Enquanto o vento ia arrastando as chamas para cima da povoação de Soito da Ruiva, no concelho de Arganil (distrito de Coimbra), que ontem à tarde ficou sob extensas e espessas nuvens de fumo, numa estrada na encosta da serra do Açor, uma jovem, assistindo à tragédia, chorava desesperadamente, agarrada a um familiar, nem querendo acreditar no que se estava a passar. Só um comprimido debaixo da língua, dado por um socorrista da Assistência Social Adventista e da Adra Internacional, acabou por a acalmar, apesar de inicialmente o ter rejeitado.."Tens aqui a tua família. O resto deixa lá, rapariga?", diz-lhe uma senhora, tentando confortá- -la. Mas a jovem não se conforma ao ver a pequena localidade invadida pelo fogo. "É lá que tenho as minhas coisas. E o avô está a lutar contra as chamas! A gente estando ali fazia alguma coisa. Aqui é que não se faz nada. Mas agora nem se pode ir lá baixo", lamenta a rapariga, incrédula. Dois helicópteros e outros tantos aviões iam lançando água sobre terrenos de acessos difíceis. Mas cedo se percebeu de que os meios aéreos eram insuficientes para as várias frentes de fogo..Quem também não ganhou para o susto foi Cristina Aguiar, residente em Lisboa e que se encontra de férias na casa dos pais, em Soito da Ruiva. Teve de fugir, numa viatura da GNR, com o seu filho pequeno. O marido e os pais ficaram a defender a habitação, com os bombeiros. "Nem consigo descrever o pavor que foi. E é horrível assistir cá de cima a tudo isto. Receio pela vida dos meus pais", disse ao DN Cristina Aguiar, que, no entanto, vai permanecer até ao fim de semana naquela povoação.. Soito da Ruiva foi uma das dez pequenas localidades evacuadas no concelho de Arganil em dois dias devido ao reacendimento e à propagação do violento incêndio que deflagrou no início desta semana em Seia. À hora do fecho desta edição, as chamas continuavam incontroláveis junto ao parque eólico da Serra do Açor..Os mais de 50 idosos residentes nesses povoados, encontram-se alojados no pavilhão polivalente da Casa do Povo de Coja. Contudo, muitos deles "resistiram e reagiram mal quando foram obrigados pelas autoridades a abandonar as suas casas", referiu o presidente da Câmara Municipal de Arganil, Rui Silva, ontem à tarde, ao ministro da Administração Interna, António Costa, que se deslocou ao cimo da serra do Açor, onde se inteirou da situação..Um casal de idosos chegou ao ponto de "fugir de uma viatura" municipal quando o condutor a parou e "se distraiu com qualquer coisa. Depois, como sucedeu noutras situações, tivemos de ir buscar as pessoas", lembrou o autarca. .Apesar da fúria das chamas, não arderam habitações, nem há vítimas a lamentar. Só alguns barracões e casas devolutas, além de colmeias, se juntaram a extensas áreas ardidas de pinheiros, eucaliptos e muita vegetação. As constantes mudanças da direcção do vento agravaram ainda mais a já difícil situação. .balanço. Em todo o País, à hora de fecho desta edição, ainda estavam 18 incêndios por circunscrever, envolvendo as operações de combate às chamas dois milhares de bombeiros e 551 veículos, que durante o dia contaram com o apoio de 32 meios aéreos..Registavam-se incêndios em Figueiró dos Vinhos, distrito de Leiria, mobilizando 257 bombeiros e 63 viaturas. No distrito de Santarém, 121 bombeiros, apoiados por 33 veículos e um meio aéreo tentavam circunscrever o incêndio que lavrava no concelho de Ferreira do Zêzere, em Quebra de Cima..No distrito de Bragança as chamas continuavam a lavrar em Torre de Moncorvo (Lousa) e em Vimioso (Vila Chã), mobilizando 129 bombeiros, 36 viaturas e três meios aéreos.