Destituição de Collor de Mello reforçou democracia

Uma politóloga brasileira considerou hoje que a manutenção das instituições políticas e do processo de redemocratização do país foram o principal legado da destituição do presidente Fernando Collor de Mello, há exatamente 20 anos.
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"As instituições brasileiras resistiram bem ao destituir o primeiro presidente eleito após a ditadura. O processo de redemocratização continuou e não houve consideração de golpe", afirmou à Lusa Roseli Aparecida Coelho, professora da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Collor foi eleito em 1989, ao vencer o então líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva, no primeiro escrutínio direto depois da ditadura militar.

Depois de constituir um governo sem apoio político, adotar medidas impopulares (como a confiscação das poupanças), e ser acusado de corrupção, Fernando Collor de Mello viu a sua destituição ser aprovada pelo parlamento a 29 de setembro de 1992.

Com a saída, manteve-se a democracia e assumiu o governo o vice-presidente Itamar Franco. Nas eleições de 1994, foi escolhido Fernando Henrique Cardoso.

As primeiras denúncias contra Collor surgiram na imprensa em 1990, com as suspeitas de que o tesoureiro da campanha, PC Farias, tinha comprado o apoio político de empresários. Em 1992, o irmão do presidente, Pedro Collor, afirmou em entrevista que o governante estava ligado ao esquema.

Criada uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar o caso, e o movimento dos "caras-pintadas" começaram a organizar protestos a pedindo a saída do presidente.

Para Roseli Coelho, os "caras-pintadas" foram o último movimento social de massas no Brasil. Na opinião da professora, quando não há problemas graves, a política tende a ser mais fria e distante.

"As pessoas só saem para protestar numa situação especial, como o que se vê hoje na Europa, onde a sociedade está num impasse", disse.

Acrescentou acreditar que a participação política no Brasil não ficou como legado do processo de destituição.

A cientista política Maria do Socorro Souza Braga realçou que houve uma nova tentativa de mobilização popular no ano passado, com a utilização das redes sociais, para convocar protestos anticorrupção no Brasil.

A tentativa não reuniu um grande número de jovens.

"Quanto maior a estabilidade da democracia e menor a intensidade dos conflitos sociais, mais os setores se concentram em movimentos pontuais, como as organizações estudantis dentro das universidades e o funcionalismo público, por melhores salários", afirmou a professora da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar).

Collor renunciou em dezembro ao cargo de presidente e o Senado suspendeu os direitos políticos durante oito anos.

A Justiça declarou o antigo presidente inocente da suspeita de corrupção passiva.

Atualmente, Collor é senador pelo estado de Alagoas, cargo para que foi eleito em 2006.

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