Discussões em público. Diga lá que nunca passou por isto...

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Supermercado. «Isto não está a a acontecer. Este gajo está a passar-se. Miguel, voltas a levantar a voz para mim e levas com um iogurte na cara. Eu juro que perco a cabeça e armo um pé-de-vento aqui no supermercado que vais precisar de um buraco para te enfiares. Depois nunca mais cá ponho os pés, isso é certo. Calma, Sara, conta até dez. Tu não estás a ouvi-lo, tu não estás a ouvi-lo. Tu és mais forte do que isto. Lá lá lá, pensa em música calma, na praia, nos teus filhos. Não respondas. Sorri para essa senhora ao lado que está a olhar para vocês. Calma. Respira fundo. Ignora-o.»

Metropolitano. «Palavra de honra, este gajo tira-me do sério. Para o que eu havia de estar fadada. Nunca na vida fiz uma coisa destas e detesto quando vejo outras pessoas nestas cenas. E agora estou a discutir no metro. Caraças, pá. O quê?! O que é que ele disse?! Eu o quê?! Ai, meu grandessíssimo anormal, isso é coisa que se diga? Atirares-me isso em cara? Vais ouvir das boas quando sairmos daqui. Faltam três estações. Ou não me chame eu Sara Sofia. Olha, vai já. Não vou esperar. Pronto! Está dito. Foi mais forte do que eu. Agora está tudo a olhar para nós. Para mim. Metam-se na vossa vida. Não têm problemas, não? Nunca fizeram figuras destas, querem ver?»

Automóvel. «Não posso crer. Tirem-me deste filme. Por favor, calem-se. Não vão pôr-se a discutir à minha frente, pois não? Acabámos de passar as portagens, ainda faltam três horas. Vai ser sempre assim até ao Algarve? Pelo amor da santa, se era para isto não me tivessem oferecido boleia. Ou então deixem-me aí numa área de serviço e eu desenrasco-me. Mas porque é que as pessoas fazem isto, Deus meu? Esta gente não sabe que discutir à frente dos outros é falta de educação? Caramba, não me façam isto. E logo havia de estar sozinha. Ainda por cima estou com vontade de intervir. Entre marido e mulher não se mete a colher, mas ela está mesmo a pedi-las. Eta, que tu és irritante quando discutes, Sara. Miguel, tu também já te calavas para não alimentar mais a coisa...»

Casa. «Olha, olha, é mesmo verdade. Aqueles dois estão mesmo a discutir. Não pode ser. Isto é mau de mais para ser verdade. Então estes tipos convidam esta malta toda para jantar em casa deles e agora fecham-se na cozinha a discutir? Ao menos sejam discretos. Ou falam baixo ou esperam que vamos todos embora. Ainda por cima o Miguel tem um vozeirão que até o vizinho do primeiro andar deve ouvir. Mas eles não se tocam? Não se lembram de que estamos aqui? Bolas, já estamos todos a rir-nos com isto. Não pode lá ir alguém que tenha mais confiança com eles, para lhes dar o toque? Hello, estamos à vossa espera para começar a comer. O empadão vai arrefecer. Deixem lá isso para depois.»

Consultório. «Espero que o médico não me chame agora. Bolas, já estou aqui há tanto tempo, ao menos ouço o resto da discussão. Realmente.... as pessoas não têm mesmo noção das figuras que fazem. Por que carga de água temos de assistir aos arrufos dos outros casais? O quê? O que é que ele disse? Fala mais alto, pá, assim não ouço. Ah, já percebi, pela resposta dela. Safa, que esta tipa tem língua afiada. Boa resposta. Ainda bem que ela fala mais alto, ou então não conseguia ouvir nada. Maldita curiosidade. Espero nunca fazer figuras destas. Não, nada disso. Eu e o Miguel nunca fazemos estas coisas. Deus me livre.»

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