"Eu que nem gosto muito de chocolate..." é princípio de frase que não se espera ouvir de um chef e ainda menos quando se trata daquele que amanhã há de abrir O Chocolate em Lisboa, um encontro de amantes deste alimento que fica até domingo no Campo Pequeno e onde João Alves vai mostrar uma entrada com... chocolate. Tataki de atum com pimenta-de-sichuan e lascas de chocolate negro, em rigor. Uma pequena porção das dez toneladas que, calcula a organização, podem passar pelo recinto nos próximos quatro dias..Ao DN, o chef João Alves mostra outra iguaria, extravagante apenas para quem não está por dentro da história e geografia da gastronomia: foie gras e raspas de chocolate. Improvável? João Alves diz que os franceses já a tentaram. E não só. "Há muita comida com chocolate no México", explica, falando do muito usado molho mole, enquanto pincela coulis de framboesa sobre o prato branco em que vai pousar com minúcia os pedaços de foie gras e as migalhas do bolo de especiarias, a flor de sal, a pimenta-de--sichuan e, finalmente, o chocolate acabado de ralar..Os gestos do chef, de 38 anos e 15 de experiência, serão repetidos amanhã, a partir das 10.45, no Cacau Lounge no Campo Pequeno (é uma das 28 sessões programadas, sete por dia). A entrada faz parte do menu do Dia dos Namorados que será servido pelo restaurante Praia Caffé, em Oeiras, da empresa de catering BHolding..Com o S. Valentim ao virar da esquina, o tema estará bem presente por estes dias no Campo Pequeno. "Feromonas à solta", diz Paula Gabriel Mouta, naturopata e nutrigeneticista, que apresenta uma sessão (sábado, 16.45) sobre os benefícios do cacau, da cozinha à beleza e ensina, num workshop (sábado, 13.30), como fazer um exfoliante a partir do chocolate. Do mesmo produto, sempre versão negro, mais de 70% de cacau, mostra ao DN como fazer uma máscara para o rosto. Retira uma pequena quantidade, derretido, adiciona um pouco de vinho tinto, água, argila e mel, usando as propriedades de cada elemento. Aplica-a no rosto do chef João Alves e garante que fica "tonificado". "Como se tivesse passado por uma drenagem linfática ou um botox ligeiro.".Paula Gabriel Mouta usa os alimentos de forma terapêutica há 18 anos e, conta, usou a receita em si mesma há 18 anos, para curar a fibromialgia e a febre reumática. "Eu era uma velhinha de 35 anos", afirma a naturopata, atualmente com 52. Come quatro quadradinhos de chocolate negro por dia. "Há 20 anos que está na lista ORAC [Oxigen Radical Absorvence Capacity]", avisa, referindo a tabela científica dos alimentos antioxidantes. Foi depois de ter ficado doente que começou a dedicar-se à saúde "a 100%", conta..Nas suas consultas aconselha uma combinação tão inusitada como a de João Alves: dar chocolate a diabéticos. Sempre com teor de cacau superior a 70% e sem açúcar. "A fibra do chocolate auxilia na prevenção dos diabetes." Cita Hipócrates para resumir o seu trabalho: "O teu alimento seja o teu remédio.".Pôr a mão na massa.Quem quiser "pôr as mãos na massa" tem os workshops, como explica outro chef, Luís Ascensão, que pertence à organização de O Chocolate em Lisboa. Fazer bombons saudáveis, aprender mais sobre as combinações de chocolate e vinho com o crítico gastronómico Fernando Melo, usar uma máquina bean to bar (que transforma os grãos em barra) e, ainda que nada tenha que ver com chocolate (mas com o São Valentim), um workshop Arte do Burlesco e Sedução (sábado, às 19.30)..Mais entendidas ou apenas curiosas, João Alves garante que todo o tipo de pessoas procuram conhecer mais sobre chocolate nestes dias. Luís Ascensão estabelece um objetivo: "Esperamos ultrapassar os números do ano passado, 30 mil pessoas.".Ao todo, há 76 expositores de marcas e produtores de chocolates portugueses mas também de outros países (Peru, Venezuela, França, Bélgica, Áustria, Itália, Espanha, Vietname, Madagáscar, Brasil e Suíça). Hoje, às 17.00, são premiadas as três melhores criações entre os 19 participantes que se inscreveram no concurso levado a cabo por O Chocolate em Lisboa.