaleiros foi repelido por duas vezes por 500 infantes e artilheiros franceses. Os regulares europeus, armados com mosquetes e instruídos para carregarem e dispararem com uma rapidez sincronizada, geraram poder de fogo suficiente para travar uma carga da cavalaria indiana. Foi uma revelação sensacional. A cavalaria, em especial os sovarescouraçados dos Mogóis, simbolizava o poderio militar indiano. Ora, se a cavalaria era vulnerável à infantaria europeia, o mesmo acontecia com o sistema militar que a apoiava e os regimes que o sustentavam. À supremacia das Companhias no mar, reconhecida desde há muito, foi acrescentada uma capacidade potencialmente devastadora em terra.

Em 1748, a notícia da paz na Europa resultou na devolução de Chenai aos Britânicos e numa pausa nas hostilidades anglo-francesas. Contudo, no mesmo ano, Nizão Almulque faleceu e a sucessão em Haiderabade foi de imediato disputada. Um dos pretendentes expulsou o nababo de Arcote, e cada pretendente ao trono de Haiderabade apresentou o seu candidato ao cargo de nababo subsidiário de Arcote. O envolvimento das companhias europeias era inevitável. As suas tropas tinham-se revelado as mais eficazes da península, mas estavam inactivas e custavam muito dinheiro aos seus empregadores. Além disso, Moâmede Ali, um dos pretendentes a Arcote, tinha comandado as tropas que tinham auxiliado os Britânicos na recente guerra, e o outro pretendente, Chanda Saíbe, tinha a família em Pondicherri, falava francês e tinha um relacionamento estreito com Dupleix, o ambicioso governador de Pondicherri.

Por ter fornecido tropas a Chanda Saíbe, Dupleix é frequentemente considerado o introdutor do uso de substitutos políticos na Índia. A partir desta altura, os Britânicos e os Franceses, quando não estavam oficialmente em guerra, prosseguiram as hostilidades sob a égide de príncipes indianos adversários, e através deles alargaram a sua autoridade sem parecerem adquirir territórios. Mas a ideia da expansão através de terceiros não foi propriamente uma novidade, e muito menos na Índia. «O "sistema de alianças subsidiárias" não foi uma estratégia brilhante desenvolvida pelos Franceses nem pelos Ingleses, mas sim uma característica comum e provavelmente inevitável da política setecentista pós-mogol.»(305) Além do mais, os Britânicos estavam envolvidos num exercício semelhante em nome do governante marata de Tanjor. O oportunismo de Dupleix não foi particularmente original, mas foi total.

A Guerra do Carnático, supostamente pela sucessão aos cargos de nababo de Arcote e de Haiderabade, mas desencadeada pela rivalidade anglo-francesa pela hegemonia no Sul, durou de 1749 a 1754. A ambição de Dupleix e o génio militar de Charles de Bussy levaram rapidamente os Franceses para além do Carnático. Depois, Robert Clive, um «comerciante menor» e soldado a tempo parcial da Companhia inglesa, conseguiu inverter os reveses britânicos iniciais e instalar Moâmede Ali, o candidato britânico, como nababo de Arcote. Mas Haiderabade, o objectivo mais importante, foi para os Franceses, que instalaram o seu candidato, Muzafar Jangue, como governador. As duas Companhias, além da perspectiva de exercerem poderes acrescidos por intermédio de terceiros, lucraram imenso com as hostilidades. Para pagarem as suas tropas e as das Companhias, Moâmede Ali cedeu território a Chenai, e Muzafar Jangue cedeu aos Franceses os circares (distritos) do Norte, que incluíam a maior parte do litoral de Andra Pradexe. Além disso, os funcionários das Companhias investiram somas enormes a título privado nos respectivos candidatos. De facto, os empréstimos contraídos por Moâmede Ali tornaram-no tanto um fantoche do seu consórcio credor inglês como da Companhia das Índias Orientais.

As tropas francesas de Bussy auxiliaram o novo governador contra os Maratas e outros rivais, internando-se profundamente no Decão, e os Britânicos também não foram avessos a abrir uma nova frente. Robert Clive, regressado de Inglaterra depois de um acolhimento de herói, chegou a Bombaim em 1755, de onde pensou em conduzir uma ofensiva anglo-marata contra Bussy no Decão, mas o plano foi cancelado. Clive juntou-se à esquadra da Marinha britânica comandada pelo almirante Charles Watson para um ataque épico ao que os Britânicos chamavam o «bastião do pirata de Gueriá». O «pirata» era o sucessor de Canogi Angriá como almirante da esquadra mogol e «Gueriá» era Vijaiadurgue, um promontório espectacularmente fortificado perto de Ratnaguiri, a sul de Bombaim. Vijaiadurgue foi conquistada e pilhada, e a sua queda pôs fim ao poderio naval marata e às prematuras «guerras indianas» que tinham envergonhado Bombaim. Depois, Clive seguiu para Chenai com Watson. Quatro meses mais tarde, em Julho de 1756, chegou a Chenai a notícia de que Sirajadaula, o nababo de Bengala, tinha tomado Calcutá de assalto e expulsado os Britânicos. Clive zarpou para Bengala com a esquadra de Watson, um regimento de infantaria regular e 1000 sipaios.

