Quando lembram a Javier Bardem que em 1997 interpretou um paralítico no filme Em Carne Viva, de Pedro Almodóvar, o actor espanhol sorri e diz "Ao menos podia mexer parte do corpo e andar de cadeira de rodas. Em Mar Adentro, além das cinco horas diárias de maquilhagem, passei dias e dias imóvel numa cama." .Bardem está numa suite de um hotel londrino, com jornalistas europeus e asiáticos, para falar do seu papel no novo filme de Alejandro Amenábar, que hoje se estreia. Ele personifica o marinheiro galego Ramón Sampedro, que ficou tetraplégico aos 25 anos, depois de um acidente ao mergulhar no mar, e tentou durante três décadas, sem sucesso, reivindicar o direito à eutanásia. Sampedro morreu em 1998, graças a um plano que contou com a ajuda de vários amigos, para que nenhum fosse incriminado.."Foi uma honra fazer Mar Adentro, primeiro porque já conhecia o Alejandro Amenábar, depois porque aprendi a conhecer o Ramón Sampedro", explica Bardem. "Tirei um mês para pensar no papel, para ler o livro dele, Cartas desde el Infierno, contactar com a família e ter uma ideia de como fazer a ligação ao Ramón. Eu queria que as pessoas acreditassem nele e não passassem duas horas a pensar que era tudo inverosímil. E depois veio a Jo Allen, a maquilhadora, e transformou-me nele. Quando me vi ao espelho disse 'OK, acredito em mim, faço o filme'. E aí comecei a entender melhor o Ramón, o seu sentido de humor e a maneira de agir, como se nada fosse sagrado." .Bardem passa a "explicar" Ramón Sampedro "Ele queria que as pessoas tivessem consciência das coisas, que não ouvissem as instituições que querem dizer- -lhes como agir e pensar. Só desejava uma morte digna, rodeado por aqueles que amava e o amavam. E o que sucedeu? Obrigaram-no a morrer 'como se fosse um ladrão', nas suas próprias palavras. Ao interpretá-lo, percebi que não temos o direito de dizer a uma pessoa na situação do Ramón o que ela deve sentir e o que tem que fazer; temos que aceitar que ela recuse viver assim, respeitar a sua vontade de morrer. A vida dele não era digna, nem para ele nem para os que o rodeavam", frisa o actor com serena convicção..A conversa é circular e volta à paralisia total da personagem. Como interpretar alguém que não se pode mexer? "Tive que me concentrar na voz e na expressão facial, em especial nos olhos, de me descontrair todo e esquecer o corpo. E trabalhei muito as pequenas emoções, porque o Ramón dizia que não queria ser tomado pela emoção. Ele sorria sempre e os que o rodeavam sabiam que ele estava a sofrer - mas nunca o deu a entender", explica Bardem..Mar Adentro teve enorme sucesso dentro de portas - foi o filme espanhol mais lucrativo de 2004 e ganhou 14 Goyas - e no estrangeiro - Grande Prémio do Júri e Prémio de Melhor Actor em Veneza, Globo de Ouro do Filme Estrangeiro, entre outros - , estando candidato ao Óscar de Filme Estrangeiro. E desencadeou em Espanha um debate muito aberto sobre a eutanásia, como conta Bardem "A certa altura parecia que o Governo ia dar um passo em frente, porque percebeu que, como disse o presidente da DMD, a organização que aparece no filme, Direito a Morrer Dignamente, 'a sociedade está sempre mais preparada para a mudança do que as instituições'. Mas aí a Igreja meteu-se de permeio e começou logo a criminalizar o filme. Por isso, acho também que as pessoas estão mais predispostas a falar sobre a eutanásia do que as instituições oficiais.".E o que deixou Ramón Sampedro em Javier Bardem? O actor responde a sorrir "Continuo com medo de morrer, não quero morrer, mas ele fez-me encarar a morte de forma mais tranquila. E tenho uma foto do Ramón que levo para todo o lado - ele está a rir-se, um riso rasgado, enorme. Quando estou preocupado olho para ela e digo: 'Que se lixe! Tudo é importante mas nada é sagrado!'"