A palavra "liberdade" foi diversas vezes mencionada ao longo da hora e meia de conversa entre a cantora Paula Oliveira, o saxofonista João Capinha e o baterista João Lencastre, conversa essa, conduzida por António Curvelo e Manuel Jorge Veloso, que antecipou o concerto com carta branca do saxofonista Jorge Reis..Para Paula Oliveira o que a "apaixonou no jazz foi a liberdade com que cada indivíduo se pode exprimir". Já João Lencastre frisou: "Gosto de ter muita liberdade [na abordagem a cada tema]"..Falando-se de jazz é inevitável falar-se de liberdade, daí que cada um dos convidados desta sessão do ciclo não se feche somente nesta música, ainda que seja neste mundo que mais se entregam e destacam..Paula Oliveira, por exemplo, tem uma relação com a música portuguesa desde criança. "Lembro-me, com dois anos, de ouvir o Paulo de Carvalho a cantar o E Depois do Adeus, no Festival da Canção". .No seu percurso chegou a passar por Barcelona e Nova Iorque, onde estudou, mas manteve sempre a vontade de cantar em português dentro do jazz. "Tem muito que ver com a poesia e com o facto de ser a minha língua mãe". O peso das palavras é também crucial: "A grande característica do instrumento voz e que diferencia é que pode pôr sons musicais em palavras. E assim as palavras ganham força e um significado muito forte"..O contexto de hoje é bem diferente daquele de quando começou a dar os primeiros passos nesta música, quando eram muito poucas as vozes que se dedicavam ativamente ao jazz. Na época existiam até alguns preconceitos: "Havia a conotação de que a cantora se arranjava muito bem, mas não sabe nada de música". Hoje há, segundo Paula Oliveira, "uma maior consciência em relação à [importância da] voz no jazz". .Foi aprendendo jazz de forma autodidata, sendo hoje professora de canto jazz na escola do Hot Clube de Portugal. Mas o momento atual é "estranho": "Há pessoas que têm consciência que é preciso trabalhar, mas há também um lado muito banal em relação ao ato de cantar", frisou..O panorama atual do ensino jazz também esteve em discussão, tendo-se referido como, apesar de hoje existirem várias escolas por todo o país e jovens interessados em aprender, nem sempre existem oportunidades de trabalho, seguindo muitos dos estudantes também a via do ensino. "Pode-se criar um ciclo vicioso. Aliás, já não estamos longe disso, porque há quase mais oferta de professores do que procura", referiu João Capinha..O saxofonista, atualmente com 28 anos, colaborador da Tora Tora Big Band (e não só), tem estado muito ligado a orquestras de jazz. "Tive a sorte de começar em 2002 na big band do Município da Nazaré. Sempre tive em orquestras de sopros e habituei-me a trabalhar em grupos grandes. A big band, no contexto jazz, é uma escola gigante e sinto-me feliz por ter começado nessa escola. Incute muita disciplina", contou..Além do jazz, João Lencastre também se tem focado noutras músicas, atuando com alguma regularidade com Tiago Bettencourt. "Comecei a ouvir rock muito cedo, mas também oiço clássica, reggae, música indiana, afrobeat. No fundo é tudo música", referiu. O baterista salientou, por isso, que encontra liberdade nos vários géneros por onde passa: "Seja na improvisação livre, que adoro, seja a tocar com o Tiago, onde posso procurar novas texturas". .A obra de Jorge Reis foi também um dos focos desta conversa e João Capinha não deixou de referir que, para si, o saxofonista "é, inevitavelmente, um músicos dos músicos e para os músicos". Conheceu-o quando ainda era um adolescente e "nem sabia bem o que era o jazz", no Festival de Valado de Frades. Cruzaram-se vários anos depois, tendo Jorge Reis sido seu professor, além de terem trabalhado juntos na Orquestra do Hot Clube. .Já Lencastre salientou como "o que faz toda a diferença [num músico de jazz] é não só conseguir improvisar, mas ter uma voz própria e o Jorge tem uma voz muito própria". .Finda a conversa, Jorge Reis apresentou no palco do Hot Clube de Portugal um quinteto, constituído para esta ocasião, para a qual teve carta branca dos criadores do ciclo. Além do próprio, atuaram João Paulo Esteves da Silva (piano), Jeffery Davis (vibrafone), João Hasselberg (contrabaixo) e Luís Candeias (bateria). Jorge Reis chegou, inclusivamente, a apresentar duas composições inéditas, além de outros temas ligados à sua carreira como Omni ou Pueblos (que dá título ao seu álbum, de 2003). .A próxima sessão do ciclo "Histórias de jazz em Portugal" realizar-se-á no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, nos dias 7 e 8 de maio, e terá o contrabaixista Carlos Barretto como músico-pivot. Vai ainda participar um combo do Conservatório de Música da Jobra e os músicos Bruno Santos, André Carvalho e Paulo Gil.