Os sete meses seguintes, os «Famosos Duzentos Dias», assistiram à conquista britânica da mais rica, e talvez maior, província mogol. Bengala tornou-se a «testa-de-ponte», a «rampa de lançamento» e a «fundação» do domínio britânico na Índia. Não foi a nova frente contra os Franceses que Clive tinha esperado, mas a presença francesa em Chandernagor ofereceu um pretexto conveniente para ele prosseguir o avanço depois da reconquista de Calcutá e da plena restauração dos direitos concedidos pela directiva. Chandernagor foi atacada e tomada de assalto pela esquadra de Watson no combate mais feroz da campanha. De seguida, as alegadas intrigas do nababo com os Franceses justificaram um avanço até Palassi. Na batalha, o nababo foi derrubado por uma intriga e, seguindo a prática de Arcote, foi instalado o primeiro de vários nababos fantoches.

Nove anos mais tarde, a governação através de terceiros em Bengala tornou-se a governação por divã. Numa cerimónia completamente pirosa, o imperador Xá Alame II, sucessor de Moâmede Xá, integrou formalmente a Companhia, na pessoa de Clive, na hierarquia mogol. Enquanto divã ou chanceler de Bengala, a Companhia recebeu um título praticamente equivalente à soberania sobre uma província autónoma. Embora os elementos dramáticos e os escândalos dos «Famosos Duzentos Dias» sejam frequentemente caracterizados como uma «revolução», ninguém podia afirmar seriamente que a Companhia não tinha respeitado as convenções da demanda do poder no Império Mogol tardio, e também não é evidente que a maior parte das eminências pardas de Bengala se tenham oposto ao seu novo superior. Aliás, muitos defenderam inequivocamente a intervenção britânica. Na Índia, o domínio estrangeiro raramente era considerado objectável.

Notas

(280)​Gordon, S., The Marathas 1600-1818, in NCHI, parte 2, vol. 4, p. 67.

(281)​Khafi Khan, History of Alamgir, etc., pp. 122-124.

(282)​Ibid., p. 125.

(283)​Gordon, S., The Marathas, etc., p. 74.

(284)​Sardesai, G., «Shivaji», in HCIP, vol. 7, The Mughal Empire, p. 264.

(285)​Gordon, S., The Marathas, etc., p. 92.

(286)​Richards, J. F., The Mughal Empire, etc., p. 220.

(287)​Citado in Gascoigne, B., The Great Moghuls, p. 238.

(288)​Khafi Khan, Muntakhubu-l Lulab, in HOIBIOH, vol. 7, p. 485.

(289)​Richards, J. F., The Mughal Empire, etc., p. 256.

(290)​Muzaff ar Alam, The Crisis of Empire in Mughal North India: Awadh and the Punjab, 1707-48, p. 134.

(291)​Bayly, C. A., Indian Society and the Making of the British Empire, in NCHI, parte 2, vol. 1, p. 3.

(292)​«The Mahratta Manuscripts», citado in Duff, J. C. Grant, A History of the Mahrattas, vol. 1, p. 322.

(293)​Khafi Khan, Muntakhubu-l Lubab, in HOIBIOH, vol. 7, p. 432.

(294)​Gordon, Stewart, The Marathas, etc., p. 110.

(295)​Khafi Khan, Muntakhubu-l Lubab, etc., p. 483.

(296)​Ghulam Husain, Siyar-ul-Mutakherin, citado in Majumdar, R. C. et al., An Advanced History of India, p. 529.

(297)​Gordon, S., The Marathas, etc., p. 114.

(298)​Duff, J. C. Grant, History of the Mahrattas, vol. 1, p. 354.

(299)​Hunter, W. W., History of India, vol. 7, p. 284.

(300)​Citado in Keay, J., The Honourable Company, pp. 145-147.

(301)​Bayly, C. A., Indian Society and the Making of the British Empire, etc.,
p. 48.

(302)​Marshall, P. J., Bengal: The British Bridgehead, in NCHI, parte 2, vol. 2,
p. 55.

(303)​Citado in Keay, J., The Honourable Company, p. 215.

(304)​Bayly, C. A., Indian Society, etc., p. 46.

(305)​Gordon, S., The Marathas, etc., p. 138.

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