Sendo percetível a existência de uma tentativa de inflexão do mundo à direita, por parte de poderosas forças ultraconservadoras aglutinadas em torno de princípios aparentemente díspares, mas que, na realidade não o são - do revivalismo racista e supremacista branco à revolução tecnocomunicacional e ao capitalismo financeiro -, a vitória claríssima do centro-esquerda em Portugal, no último domingo, é uma demonstração de que é possível enfrentar e vencer o espetro extremista e fundamentalista, erroneamente chamado "populismo", das forças ultrabilionárias que estão por detrás de bannons, trumps, bolsonaros, le pens e venturas, posando de empreendedores e inovadores..Os comentaristas locais, cuja maioria, durante a campanha, parecia torcer escandalosamente pelo sucesso de uma qualquer aliança política conservadora que incorporasse essa nova direita (e não o tradicional centro-direita que, historicamente, tem dividido o poder com o Partido Socialista), já o reconheceram: os portugueses decidiram votar massivamente nos socialistas, demonstrando não estar de acordo com essa eventual aliança alargada da direita, que colocasse a extrema-direita no centro do poder..O líder do PSD, Rui Rio, o principal derrotado da noite de domingo, fez uma leitura política corretíssima: o voto útil da esquerda foi todo ele colocado no balaio do PS, anulando, assim, o real crescimento do principal partido da oposição. Os principais derrotados, talvez mais do que o próprio PSD, foram, por conseguinte, os partidos à esquerda do PS, concretamente, o Bloco de Esquerda e o Partido Comunista Português. Quanto ao Livre, ainda não percebi se de facto está à esquerda do PS..O BE, pelo menos, apressou-se a concentrar a análise no crescimento da extrema-direita, chegando a acusar o PS de ter sido o responsável pelo crescimento exponencial da sua bancada. Pessoalmente, discordo dessa análise. Convém não esquecer que, em termos de número de votos, o líder da extrema-direita teve um desempenho muito melhor nas últimas eleições presidenciais do que a sua organização nas legislativas realizadas há dois dias. Outro dado a não esquecer: a espetacular implosão do CDS. Não será estulto, por isso, presumir que uma parte dos votos na extrema-direita saiu do CDS (em algumas regiões, terá também saído do próprio PCP, o que só é estranho para quem ignora a sociologia eleitoral)..Seja como for, acrescento que, na minha opinião, e apesar do impacto causado pelo crescimento da bancada da extrema-direita, esta deverá ter o mesmo destino que as organizações congéneres em outros países europeus: apesar de toda a "garganta", há de definhar com o tempo..O PCP e o BE, em particular, quer o reconheçam quer não, vão ter de fazer, parafraseando o grande escritor angolano Pepetela, uma "autocrítica sincera" (segundo ele, "a melhor invenção de Lenine"). Os factos demonstraram que, ao terem sepultado apressadamente a "geringonça" no final do passado, cometeram um erro de cálculo fatal. Na minha opinião de observador estrangeiro, não basta ao PCP, por exemplo, exibir a bandeira dos seus cem anos de história; precisa de pensar em refundar-se. Quanto ao BE, o que lhe aconteceu (incluindo as declarações pós-eleitorais ressabiadas proferidas por algumas das suas principais figuras) demonstra a dificuldade dos "revolucionários" da classe média de se despirem da sua tentação vanguardista e dirigista..As transformações sociais em geral não podem ser impostas de cima. Por outro lado, não há uma relação direta entre classe social e consciência progressista (se houvesse, como compreender a votação da extrema-direita entre alguns eleitores mais pobres?). O melhor é adotar o ditado bakongo: malembe-malembe ("devagar e bem"). Mas o BE não sabe kikongo (a língua dos bakongos)..Escritor e jornalista angolano. Diretor da revista África 21