Elza Soares, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Zeca Pagodinho, Caetano Veloso e Gisele Bündchen têm pelo menos duas coisas em comum: participaram na cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos no Estádio do Maracanã e são brasileiros. Mas distingue-os outra: a cor da pele. Como se diz por aqui, os brasileiros vão do negro-azul ao branco-cor--de-rosa. De Gil a Gisele. No Brasil há cores do mundo inteiro. E o mundo inteiro tem cor de brasileiro..Essa paleta é a essência da riqueza cultural, e não só, do país. Mas, não nos iludamos, também de algumas das suas mais graves distorções: se os crimes de ódio racial são residuais, quase desprezíveis, o apartheid socioeconómico ainda é aviltante..Por isso, em 2011, no início do hoje moribundo governo Dilma foram criadas quotas para negros nas universidades. E, em 2014, quotas para negros na função pública. Passada a tempestade de resistências que os sistemas de quotas, em benefício seja de quem for, sempre levantam, chegamos nesta semana a uma decisão do nascituro governo Temer mais tempestuosa ainda: criar comissões de avaliação da cor da pele dos candidatos. O motivo é o número de fraudes nas autodeclarações dos concursados: pessoas que, não aparentando sê-lo, se dizem negras para se beneficiar da quota..Os comités raciais de Temer sofreram natural contestação, sobretudo da comunidade científica. "Festival de besteira", definiu, por exemplo, o geneticista Sérgio Danilo Pena nas páginas da revista Veja..Análise encomendada há três anos pelo jornal Folha de S. Paulo à Clínica Gene, de Belo Horizonte, descobriu que a candidata à universidade Célia da Silva, que se declarou "muito preta", e o era na aparência, tinha 73% de genes europeus e apenas 10% africanos. Já a loiríssima Milene da Costa, "muito branca" na sua opinião, tinha 11% de raiz europeia e 37% de raiz africana. A primeira não fraudou - pelo menos conscientemente. E a segunda não se beneficiou da quota a que até tinha mais direito genético do que a primeira. Mais: uma comissão da Universidade de Brasília já deu avaliação racial diferente a dois irmãos gémeos idênticos..Se o mundo é geneticamente surpreendente, o Brasil, com descendentes de indígenas, africanos, portugueses e imigrantes de todos os cantos que se misturaram entre si como em nenhum outro país, ainda o é mais. A pergunta "qual é a sua raça?" não é fácil de ser respondida - e não apenas pelo constrangimento que causa..Como a maioria dos brasileiros concorda hoje que a política de quotas trouxe mais benefícios do que prejuízos a uma sociedade menos desigual, a sua extinção não pode estar em causa. O problema das fraudes na autodeclaração deve ser considerado um desvio que não compromete o espírito da lei, da mesma forma que as mentiras dos candidatos ao Bolsa Família sobre os seus rendimentos nem por isso impediram o mundialmente elogiado programa social de cumprir o seu papel, tirando num decénio 26 milhões da pobreza extrema no Brasil..Ou seja, já que para abater injustiças se classifica a cor da pele, a autodeclaração é o método menos terrível de o fazer. Menos terrível, sem dúvida, do que os comités raciais de Temer..A pretexto de salvar a economia brasileira, o governo liderado pelo presidente interino vem demonstrando retrocessos sociais perigosos: está empestado de cadastrados; extinguiu as pastas da igualdade racial, da juventude, do combate à fome, das mulheres, dos direitos humanos e até, num primeiro momento, da cultura; e tem ministros, como o da Saúde, capazes de dizer que os homens vão menos ao médico do que as mulheres porque trabalham mais. Os comités raciais são apenas o último dos retrocessos de um governo, por acaso ou talvez não, composto por 25 homens assumidamente brancos..Ou o penúltimo: no mesmo Maracanã onde Elza, Paulinho e Caetano desfilaram o seu colorido talento estão proibidas manifestações políticas durante os Jogos. Quem ostentar faixas "Fora Temer" é expulso do estádio. No entanto há sempre solução: faixas com a hashtag #foravocêsabequem proliferam. E na cafeteria Starbucks, ao largo do Maracanã, onde os clientes são chamados pelo nome ao serem atendidos, centenas deles andam a dizer chamar-se "Fora Temer". O que resulta num coro de empregados a gritar "fora Temer" a toda a hora. E Temer, em rigor, ainda nem entrou..Correspondente em São Paulo