"Tenho a haver três horas", "atrasaste-te dez minutos, por isso agora vou dez minutos mais tarde" ou "se comigo os telefonemas duram quatro minutos, contigo não podem durar mais" são apenas alguns dos (inúmeros) exemplos que aqui podíamos dar sobre o que significa olhar os filhos como meros objetos que é preciso dividir a régua e esquadro..Após a separação ou divórcio, muitos pais encaram os tempos de convívio com os filhos como uma verdadeira guerra que é preciso ganhar a qualquer custo, atropelando, se preciso for, os direitos e os interesses das crianças. De entre uma enorme diversidade de comportamentos desajustados que estes pais evidenciam, destaco hoje a dificuldade em olhar para os filhos como seres humanos independentes e plenos de direitos, com vontades, desejos e necessidades que importa escutar e respeitar. Filhos que não são robôs e que, por isso mesmo, podem atrasar-se, ter uma dor de barriga quando é hora de sair de casa, ter mais ou menos vontade em falar ao telefone ou sentir saudades de um progenitor e querer estar com este, mesmo que tal interação não esteja prevista no acordo judicial..Sabemos que a criança tem o direito a conviver regularmente com ambos os pais e respetivos elementos do sistema familiar, como sejam os avós, os tios, os primos, as madrastas e os padrastos, os irmãos uterinos ou consanguíneos, entre outros. Sabemos ainda que o envolvimento parental é uma variável muito importante, preditora do ajustamento da criança à separação parental, e que implica que ambos os pais possam estar presentes no dia-a-dia e nas rotinas dos filhos, o que exige convívios frequentes e extensos. Mas sabemos também que estes tempos de convívio não têm de ser, nem devem ser, medidos com um cronómetro e que, mesmo nas situações em que a criança não divide o tempo de modo a estar exatamente 50% do tempo com cada um dos pais, isso não significa, por si só, que não possa estabelecer com cada um deles uma relação de qualidade e proximidade afetiva. Afinal de contas, são os afetos e as pessoas que conferem estabilidade ao ser humano, e não as paredes, os objetos ou o tempo que marca o relógio..Neste contexto, sublinho a importância de os pais serem flexíveis e de olharem os filhos com lentes de cuidado e proteção. Lentes que atendam às suas necessidades específicas e que não permitam, em caso algum, trazê-los para as trincheiras da guerra dos pais..Psicóloga clínica e forense, terapeuta familiar e de casal