Terça-feira, 4 de Abril.Ontem lá estive de novo, com o Chico, a levantar a vedação do pátio. Não uma vedação qualquer: a da varanda, que as restantes já tinham sido levantadas o suficiente..Estava para fazê-lo há bastante tempo, na suspeita de que o Melville ainda haveria de atirar-se dali abaixo, uns bons cinco metros do parapeito ao solo, assim que visse outro cão ousar pôr o pé no seu território (que é, no essencial, a freguesia toda mais o restante concelho de Angra, fora a zona económica exclusiva). Murmurei, repetidamente:.- Não, meu bicho, tu não podes ser tão doido. És doido mas não podes ser assim tão doido.....No domingo, lá veio o Américo informar-me de que o tinha visto duas vezes empoleirado no balcão, cai pra cá cai pra lá, considerando atirar-se em voo picado sobre o husky siberiano da Nela. Não me restou alternativa..Portanto, acabei de almoçar e fui à rotina costumeira: visita à Fábrica de Blocos de São Mateus, conversa de circunstância com as garotas (a Odete decidiu chamar Joel ao filho recém-nascido, o que me deixou tontamente vaidoso), três metros de rede revestida, tubos de metal, serrilhas, tintas em spray - e logo eu e o Chico perdendo mais duas horas de trabalho, serra aqui e martela acolá, parafusos e berbequins, antes bucha de metal que de plástico, e traz a caixa das porcas que estas não chegam, e mete já uma serrilha se não a rede entorta na ponta, e o cão a menear a cabeça para mim, naquele seu pesar malévolo que seria divertido se não me tirasse anos de vida: "Pensas que isto acaba aqui, mas não acaba.".Já na semana passada tinha sido o diabo. Costuma dizer-se que um cão, quando quer mesmo evadir-se de um lugar, arranja maneira. Ciente de que não tenho um cão normal, eu já me preocupara em transformar o pátio numa caixa-forte. Pois bastou atrasar-me uma noite no regresso não sei do quê. Estacionei o carro, não vi a cabecinha amarela sobre a varanda, censurando--me por insistir nessa mania de sair de casa, e pensei logo: pronto..O animal estava no jardim grande, a escavar nas begónias. Tinha--se conseguido suspender na rede sabe-se lá durante quanto tempo, abrindo com os dentes, à altura da minha cabeça, um buraco suficiente para passar..Achei um milagre que não se tivesse enforcado, pelo que nem me perguntei por que quintais vogara ao longo daquela noite - que capoeiras dizimara, com que cães fora ajustar contas, que vizinhos assustara. Fui buscar à garagem os destroços de uma cerca de madeira ainda em boas condições e metamorfoseei a caixa-forte numa espécie de Tarrafal..Martelei até às três da manhã, o cão já no quentinho na sua poltrona, bocejando como quem diz: "Mas, ó patroa, aquele tipo não me pára com aquelas marteladas, a ver se deixa um cão dormir?!".Agora foi a rede da varanda, e qualquer dia hei-de ter de vedar todo o espaço por cima também. Ficarei, já não com um canil, mas com uma gaiola. Poderei criar até periquitos. O Melville, esse, não há-de tardar a arranjar-me a chatice seguinte. Apanhará um osso de galinha no caixote do lixo, ou morderá a sua própria cauda até fazer sangue, ou atacar-me-á os viveiros de papoilas..De qualquer modo, ainda falta nascerem-lhe umas asinhas no lombo, pelo que persiste muito por onde inovar..Anos de vida. Não exagero..Sexta-feira, 14 de Abril.É Sexta-Feira Santa, e não há outro dia em que me saiba tão bem trabalhar como aos feriados. Quase não restam automóveis na estrada, os cães pasmam numa serenidade doce e a venda do Roberto abre na mesma, quase só para a vizinhança..Esforço-me por manter as rotinas matinais, mas é preguiçosamente que as executo: a limpeza do pátio, a lenha e as ripinhas para atear, o Melville e os seus quarenta minutos de passadeira (ainda assim insuficientes). Paira um silêncio de criação - de criação e de Criação, talvez - e é a perspectiva de me sentar ao computador que me leva de tarefa em tarefa..Concluo e deixo-me um pouco no alpendre das traseiras, a fumar. As olaias só agora começam a florir, quando lá em baixo em São Carlos já vão declinando, mas o trilho que o Chico fez em direcção à mata ficou perfeito, assim se concluindo com êxito mais um ciclo de obras de ordenamento. A partir daqui, e pelo menos até Outubro, tudo será jardinagem..Seja como for, os invernos chegam cada vez mais tarde e vêm cada vez mais fortes. É natural que relvas e plantas demorem a retomar a sua pujança..Concluo o cigarro, e é então que os noto. Os amores-perfeitos no canteiro do caramanchão já aí vêm, irregulares nas determinados. E as liátris que plantei junto às escadas começam a despontar..(Devíamos dar-lhes um nome a sério, livre da nomenclatura científica. Os americanos chamam-lhes blazing stars, ou estrelas flamejantes, e é pena que não lhes chamemos assim também.).Escolhemos mal as palavras quando falamos da Primavera como um renascimento. Nada disto renasce porque nada disto alguma vez morreu. O que esta altura do ano nos mostra não é que o tempo recomeça, mas que o tempo nunca acabou. Apenas assumiu outra forma, como a das borboletas - precisamente para poder continuar a existir..Talvez devêssemos encarar assim a vida e a morte também. Não falta quem o consiga, embora na maior parte dos casos por não pensar muito nisso. Gente com sorte..Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico